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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A queda dos anjos

 O Diabo não caiu por inveja do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, mas por soberba. A soberba é o amor desordenado à sua própria excelência, enquanto a inveja é o ódio à excelência e a felicidade dos outros. Por isso, a inveja não pode atuar antes da soberba, mas somente depois dela, porque é a sua consequência. (...)

A queda dos anjos aconteceu antes da criação do homem e não foi por causa da inveja que o diabo se tornou soberbo, mas por causa da soberba que se se tornou invejoso.

Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (IV Concílio de Latrão (ano 1215), Cap. 1, De fide catholica: DS 800.).

 Lúcifer: soberbo, mentiroso e assassino

As Sagradas Escrituras e a tradição da Igreja apontam realmente o pecado de dos anjos foi um pecado de soberba, que decorreu em outros pecados como o orgulho, a inveja, a mentira etc. Lúcifer, apesar de ser “o Anjo mais elevado, mais belo e mais perfeito” - como diz Orígenes - foi capaz de se transformar em diabo - num ser terrível e maligno - tal como é conhecido.

Muitos Exorcistas, pela experiência nos Exorcismos, afirmam que Satanás e o Diabo são o mesmo ser, como a Bíblia o dá a entender nalgumas passagens.

A palavra Satanás significa adversário, inimigo, opositor. A palavra Diabo deriva de um verbo grego e significa «Acusador». Era um anjo bom, mas, com a queda, deformou-se e tornou-se «demónio». Desde que consentiu ao pecado de soberba, Satanás, foi expulso do Céu. Mas não se corrompeu e não se deformou sozinho. Era o Anjo mais belo e grandioso no Céu, tanto que os outros Anjos o admiravam pela sua tamanha beleza e a sua grande inteligência que lhe permitia dominar os outros Anjos. Por isso, com a sua própria corrupção, conseguiu arrastar uma multidão de Anjos. Como é que aconteceu? Satanás autoconvenceu-se de que, pelo seu poder e inteligência, podia ser igual a Deus, o como tal ser reverenciado pelos outros anjos. Estes, também dotados de inteligência, de livre arbítrio e de um certo grau de conhecimento de Deus, deixaram-se convencer por ele, e acreditaram que ele era maior do que o próprio Deus, e que não poderiam, de maneira alguma, estar a serviço da criatura humana.

São Boa Ventura levanta esta possibilidade muito concreta quando, comentando a queda dos Anjos, afirma que os Anjos que seguiram Lúcifer, não somente pecaram em acreditaram nas suas mentiras, mas também eles, de alguma forma, caíram no pecado de soberba que surgiu em Lúcifer e começava a se refletir neles. Desse modo, os outros anjos começaram a desejar a mesma excelência de Lúcifer, deixaram-se corromper progressivamente pelo pecado da soberba e decidiram seguir a Lúcifer – pois, para eles, somente por meio da exaltação de Lúcifer é que poderiam também eles obter tamanha glória.

Imaginemos a força da inteligência e dos argumentos de Lúcifer que consegui convencer “um terço” dos anjos (Cf. Gn 12,4).  Todos os Anjos passaram pela mesma prova! A prova da liberdade, da escolha, da inteligência e da razão! Todos poderiam ter escolhido a Deus! Nenhum deles estava obrigado a seguir a rebeldia de Lúcifer! Contudo, por livre escolha, se corromperam, se rebelaram e se transformaram em demônios!

Na ocasião da queda do Anjos, Lúcifer revelou-se tal como ele é: o “pai da mentira” e “assassino por excelência” (Cf. Jo 8,44) e, com a sua habilidade, conseguiu enganar muitos Anjos que o seguiram. De certa forma, pecou por ter “assassinado” a possibilidade que os anjos tinham de continuarem uma vida em Deus. Ele foi assassino e mentiroso desde o princípio: não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala diz mentiras, fala do que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira (Jo 8,44).

Também Satanás é chamado “pai da mentira” e “assassino”, porque foi exatamente com uma mentira que induziu a pecar a Adão e Eva, convencendo-os a comer o fruto da árvore do conhecimento, porque se tornariam com como Deus (Cf. Gn 3,4), trazendo, assim, a morte espiritual e física não somente para Adão e Eva, mas para toda a humanidade!

Ele se mostrou assassino e mentiroso! Mentiu para os seus Anjos, mentiu para os nossos primeiros pais, trouxe a morte para o mundo e a sua própria ruptura definitiva para com Deus. A palavra de Deus atesta esta verdade quando nos diz: «pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos» (Sb 1,13); «ora, Deus criou o ser humano incorruptível, à imagem da Sua própria natureza: foi por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo...» (Sb 2,23-24) Portanto, ele é mentiroso e assassino desde o princípio.

