Santa Faustina (1905-1938), no seu «Diário»,[1] relata uma experiência mística que ela teve para com uma freira falecida: numa primeira aparição, surgiu envolvida nas chamas de purificação e, numa segunda aparição, embora ainda estivesse no Purgatório, sua condição já se apresentava diferente:
eu [Faustina] não cessava de rezar. Depois de algum tempo, [a Irmã falecida] veio visitar-me novamente à noite, mas num estado diferente. Já não estava em chamas, como antes, e o seu rosto estava radiante, os olhos brilhavam de alegria e me disse que tenho o verdadeiro amor para com o próximo, que muitas outras almas tiraram proveito das minhas orações e me encorajou a não deixar [de rezar] pelas almas que sofrem no purgatório e me disse que ela já não ficaria por muito tempo no purgatório. Os desígnios de Deus são verdadeiramente admiráveis!
Vi o anjo da Guarda que disse que o seguisse”, escreveu no ano 1926. “Em um momento me encontrei em um lugar nebuloso, cheio de fogo e havia ali uma multidão de almas sofrendo. Estas almas estavam orando com grande fervor, mas sem eficácia para elas mesmas; somente nós podemos ajudá-las. As chamas que as queimavam, não me tocavam. Meu anjo da guarda não me abandonou em nenhum momento. “Perguntei a estas almas qual era o seu maior tormento. E me responderam de maneira unânime que o maior tormento era a saudade de Deus”. [2]
Nesta passagem, como noutras, Santa Faustina fala do Purgatório, vendo o Purgatório como sendo lugar físico: uma prisão, onde as almas estão a arder nas chamas vivas de um fogo real. Ela própria apercebe-se disso e tenta corrigir esta visão quando, ao convite de Jesus, responde: «Compreendo, ó meu Jesus, o significado das palavras que me diriges, mas permite que penetre antes no tesouro da Tua Misericórdia». O Purgatório não é um lugar físico, mas é um estado puramente espiritual: é o Coração Misericordioso de Jesus, onde se encontra o tesouro da Sua Misericórdia, ao qual temos fácil acesso na presença eucarística. As almas do Purgatório «estão encerradas no coração tão compassivo de Jesus», de facto é «o fogo do amor de Cristo» o único fogo purgatório.
Esta referência ao «Coração misericordioso de Jesus», no qual estão encerradas as almas do Purgatório, desfaz por completo a ideia material, cosmológica do Purgatório: as almas não estão num lugar, são purificadas pelo fogo do Amor de Cristo, simbolizado no Seu Coração Misericordioso.
Numa outra visão mística, Jesus mandou que ela rezasse a Novena à Divina Misericórdia:
«Durante estes nove dias, desejo que me tragas as almas à fonte da Minha Misericórdia, para que possam receber força, alívio e todas as graças que precisam nas provações da vida e, principalmente, na hora da morte».[3]
Hoje traz-Me as almas que se encontram na prisão do Purgatório e mergulha-as no abismo da Minha Misericórdia; que as torrentes do Meu Sangue refresquem o seu ardor. Todas estas almas são muito amadas por Mim e pagam as dívidas à Minha Justiça. Está ao teu alcance trazer-lhes alívio. Tira do tesouro da Minha Igreja todas as indulgências e oferece-as por elas. Oh, se conhecesses o seu tormento, incessantemente oferecerias por elas a esmolas do espírito e pagarias as suas dívidas à Minha Justiça.[4]
Tira do tesouro da Minha Igreja todas as indulgências e oferece-as por elas. As almas do Purgatório sentem-se profundamente consoladas pelas orações e pelos sacrifícios que os cristãos oferecem a Deus por elas: são como um bálsamo para suas dores e aliviam o peso da purificação. É uma consolação que não elimina totalmente os seus sofrimentos, mas os torna mais suportáveis, infundindo-lhes paz e alegria. Sendo ajudadas pelas orações dos que ainda vivem na terra, fica abreviado o tempo da sua purificação. Por esta assistência espiritual, as almas do purgatório, se sentem amadas e lembradas, renovando nelas o desejo de unir-se a Deus.
Tal revelação acontece no contexto da oração, particularmente da adoração eucarística, para a qual Santa Faustina se sentia especialmente atraída, em conformidade com o nome que ela própria assumiu, Irmã Faustina do Santíssimo Sacramento.[5] O que é o Purgatório
O PURGATÓRIO NÃO É UM CASTIGO: É UMA OPORTUNIDADE.
O Purgatório é uma criação da Misericórdia Infinita de Deus que quer a salvação de todos os homens, por Ele criados a sua própria imagem e semelhança e destinados à bem-aventurança eterna (cf. Catecismo n. 1), isto é, à «visão beatífica», que é, ver a Deus «face-a-face», assim como Ele é (cf. 1Cor 13,12).
Deus é Santo, três vezes Santo (Is 6,8), ninguém pode vê-Lo nesta vida. Só depois da morte, quando entramos na dimensão da eternidade, O poderemos ver; mas ninguém poderá entrar nessa comunhão perfeita com Deus se tiver resquícios de pecado. Temos de nos purificar ou durante a vida terrena ou depois da morte: “sem a santidade ninguém pode ver a Deus” (Hb 12, 14). Este é o Purgatório.
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