Existe uma distinção entre psicologia e vida espiritual, mas, ao mesmo tempo, são dois campos interligados. São campos distintos, por isso, uma pessoa pode ser muito religiosa e, mesmo assim, sofrer de uma doença mental. Pode até chegar à santidade e, apesar disso, sofrer de uma patologia psiquiátrica, ou, inclusive, pode santificar-se através dessa doença. São campos interligados e a vida cristã contribui positivamente para a saúde mental.
Neste breve artigo tentamos aprofundar a relação íntima que existe entre a vida espiritual e a saúde mental.
A vida espiritual cristã tem uma influencia benéfica sobre a saúde mental muito mais de quanto possamos imaginar. A obediência a Deus, aos Seus Mandamentos e às orientações da Igreja e as suas obrigações morais põem em exercício a vontade e a fortalecem, obrigando-a a dominar os apetites desordenados. A obediência à vontade de Deus é fonte de harmonia interior e, portanto, de saúde mental.
A doença mental é desordem. É falta de controlo sobre as paixões desordenadas. Quando estas, abandonadas a si mesmas, fogem ao controle de uma vontade firme, arrastam a psique para verdadeiras patologias que, com o tempo, podem tomar-se doenças incontroláveis.
Os doentes mentais procuram o psiquiatra precisamente porque não conseguem controlar as pulsões desordenadas. Mas, no princípio, anos antes, na maior parte dos casos, tais pulsões eram tendências controláveis através do conselho do sacerdote e pela graça do sacramento do perdão.
Os sacerdotes conhecem penitentes que lutam constantemente conta as paixões desordenadas, caem e se levantam, mas não desistem. Travam uma luta constante, durante anos e anos, contra as tendências desordenadas, com repetidos atos de arrependimento e propósitos de emendas. Sem esta luta árdua contra o mal ficariam escravos das suas paixões. Sem o arrependimento e se não cultivassem a vontade firme de se emendar, dia após dia, tornar-se-iam vítimas dessas tendências desordenadas e destruidoras. Sem este esforço contínuo da vontade e sem a ação da graça divina, tais paixões tornar-se-iam obsessivas e doentias. Mas esta luta constante, dia após dia, semana após semana, com recaídas e desânimos, tendo a impressão de não avançar, impede a doença mental. As pulsões, constantemente dominadas, não passam de meras tendências. A pessoa sofre, mas se mantém saudável pois, sem esta luta árdua, tornar-se-ia escrava dos seus afeitos desordenados.
Muitos psiquiatras enganam-se quando consideram a repressão das paixões como fonte de doença mental e não um meio saudável para fortalecer a vontade. A vontade é como um músculo que, ao ser trainado, fortalece-se e consolida-se. A cedência, muito pelo contrário, enfraquece-a. A repetição de atos virtuosos impede as frustrações e previne a doença mental. As tendências desordenadas, especialmente a sexual, se descontroladas, produzem uma crescente insatisfação. Esta insatisfação é causada pela cedência e não pela repressão. A repressão fortalece a vontade, acalma os apetites e produz serenidade; a cedência enfraquece a vontade, não aclama as pulsões desordenadas, mas torna-as mais agudas e produzindo, insatisfação, angústia e sentimentos de culpa. A lei fundamental da vida espiritual é a seguinte: uma vitória prepara outra vitória, uma derrota prepara outra derrota. A vitória fortalece, a derrota enfraquece.
Qualquer paixão, mesmo a que parece menos ofensiva, qualquer impulso desordenado pode tornar-se semente de um desequilíbrio mental precisamente porque foge ao controlo da vontade. Portanto, o trabalho mais importante para cultivar a saúde mental é precisamente o fortalecimento da vontade. É esta a tarefa mais importante do psiquiatra, como do sacerdote.
A renúncia ao mal e a prática do bem, o jejum e a penitência corporal ou espiritual representam o triunfo da vontade sobre as pulsões rebeldes da nossa personalidade. A crucificação das paixões, o combate contra o mal, é medicina que cura porque fortalece a vontade, não suporta a resignação, luta para a uma vida coerente com os valores morais e vence, produzindo satisfação e harmonia interior.