São Jerônimo diz: «Com Lúcifer, um dos seus príncipes, caíram muitos outros; (...) Lúcifer pecou por orgulho e consigo arrastou um terço das estrelas, isto é, dos Anjos».

O Exorcista, o Padre Francesco Bamonte, exorcista e presidente da Associação Internacional dos Exorcistas, relata que durante um exorcismo o demônio exprimiu sua revolta contra Deus desta forma:

«Rebelei-me porque eu não era Ele. Queria ser como Ele. Eu tinha muitos poderes e, por isso, acreditava que podia ser igual a Ele. Eu queria ser Ele. Muitos seguiram-me, porque eu tinha-lhes prometido tudo, tudo, tudo... Tinha prometido que eu seria como Deus. Eu tinha muitos poderes, tantos que até eles [os outros Anjos] acreditaram que eu podia ser como Deus. Eu era o maior e o mais belo; eu era ainda mais belo que Miguel».

Neste relato acima, vemos realmente a verdadeira imagem que Lúcifer tinha de si mesmo, sua intenção de ser como Deus, e como ele enganou os outros anjos por tamanha excelência que havia nele. Vemos também como ele mentiu para estes anjos, prometendo-lhes realidades que não poderia alcançar.

Ainda neste mesmo Exorcismo, o Exorcista ordenou-lhe:

– Em nome de Jesus: Como te chamavas antes da Rebelião? A resposta foi: Lúcifer...

O Exorcista perguntou, ainda, o que realmente significava aquele nome, e ficou surpreso com a resposta, quando o mesmo disse:
– Anjo. Anjo acima dos Anjos... Anjo por excelência.

Não devemos sempre acreditar em tudo o que o Demônio diz, sendo ele mentiroso e Pai da mentira, mas algumas vezes, ele é obrigado, por uma intervenção divina, a se revelar ou obedecer ao Exorcista.

Quanto ao entendimento da queda de Lúcifer, temos algumas afirmações importantes para fecharmos este assunto.

No Concilio de Latrão IV, há um decreto que afirma: «O Diabo, porém, e os outros espíritos maus, foram criados bons por sua natureza, mas tornaram-se maus por obra de si mesmos» (CIC 404.)

Nesse texto não é colocada a questão do tipo de pecado que causou a queda, mas se afirma que foi um ato de liberdade dos mesmos. O Catecismo de São Pio X, que é um resumo da doutrina católica em forma de perguntas e respostas, na questão 39 afirma:

Foram os Anjos todos fiéis a Deus? «Os Anjos não foram todos fiéis a Deus, mas muitos deles, por soberba, pretenderam ser iguais a Ele e independentes; por causa deste pecado, foram excluídos do Paraíso para sempre e condenados ao Inferno». O mesmo Catecismo diz que o nome dos Anjos condenados ao Inferno são Demônios, que têm por seu chefe Lúcifer ou Satanás (Cf. Questão 40).

O Papa Paulo VI, na sua famosa audiência de 15 de novembro de 1972, afirma: «Os Demônios são criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas; constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual conhecemos pouco».

O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica resume a queda dos Anjos desta forma: «O que é a queda dos Anjos? Com esta expressão, indica-se que Satanás e os outros Demônios de que falam as Sagradas Escrituras e a Tradição da Igreja, de Anjos criados bons por Deus, se transformaram em maus, porque, mediante uma opção livre e irrevogável, recusaram Deus e o Seu Reino, dando assim origem ao Inferno».


Deus não poderia ter perdoado os Anjos?

Após vermos como se deu a queda dos Anjos e sua transformação em Demônios, certamente passou pela nossa cabeça que, uma vez que Satanás viu o seu erro, viu sua derrota frente a Deus e aos Anjos de Deus, viu que se deformou em trevas; não poderia, então, ter-se ele arrependido e voltado atrás de sua decisão? E se o Demônio se arrependeu, poderia Deus tê-lo perdoado e restabelecido o seu posto como um Anjo de Luz novamente?

O que nos ensina a Igreja neste sentido é que, caso o Demônio houvesse se arrependido, certamente Deus lhe teria perdoado, pois Deus é amor, e é amor sempre! Mas a realidade é que o Demônio não se arrependeu e nem mesmo se arrependerá dos seus erros e de sua rebelião; e continua até os dias de hoje, ininterruptamente, com o seu pecado de soberba e mentira, atacando os filhos de Deus para os fazer cair.

Duas realidades os fazem não se arrependerem e voltar atrás dos seus erros:

- A primeira é a realidade de que os Anjos, por serem criaturas espirituais, são dotados de uma lucidez e de uma inteligência desproporcional e superior aos homens. Isso significa que, quando fazem uma escolha, o fazem com tamanha força interior, liberdade e clareza, que é impossível voltarem atrás dessa opção.

- A segunda razão é que, uma vez que o Demônio, em sua vontade e liberdade, não quer aceitar a Deus, e na verdade O rejeita e O despreza, não poderá haver sobre tal ser a graça de Deus que conduz ao arrependimento.

Sendo assim, será impossível que ele se arrependa, uma vez que a contrição de coração e o arrependimento são uma ação da graça de Deus sobre a criatura. Portanto, podemos dizer que Deus é capaz de perdoar qualquer pecado, mas não pode perdoar a um Demônio, pois a lei que o próprio Deus estabeleceu foi que o perdão é dado àquele cujo coração se arrependeu; logo, uma vez que um Demônio jamais se arrependerá, jamais haverá perdão para ele. Portanto, não é Deus incapaz de perdoar, mas é o Demônio que não quer arrepender-se e voltar.

São João Paulo II, em um discurso dado em 23 de julho de 1986, fez esta afirmação sobre a queda dos Anjos:

«Com base em sua liberdade criada, fizeram uma opção radical e irreversível, igualmente como os Anjos bons fizeram, mas diametralmente oposta: em vez de uma aceitação de Deus plena de amor, lhe opuseram uma rejeição inspirada num falso sentido de autossuficiência, de aversão e até de ódio que se converteu em rebelião». São João Paulo II afirma que foi uma opção radical e irreversível!

O Catecismo da Igreja Católica (n. 393) é muito claro a esse respeito: «É o caráter irrevogável de sua opção, e não uma deficiência da infinita misericórdia divina, que faz com que o pecado dos Anjos não possa ser perdoado». E cita uma afirmação de São João Damasceno: «Não existe arrependimento para eles [Demônios] depois da queda, como não existe para os homens após a morte». O Catecismo continua: «Esta “queda” consiste na opção livre desses espíritos criados, que rejeitaram radical e irrevogavelmente a Deus e seu Reino» (CIC 392)

Podemos afirmar que os Demônios escolheram para sempre o que conheciam convictamente. Os homens, por causa da sua natureza já manchada pelo pecado original, podem se arrepender e voltar atrás de suas decisões; pois não há nos homens tamanha clareza e lucidez sobre as realidades de Deus e do mundo espiritual que os cerca. Uma vez enraizadas no homem as consequências do pecado original, ele acaba sendo condicionado e influenciado pelas suas próprias paixões e limitações, posição esta que o limita em suas decisões e percepções.

São Tomás de Aquino ensina que, a diferença dos Anjos, os homens não podem tornar-se bons ou maus num único e preciso momento, mas este caminho é feito lentamente, de escolhas em escolhas, diante dos atos que se faz, das diversas possibilidades que se apresentam.

É exatamente por isso que, apesar da gravidade do pecado de Adão e Eva, seu erro não manteve os homens num estado decaído de eternidade, mas abriu-se aos mesmos – e a toda a humanidade – a possibilidade de um caminho de arrependimento e perdão. 

O diabo na liturgia da igreja

 A Igreja, na sua liturgia, não ignora a obra devastadora de Satanás. Na celebração do Baptismo das crianças, antes do rito da água, encontramos a renúncia a Satanás e a profissão de fé da Igreja, na qual as crianças são baptizadas. Existem duas fórmulas:

– a primeira, mais direta: “Renunciais a Satanás? E a todas as suas obras? E a todas as suas seduções?” A segunda, mais suave, mas igualmente clara: “Renunciais ao pecado, para viverdes na liberdade dos filhos de Deus? Renunciais às seduções do mal, para que o pecado não vos escravize? Renunciais a Satanás, que é o autor do mal e pai da mentira?”

– A seguir, encontramos, um pequeno exorcismo porque também as crianças “hão-de experimentar as seduções do mundo e lutar contra as ciladas do diabo” para que sejam protegidos pela graça de Cristo”. (Introdução, n. 8):

«Deus todo-poderoso e eterno, que enviastes ao mundo o vosso Filho para expulsar de nós o poder de Satanás, espírito do mal, e transferir o homem, arrebatado às trevas, para o reino admirável da vossa luz, humildemente Vos pedimos que estas crianças, libertadas da mancha original, se tornem morada do Espírito Santo e templo da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.» (Ritual do Baptismo)

Os adultos que se preparam para o baptismo são chamados catecúmenos. Para eles são previstas três celebrações chamadas “escrutínios”, que se deveriam realizar no terceiro, quarto e quinto domingo de Quaresma, nas quais é feito um pequeno exorcismo, porque – como diz São Paulo – não temos que lutar contra seres humanos, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas que dominam o mundo, contra os espíritos do mal que estão no céu. (Ef 6,12)

Podemos lembrar que na Igreja existe o Ritual dos Exorcismos o qual foi renovado depois do Concilio Vaticano II.