A pessoa que trava uma luta constante contra os vícios, que não aceita a sua tirania, que se sujeita a sofrer por amor a Deus, cura-se. O simples facto de recorrer ao sacerdote, confessar os pecados e receber o dom do perdão e da graça santificadora de Deus é uma fonte inesgotável de higiene mental. A consciência liberta-se da obscuridade e fica iluminada, porque distingue com clareza entre vícios e virtudes morais. O facto de confessar o que mais a envergonha, os segredos mais obscuros da mente, supõe um processo de auto-educação, desde a infância até ao fim da vida, pondo a nu a psique para a submeter ao juízo alheio.
A confissão é sobretudo uma graça. Deus a podia ter outorgado sem necessidade de confessar os pecados, como acontece no batismo. Mas o Redentor, conhecedor perfeito da mente humana e dos seus mecanismos, dispôs a prática desta saudável norma de saúde psíquica: a confissão oral dos pecados com o seu número e espécie. Quanto mais custa a alguém desvelar essas intimidades, tanto mais ele está necessitado desta saudável terapia.
As exigências morais da vida cristã, a oração, a meditação da Palavra de Deus, a disciplina dos sacramentos, a penitência corporal, a custódia dos sentidos e o pudor são meios poderosos de saúde mental. São meios adequados à natureza humana e, além disso, coisa ainda mais importante, transmitem a renovam da graça de Deus nas almas.
Para os crentes, a oração e os sacramentos é uma fonte invisível, diária e poderosa de correção dos aspetos desviantes da nossa natureza mental. Entre os meios com que a Igreja tem ao seu dispor, a comunhão diária, a receção do Corpo de Cristo, é a medicina mais eficaz para a saúde mental e para todas as doenças.
De Jesus saia uma força que a todos curava (Lc 6,19). Ainda hoje, todos os doentes que se aproximam de Jesus podem ficar curados. Os doentes mentais não estão decerto excluídos, podem aproximar-se de Jesus e ficarem curados. Mesmo que a sua doença mental tenha uma origem meramente química, Jesus continua a ser o médico de todas as doenças.
A oração e os sacramentos têm como finalidade a vida eterna, mas, também, não deixam de ser remédios eficazes para a mente e para o corpo; mas não podemos afirmar que curem qualquer doença e que dispensem o recurso aos médicos e aos medicamentos. A oração e os sacramentos são eficazes, mas não substituem o recurso ao médico e ao psiquiatra.
Quanto as patologias psiquiátricas, nem todas têm origem no pecado ou no enfraquecimento da vontade, embora, o fortalecimento da vontade produz efeitos benéficos. Existe uma certa relação entre o psíquico e o espiritual, embora sejam campos distintos e diferentes, como já dissemos.
As distinções entre psíquico e espiritual, como também a sua relação, tornam-se mais claras quando observamos a diferente origem das doenças mentais.
- há doenças mentais de origem química ou biológica.
- há doenças mentais de origem psíquica.
- há doenças mentais de origem espiritual.
Quanto as doenças de origem química ou biológica, não podemos esquecer que o cérebro é um órgão. Quando o equilíbrio químico ou biológico das células do cérebro fica alterado, ele deixa de funcionar normalmente. Por exemplo, a esquizofrenia paranoide pertence a esta categoria.
Contudo, estas doenças de origem meramente física, podem ficar muito aliviadas através de uma vida de oração fervorosa. Por exemplo, um paranoico, mesmo delirando, poderá recorrer a Deus Pai para que o proteja, inclusive o esquizofrénico, face à imagem alucinatória de uma serpente à solta em sua casa, poderá recorrer à ideia confortadora de uma prece à Virgem Maria, que o protegerá.
As doenças de origem psíquica ou traumáticas que geram fobias, também podem ficar muito suavizadas com uma vida espiritual autêntica, fonte de saúde mental e de contenção dos seus aspectos desordenados.