O Papa Francisco no passado dia 08 maio de 2018, na homilia da Santa Missa celebrada na Casa Santa Marta, falou do diabo, disse: «o diabo é um derrotado, mas move-se como um vencedor. É pela sua incrível capacidade de “seduzir”, que é muito difícil entender que é um derrotado».

O malefício é um mal causado pela vontade perversa de um homem em conluio com Satanás através da magia.

4) Os demónios, se o pudessem, destruiriam o universo inteiro, mas Deus não lho permite, domina-os totalmente, tanto que, mesmos sem o quererem, torna-os Seus servidores e colaboradores do Seu plano de salvação da humanidade. Deus, na Sua infinita Sabedoria e Providencia, serve-se da ação perversa dos demónios, para santificar as almas, quando estas lhes resistem fortalecidas pela graça divina. Tal como aconteceu a Jesus Cristo também acontece aos seres humanos, a cruz transformar-se-á em glória. Além disso, Jesus Cristo deixou à Sua Igreja os remédios mais eficazes para os vencer, a oração, os sacramentos e os sacramentais, Nossa Senhora, os anjos e os santos.

5) A ação dos demónios é também limitada no tempo: só podem atuar ao longo da história humana, até ao julgamento final (Ap 12,12). Durante este tempo podem tentar e atormentar os homens, como fizeram com Job, a Paulo e ao próprio Cristo; mas sempre dentro dos limites estabelecidos por Deus.

6) Deus prometeu a sua bênção a Abraão e aos seus descendentes. Esta bênção passou de geração em geração, até se realizar plenamente em Jesus Cristo: «Bendito seja o Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que no alto do Céu nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo.» (Ef 1,3) Em Jesus Cristo, o Filho de Deus, que venceu a Satanás, o pecado e a morte, todos os seres humanos são abençoados e todos recebem a plenitude da vida. Deus é assim glorificado «porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que estão na terra como as que estão no céu.» (Cl 1, 19-20).

7) A Salvação de Jesus Cristo chega a toda a humanidade através da Igreja. A Igreja recebeu dos apóstolos o depósito da fé, em nome de Cristo proclama a Palavra de Deus, administra os Sacramentos da salvação, expulsa os demónios, cura os doentes, perdoa os pecados, reúne para celebrar a Eucaristia, compartilha com os fiéis a Bênção de Jesus Cristo, Seu Filho amado, em quem Ele colocou toda a Sua complacência (Cfr. Mt 3,17 e par.).

É dentro destes simples princípios teológicos que deve ser enquadrada a reflexão sobre os malefícios, centrando a atenção em Jesus Cristo Salvador que concedeu à sua Igreja os meios mais eficazes para libertar os homens da escravidão do demónio. 

O objetivo de Satanás é sempre destruir o ser humano, ser este, criado a imagem e semelhança de Deus (Gn 3,27; Sab 2,23-24) e redimido pelo Sangue do Seu Filho, Jesus Cristo, pelo qual recebeu a dignidade de filho de Deus (1Jo 3,1-2). Satanás quer separá-lo de Deus, torná-lo seu escravo e levá-lo à perdição eterna. Jesus Cristo, através da Sua Igreja, quer reconcilia-lo com Deus e dar-lhe a vida eterna. A Igreja, em nome de Jesus, perdoa os pecados, cura os doentes, expulsa os demónios e liberta dos malefícios. Quanto mais impressionante é a ação de Satanás, tanto maior é a misericórdia de Deus e a Sua intervenção libertadora a favor dos homens.

A teologia não pode negar a existência dos demónios, da possessão diabólica e dos malefícios, coisas confirmadas pela Sagrada Escritura e pelos factos. Deus permite que todas estas coisas aconteçam porque «tudo concorre para o bem daqueles que O amam» (Rom 8,28). Mesmo nestas situações tão dolorosas, Deus manifesta a Sua insondável Misericórdia, perdoa os pecados, cura e liberta, santifica as almas para que cheguem à salvação eterna.

De fato, observamos que, as vítimas de malefícios, através das suas tribulações, depois de terem percorrido em vão os caminhos perdidos dos mágicos, voltam a Deus e à Igreja - desesperados - encontrando Nela consolação e salvação.

Jesus expulsa os demónios

A todos aqueles que objetavam que Ele expulsava os demónios em nome de Belzebu, príncipe dos demónios, Jesus fazia-lhes observar que Satanás não podia expulsar a Satanás, e acrescentava: «se Eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós. Quando um homem forte e bem armado guarda a sua casa, os seus bens estão em segurança; mas se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos.» (Lc 11, 20-222). Jesus é o homem mais forte que o venceu.

De facto, Jesus, expulsava os demónios e deu este poder aos apóstolos e aos seus discípulos. No Evangelho de São Marcos encontramos uma breve anotação:

«À noitinha, depois do sol-pôr, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos, e a cidade inteira estava reunida junto à porta. Curou muitos enfermos atormentados por toda a espécie de males e expulsou muitos demónios; mas não deixava falar os demónios, porque sabiam quem Ele era». (Mc 1, 33-34).

E no Evangelho de São Mateus encontramos diversos resumos da atividade de Jesus, um deles é o seguinte:

«Depois, começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades.  A sua fama estendeu-se por toda a Síria e trouxeram-lhe todos os que sofriam de qualquer mal, os que padeciam doenças e tormentos, os possessos, os epilépticos e os paralíticos; e Ele curou-os. E seguiram-no grandes multidões, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.» (Mt 4, 23-25)

Sobre a atividade dos Apóstolos, encontramos a seguinte afirmação:  

«Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem doenças. Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes … Eles puseram-se a caminho e foram de aldeia em aldeia, anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte.» (Lc 9, 1-6)

Os Evangelhos relatam que Jesus exorcizava. Encontrou diversas pessoas atormentadas pelos demónios que Ele libertou com a Sua autoridade divina, deixando espantados os seus contemporâneos.

Quando Jesus libertou o possesso na Sinagoga de Cafarnaum, todos ficaram «dominados pelo espanto, diziam uns aos outros: «Que palavra é esta? Ordena com autoridade e poder aos espíritos malignos, e eles saem!»  (Lc 4,36); Jesus acalmou a tempestade e todos «cheios de medo e admirados, diziam entre eles: «Quem é este homem, que até manda nos ventos e nas águas, e eles obedecem-lhe?» (Lc 8,25); e depois da cura do jovem epilético «todos estavam maravilhados com a grandeza de Deus» (Lc 9, 43); um dia que Jesus estava a libertar uma pessoa que tinha um espírito mudo e «quando o demónio saiu, o mudo falou e a multidão ficou admirada» (Lc 11, 14)

A Igreja recebeu de Jesus o poder de expulsar os demónios: «Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todas as enfermidades e doenças.» «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.» (Mt 10, 1.8). A Igreja está bem consciente desse poder, pois, entre os livros litúrgicos, está incluído o “Ritual dos Exorcismos”.

No tempo em que São Marcos escrevia o seu Evangelho, todos os fiéis expulsavam os demónios, sem nenhuma restrição, antes, era considerado o primeiro dom carismático: «Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios» (Mc 16,17)

Entre os numerosos testemunhos escolhemos o de São Justino, martirizado em Roma em 165, o qual escrevia: «Numerosos endemoniados de todas as partes do mundo e da nossa mesma cidade, que não foram curados dos outros exorcistas, encantadores e mágicos, foram curados pelos nossos cristãos que expulsaram os demónios em nome de Jesus Cristo» (Apologia 11,6)

Quem são os demónios

A Bíblia fala do diabo com naturalidade e sem suscitar nenhum medo. É um anjo decaído, uma simples criatura e, como tal, sujeito à vontade soberana de Deus, não pode ser colocado de forma nenhuma ao mesmo nível de Deus. Deus é o Senhor e o Criador de tudo e de todos. Satanás é uma simples criatura, um nada diante de Deus.

O Catecismo da Igreja Católica afirma: «A existência dos seres espirituais, não-corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição» (n. 328). «Enquanto criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e vontade: são criaturas pessoais e imortais. Superam em perfeição todas as criaturas visíveis» (n. 330).

Os anjos, portanto, são criaturas pessoais, conscientes, dotadas de inteligência, vontade e liberdade.

«Segundo o ensinamento da Igreja, o diabo foi primeiro um anjo bom, criado por Deus» (391). A queda dos anjos «consiste na livre opção destes espíritos», uma opção radical e irrevogável, uma recusa de Deus e do Seu Reino (392). O carácter irrevogável dessa opção não foi por uma falta de misericórdia da parte de Deus, isto é, não foi porque Deus não lhes concedia o perdão, mas por falta de arrependimento da parte deles, a mesma coisa que pode acontecer aos homens depois da morte (393).

Os demónios existem e podem incentivar os seres humanos ao mal, mas nunca pode atuar sem o consentimento dos homens, nunca podem ultrapassar o seu livre arbítrio. O reino de Satanás é o Reino das trevas, mas não teria nenhum poder se os seres humanos não lho concedessem.

Os anjos, sendo espíritos puros, ultrapassam na perfeição as criaturas humanas, não sofrem das limitações do espaço e do tempo, nem das limitações que o corpo humano impõe. Não necessitam de água nem de alimentos, não dependem das necessidades materiais. Conhecem a realidade de forma intuitiva e imediata, não estão sujeitos à lenta e custosa aprendizagem, descritiva e limitada, dos seres humanos.