Quanto as doenças de origem espiritual que acontecem quando as paixões prevalecem e fogem ao controlo da vontade ou que a vontade não consegue dominar, podem provocar atos moralmente desordenados, tirânicos, que repetidos, podem chegar a ter um carácter patológico. Um exemplo disto é o jogador compulsivo ou o obsessivo sexual. São doenças que têm a sua origem num vício radicado. Estes poderão recorrer a um psiquiatra, mas não é estritamente necessária sua intervenção porque, em fim, eles só precisam de pôr ordem a sua alma. O sacerdote poderá ajudá-los eficazmente pelo sacramento da confissão, tendo em conta que enquanto houver desordem interior os sintomas continuarão.
A doença mental tem sempre como origem uma destas três causas que acabámos de mencionar, não pode haver outras. Contudo, nos casos mais graves a desordem interior torna-se mais complexa porque tem como origem um vício maior, que chega a constituir-se como doença mental. Outras partes da psique ficam contaminadas, tudo está emaranhado e é difícil discernir onde começam os ramos e onde começa o tronco. O que pode ajudar é ter sempre presente que o tronco desta desordem é sempre de carácter moral.
Por exemplo, uma pessoa decide não pôr nenhum travão à satisfação sexual; nisto não há nada de patológico. Mas, ao fim de uns anos, não só se abandona sem restrição alguma à busca do prazer sexual, como também começa a procurá-lo de modo desavergonhado. Num terceiro passo, essa busca desordenada do prazer leva-a a procurar objetos cada vez mais estranhos que saciem a sua ânsia. Esta busca afasta-a cada vez mais da razão natural, por isso, começa a apresentar desvios que saem muito fora dos limites naturais. Esses desvios vão comprometendo outros âmbitos da psique e, o descontrole moral, começa a produzir sentimentos de culpa cada vez mais fortes e prejudiciais.
Os crescentes sentimentos de culpa produzem vergonha e auto-desprezo até que a pessoa sente que já não remédio para ela. A auto-inculpação, cada vez mais intensa e lesiva, fá-lo sentir irreformável, perde a autoestima, cresce o auto-desprezo, nasce a ramificação patológica da doença troncal.
A doença troncal esconde-se, não quer ser descoberta, surge então o temor cada vez mais incontrolável que desemboca noutra nova doença, uma fobia social que se manifesta diante de situações muito específicas em que ele se sente descoberto pelos outros na outra faceta oculta do seu ego obscuro; já temos uma fobia além de um patológico sentimento de culpa. Da combinação da auto-inculpação com essa fobia específica pode nascer a impossibilidade de ver fotografias de quando era criança porque vê nessa imagem inocente uma repreensão à sua atual forma de ser, etc.
O mundo das ramificações patológicas é quase infinito. Isto era só um exemplo para ajudar a nossa compreensão. Há patologias que se originam apesar da vida que se leve. Mas há muitas outras, a maioria, que atalhadas desde o princípio, teriam sido abortadas.
A origem da doença mental é sempre de ordem moral, com isso, não estamos a negar o valor da ciência psiquiátrica. O que queremos dizer é que uma vida moral justa, equilibrada e sadia impede a formação das doenças mentais. As tendências continuariam a ser meras tendências, controláveis, e nada mais. Grande parte das patologias mentais, na sua origem, isto é, antes de se tornarem doenças, podiam ser controladas, reprimindo as tendências desviantes da conduta moral.
A doença mental acontece quando a pessoas não consegue controlar os impulsos desviantes. Estes, no início, eram simplesmente tendências controláveis pela força da vontade, tornaram-se doença por falta de resistência. A pessoa deixou-as desenvolver e consolidar-se como doença.
A vida moral forma um edifício harmónico, proporcionado, em que todas as forças colaboram para o mesmo fim. Reforça-se sob o domínio da vontade e a prática das virtudes morais e se enche da alegria com a coerência de vida. Todos falhamos, mas uma vida moral sadia é sempre capaz de pedir perdão e, ao sentir-se perdoado, procurar emendar-se e crescer sob uma curativa direção espiritual.
Tudo isto não anula as competências da psiquiátrica nem as suas terapias. Só queremos afirmar que a vida cristã autêntica, com as suas exigências morais é capaz de controlar as tendências desviantes da personalidade e contribuir eficazmente para a saúde mental.
Padre José António Fortea, Summa Demoniacas, Paulus, 2010 - Secção VI, Doença psiquiátrica e vida cristã, pp. 299-308
Sem comentários:
Enviar um comentário