Os anjos e os demónios colaboram, embora de forma diferente, para a salvação da humanidade. Os anjos bons, de forma directa, acompanhando e ajudando os homens pelo caminho do bem. Os demónios, de forma indirecta, levando os seres humanos a combater o mal, a arrepender-se e a santificar-se. Assim sendo, os demónios, mesmo fazendo o mal, promovem o bem. Deus, que é Sabedoria Infinita, é capaz de tirar o bem também do mal e utiliza também a malícia perversa dos demónios para santificar as almas.

O Todo-poderoso permite que os demónios ataquem os seres humanos mas é para fazer crescer neles a santidade. 

São Tomás de Aquino explica que o lugar próprio dos anjos é o paraíso e o lugar próprio dos demónios é o inferno, contudo, Deus permite que uns e outros actuem livremente no meio dos homens, os anjos bons, para os conduzir no caminho do bem e os demónios, para os tentar. Mas, Deus domina perfeitamente a malícia dos demónios e serve-se dela para santificar as almas, desta forma, mesmo contra a sua vontade, eles também se tornam Seus servidores. Os demónios são fortes e temíveis, mas Deus, pela Graça Divina que opera nas almas, vence-os sempre.

Os demónios mantêm a sua natureza angélica, mas continuam a ser criaturas e submetidas ao poder soberano de Deus, instrumentos das Sua mãos, Seus servidores e Seus escravos. Do mesmo modo que os presos eram condenados a remar nas galés do Estado, assim os demónios estão condenados a trabalhar neste mundo, pela salvação das almas e pela maior glória de Deus.

Deus é o único Senhor e tudo obedece a Sua Santíssima vontade.

Os anjos, gozam de um livre arbítrio muito mais perfeito do que os seres humanos, porque não estão sujeitos aos condicionamentos da sensibilidade e da instintividade. A vontade humana é hesitante e mutável e tem dificuldade em tomar decisões e concretizar os objetivos. Os anjos, atuam tendo uma vontade firme e persistente, tomam decisões firmes desde o início e perseguem com firmeza e sem hesitações, os seus objetivos. Por isso, os anjos bons são de verdade santos, porque servem fielmente a Deus, fazendo sempre o bem, sem nenhuma hesitação. Os demónios, pelo contrário, desde que se rebelaram contra Deus, são corruptos, atuam sempre fazendo mal, com firme determinação. Os demónios conservam integralmente as qualidades da sua natureza angélica, por isso, são mais poderosos do que os seres humanos, mas continuam a ser criaturas limitadas e sujeitas à vontade soberana de Deus. Os demónios não podem fazer tudo, nem conhecer tudo, mas só o que Deus lhes permite. Deus mantem o controle absoluto sobre ele e, como já dissemos, serve-se da sua ação maléfica para santificar as almas e produzir nelas um bem ainda maior. Os seres humanos, pelo poder da Graça Divina, vence-nos fazendo o bem e crescem em santidade.

A conspiração do silêncio perante a existência dos demônios

É muito conhecida a intervenção do Papa Paulo VI de 15 de Novembro de 1972, onde, ao falar do diabo, afirma: «Na Sagrada Escritura e na Liturgia é chamado “domínio das trevas” (Lc 22, 53). Ele é o inimigo número um, o tentador por excelência. Sabemos, portanto, que este ser mesquinho, perturbador existe realmente e que actua com astúcia traiçoeira: é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na história humana. É o sedutor pérfido e obstinado que sabe insinuar-se em nós através dos sentidos, da imaginação, da concupiscência, da lógica utópica, das relações sociais desordenadas, para induzir nos nossos actos desvios muito nocivos que, no entanto, parecem corresponder às nossas estruturas físicas ou psíquicas ou às nossas aspirações mais profundas». (Georges Huber, O diabo, hoje, Quadrante 1999, p. 10)

Satanás sabe «insinuar-se» para induzir os homens ao pecado. Afirmação que nos lembra a advertência de São Pedro: «Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que a vossa comunidade de irmãos, espalhada pelo mundo, suporta os mesmos padecimentos.» (1 Pe 5,8-9)

Alguns anos antes dessa intervenção de Paulo VI, o cardeal Gabriel-Marie Garrone denunciava a «conspiração do silêncio» que reina em torno da demonologia, pois: «... a Igreja tem sobre este ponto uma certeza que não se pode rejeitar sem temeridade e que se baseia num ensinamento constante, cuja fonte remonta ao Evangelho e mais longe ainda. A existência, a natureza e a ação do demónio constituem um terreno profundamente misterioso em que a única atitude sábia consiste em aceitar as afirmações da fé, sem pretender saber mais do que aquilo que a Revelação achou por bem dizer». E o cardeal concluía: «Negar a existência e a ação do Maligno equivale a oferecer-lhe um começo de poder sobre nós. Nisto, como em tudo o mais, é melhor pensar humildemente com a Igreja e não se colocar, por uma presunçosa superioridade, fora da influência benfazeja da sua verdade e da sua ajuda». «Creio na sua existência, na sua influência, na sua inteligência subtil, na sua capacidade suprema de enganar, na sua habilidade para introduzir-se por toda a parte, na sua capacidade consumada de levar-nos a pensar que não existe. Sim, creio na sua presença entre nós, no seu êxito, mesmo dentro de grupos que se reúnem para lutar contra a autodestruição da sociedade e da Igreja. Ele consegue que os cristãos se ocupem em atividades completamente secundárias e até infantis, em lamentações inúteis, em discussões estéreis, e durante esse tempo pode continuar o seu jogo sem receio de ser incomodado».

Quais são as razões de ordem sobrenatural e de ordem natural que o levavam a essa crença? O Cardeal Garrone, continua:

«Sim, creio em Lúcifer, e isto não é uma prova de estreiteza de espírito ou de pessimismo. Creio porque os livros inspirados do Antigo e do Novo Testamento falam do combate que o demónio trava contra aqueles a quem Deus prometeu a herança do seu reino. Creio porque, com um pouco de imparcialidade e um olhar que não se feche à luz do Alto, se vislumbra e se comprova como este combate continua sob os nossos olhos. Não se trata, certamente, de materializar Lúcifer, de ficar nas representações de uma falsa piedade popular, mas não há dúvida de que o Príncipe do mal atua: atua no espírito e no coração do homem. Creio em Lúcifer porque creio em Jesus Cristo, que nos põe de sobreaviso contra ele e nos pede que o combatamos com todas as nossas forças, se não queremos ser enganados sobre o sentido da vida e do amor. (Gabriel-Marie Garrone, Que faut-il croire? Desclée, Paris, 1967, pp. 61.69)

A revelação do «mistério da iniquidade»

Até agora tentamos explicar o mal como consequência das nossas limitações humanas e das nossas escolhas erradas. O nosso livre arbítrio é com certeza uma razão importante que nunca devemos esquecer. Contudo não consegue explicar tudo. Há coisas que não conseguimos explicar. Coisas que acontecem e provocam revoltas contra a vida e contra o próprio Deus. Por isso, se por um lado, não podemos dar uma resposta apressada, mas por outro lado, não podemos esquecer que Deus, pela Bíblia, desde a criação até a Jesus Cristo, dá resposta a esta questão. Uma resposta de fé, uma resposta que é luz para todos aqueles que acreditam, mas que é trevas para aqueles que não acreditam. Confiar em Deus, acreditar Nele, é mais uma opção fundamental do nosso livre arbítrio. Se acreditamos encontramos a luz da vida. Se não acreditamos ficamos nas trevas.

A revelação do «mistério da iniquidade» 

A Sagrada Escritura lança uma luz que nos ajuda a compreendermos melhor o «mistério do mal». No Livro do Genesis, aparece pela primeira vez «a serpente antiga», «o tentador» uma imagem simples e poderosa. É o pecado das origens, através do qual o mal entrou no mundo e se espalhou ao longo da história. São Paulo explica que através dele, toda a criação «foi submetida à vaidade» (Rm 8, 20); dessa maldição faz amarga experiência toda a humanidade caída sob o império do pecado.

A morte entrou no mundo «por inveja do diabo e fazem experiência dela todo os que lhe pertencem» (Sab 2, 24). Os homens pecaram em Adão, mas foram redimidos em Jesus Cristo, o novo Adão «assim como o pecado entrou no mundo através de um só homem (Adão) e com o pecado veio a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram… E deste modo, tal como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reina pela justiça até à vida eterna, por Jesus Cristo, Senhor nosso.» (Rom 5, 12.21).

 

A existência dos espíritos malignos

A existência dos espíritos malignos é documentada em todas as culturas desde os tempos mais antigos, por isso, desde sempre, existem orações e rituais para os afastar. Também no povo de Israel havia pessoas que praticavam o exorcismo (Mc 9,38). Jesus veio a este mundo «para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo» (Heb 2, 14); para que as pessoas «se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus» (Actos 26, 17).

Abrindo o Evangelho, encontramos um anjo que anuncia aos pastores uma grande alegria: «hoje, na cidade de David, nasceu um Salvador, que é o Messias, Senhor» (Lc 2, 10-11). A Apóstolo São João afirma que «mundo inteiro que está sob o poder do Maligno» (1Jo 5,19). Jesus Cristo é o Salvador: «Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devemos ser salvos» (At 4,12); que Ele veio ao mundo para «destruir as obras do diabo» (1Jo 3,8);

«Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.» (Actos 10, 38) «Foi Ele que nos libertou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu amado Filho, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados.» (Col 1, 13-14).

Jesus afirmou-o solenemente: «Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12); a Bíblia de Jerusalém coloca em baixo desse versículo uma nota densa de significado, da qual extraímos algumas afirmações:

A luz é símbolo de vida, de felicidade e de alegria; as trevas são símbolo de morte, de desgraças e de lágrimas. Às trevas que escravizam, opõe-se a luz da libertação e da salvação messiânica… O dualismo luz-trevas, caracteriza dois mundos opostos, o do bem e o do mal. No Novo Testamento aparecem dois “impérios”, respectivamente sob o domínio de Cristo e de Satanás: um procura vencer o outro. Os homens são chamados “filhos da luz” e “filhos das trevas", segundo que vivam sob a influência da luz (Cristo) ou das trevas (Satanás) e se reconhecem pelas suas obras. Esta separação (juízo) torna-se manifesta com a chegada da “Luz” que obriga os homens a escolher entre uma ou outra. O mundo inteiro está envolvido nesta luta entre a luz e trevas, não existe um espaço vazio que seja "terra de ninguém": cada ser humano é chamado a escolher.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma: «um duro combate contra os poderes das trevas atravessa, com efeito, toda a história humana; começou no princípio do mundo e, segundo a palavra do Senhor, durará até ao último dia. Inserido nesta luta, o homem deve combater constantemente, se quer ser fiel ao bem; e só com grandes esforços e com a ajuda da graça de Deus conseguirá realizar a sua unidade.» (GS 37)

Se Deus é bom, porque permite o mal?

 

Porquê é que Deus permite o mal?

Deus é o Senhor e Criador de tudo e de todos. Todas as criaturas manifestam as perfeições do Seu Criador: harmonia, bondade, beleza, grandeza e santidade. «Deus é amor» (1Jo 4,8) e tudo sustenta com a Sua Infinita Providência (Sab 11, 24-26; Heb 4,13). O Catecismo da Igreja Católica afirma que o mundo foi criado para a glória de Deus. A criação, sendo obra de Deus, não aumenta a Sua glória, mas a manifesta e a comunica para a nossa felicidade (CIC 293).

Deus criou o homem a «sua própria imagem e semelhança» (Gen 3,13).

«O homem é o ponto culminante da obra da criação» (Gen 1,26) (CIC 343). Segundo a intenção do Criador, ele deveria viver num paraíso terrestre (Gn 2,4-25), em perfeita harmonia com Deus, com a natureza, consigo mesmos e com os outros.

Deus criou o mundo em processo de perfeição. Criou o ser humano à «sua própria imagem e semelhança», colocou neste jardim que é o mundo, para com o seu trabalho levasse à perfeição a obra da criação. Deu confiou-lhe toda a criação. O Salmo 8 diz que Deus fez o homem um pouco inferior aos anjos, coroado de honra e glória, para dominar sobre toda a criação. Tudo quanto existe sobre a terra, as aves do céu e os peixes do mar (Sl 8, 5-8).

Os homens atuam livremente, por isso, podem pecar.

Deus leva à sério a liberdade das suas criaturas até ao ponto de permitir que elas se revoltem contra o Seu Criador. Deus permite que os homens atuem segundo o livre arbítrio e não impede as consequências negativas, mas também abençoa o bem para que seja fecundo de bons frutos. Por isso muita maldade que existe no mundo é devida as escolhas erradas dos homens.

Deus permite o pecado para ajudar o crescimento.

O profeta Oseias dá uma imagem poderosa e cheia de ternura: Deus atua como um pai que ensina ao filho a caminhar, acompanha-o sempre, mas não impede que ele caia, mas o ajuda a levantar-se para que apreenda a caminhar sozinho. Muitas falhas acontecem durante esta aprendizagem que dura toda a vida. Deus manifesta o Seu amor porque continua a criar os seres humanos, gerados no ceio materno e confiados à ternura de uma família. Nasce uma nova vida, uma criança. Ela cresce no tempo da infância, da puberdade, da adolescência, da juventude até chegar a idade adulta e deixar pai e mãe para formar uma nova família. Este processo de crescimento tem muitas falhas, é através delas que todos apreendemos. As limitações do crescimento humano podem explicar em parte o mal que existe no mundo, devido ao crescimento e as limitações humanas.

Na Carta aos Hebreus: «Deus trata-nos como filhos, e qual é o filho a quem o pai não corrige» (Heb 12,7). «Como um pai educa seu filho, assim Deus educa seu povo» (Dt 8,5).