Propomos sob forma de perguntas alguns aspetos da natureza do demónio e da sua ação no mundo, utilizando o livro do Padre José António Fortes, Summa demoníaca, Paulus, 2010. Confronte sempre o texto original, este é um resumo.
O método de pergunte e resposta ajuda a memorizar e interiorizar algumas imagens ou pensamentos sobre este tema. As respostas constituem e retomam estudos anteriores de muitos exorcistas.
Questão 17 – Porque é que pecamos?
Questão 18 – Podemos saber quando uma tentação vem do demónio?
Questão 19 – Podemos ser tentados além das nossas forças?
Questão 20 – Porquê é que o diabo tentou Jesus
Questão 17 – Porque pecamos?
A tentação é a situação em que a vontade tem de escolher entre duas opções, sabendo que uma opção é boa e a outra má, mas se sente atraída para a má. Sabe que se trata de um ato mau, mas, por alguma razão, sente-se atraída para ela.
O erro de cair na tentação não é falta de inteligência, não é um problema de debilidade da razão. Se não se soubesse que essa opção era má, se pecaria por ignorância e, portanto, não se pecaria. Para pecar a pessoa deve saber o que está a escolher um ato mau. Não existe pecado sem má consciência.
É isso que torna tão interessante do ponto de vista intelectual: porque é que escolhemos o mal sabendo que é mal? É um verdadeiro mistério.
Uma resposta simples, que não é falsa, embora não explique o assunto, é dizer que pecamos por debilidade; o que é verdade, mas também é verdade que não somos tão débeis que não possamos resistir. Se não fôssemos capazes de resistir, já não haveria pecado. Não teríamos escolha.
O pecado existe porque podemos escolher. E sabemos por experiência que escolhemos o que queremos. Se queremos fazer algo, nada nem ninguém nos pode obrigar a querer outra coisa. Logo, por mais débeis que sejamos, sempre é possível resistir. Como se vê, não podemos nos desculpar nem pelo campo da inteligência nem pelo campo da vontade. Fazemos o mal porque queremos.
Poderíamos dizer que cometemos o mal para conseguirmos um bem. Mas devemos nos lembrar que a inteligência percebe que esse bem é uma maçã envenenada. Percebe que é um pseudo-bem, que acarreta mais mal que o bem que possui. Por isso, por mais desejável que nos pareça esse bem, a consciência diz-nos: «Não deves escolher essa opção». Assim dizer que fazemos o mal porque nos parece um bem é certo, mas também é igualmente certo que sabemos que esse bem oferecido é, no final das contas, um mal. De modo que a explicação de que fazemos o mal pelo bem que nos oferece, é uma explicação adequada, é algo que nos ajuda a compreender o pecado, mas não o explica completamente.
Talvez este mistério da maçã envenenada que comemos apesar de sabermos o que está lá não o possamos explicar completamente enquanto estivermos na Terra.
Questão 18 – Podemos saber quando uma tentação vem do demónio?
É praticamente impossível saber quando uma tentação tem origem do demónio. Não temos esta capacidade de discernimento. Ad tentações que vêm do demónio não se distinguem em nada das tentações que vêm do nosso interior, porque se serve de coisas inteligíveis, apropriadas à nossa perceção. O demónio tenta-nos através da nossa própria concupiscência, dos nossos desejos e das nossas ideias e imaginação. (questão 18 e 21). É, portanto, razoável pensar que grande parte das tentações procedem de nós mesmos, como diz São Tiago, das nossas próprias paixões: «cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte» (Tg 1, 14-15)
Não necessitamos que alguém nos tente para pecarmos. Basta a nossa inclinação para o mal, basta a nossa liberdade mal-usada. Basta fazer uma escolha, basta optar conscientemente, para reconhecer, sem paliativo, que quando pecamos não podemos culpar a ninguém, a não ser a nós próprios. É certo que o demónio pode tentar, como tentou a primeira mulher. Mas, mesmo sem demónio, Adão e Eva podia ter pecado igualmente. A tentação não necessita de algum demónio; ela basta a si mesma. Se não, quem é que tentou o demónio?
O demónio é um ser inteligente, é um anjo decaído, não é nenhuma força ou energia. Portanto, se ele nos tenta, é sempre através de um diálogo, um diálogo, onde nós lhe podemos sempre resistir. Ele poderá insistir, mas se não quisermos, ele não poderá obter a nossa adesão. Ele costuma atacar no ponto mais fraco, ou seja, onde tem maior possibilidade de ganhar, mas se vivemos em estado de graça, Deus sempre nos protege. Somos pecadores e, mesmo dispondo da capacidade de lhe resistir, como o Senhor nos ensinou, pedimos no Pai-nosso que nos livre do mal. Se alguém é tentado, pela oração, a tentação desaparece, pois ela é incompatível com a oração. Quanto mais, pela oração, ficamos centrados em Deus, tanto mais resistimos e vencemos as tentações.
19 – Podemos ser tentados além das nossas forças?
O ser humano é fraco. Sendo assim, Deus cuida de nós como de crianças. Por isso a Bíblia diz-nos: «Não tendes sido provados além do que é humanamente suportável. Deus é fiel, e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças. Pelo contrário, junto com a provação ele providenciará o bom êxito, para que possais suportá-la» (1Cor 10,13).
Que a tentação é permitida por Deus é algo que aparece muito clara no Livro de Jób. Porém, além disso, noutro lugar da Bíblia, precisamente antes da sua Paixão, Jesus diz a São Pedro: “Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo” (Lc 22,31).
«Satanás pediu a permissão», isto significa que a tentação deve ser permitida. Temos de afirmar essa doutrina, porque senão estaríamos nas mãos de um destino cego. Deus é tão sábio e poderoso que se serve também das tentações para fazer crescer o bem. Por outro lado, Deus não permite que os seres humanos, mesmo os mais fracos, sejam tentados com uma intensidade acima das suas forças, mais de quando podem suportar.
Portanto, a mensagem é tão clara como tranquilizadora: Deus, como Pai que é, vela para que nenhum dos Seus filhos se veja pressionado a suportar o que não pode suportar. De tudo isto se percebe a sabedoria que há por trás do velho ditado: «Deus aperta, mas não afoga».
Questão 20 – Porquê é que o diabo tentou Jesus
O diabo sabia que Jesus era Deus, sabia, portanto, que era impossível que Ele pecasse. Porque é que O tentou, então? Ainda mais, ele sabia que ao fazer isso, O santificaria mais como Homem.
Porquê é que, então o diabo quis fazer algo de inútil, até contraproducente, que só serviria para o bem e não para o mal que ele queria fazer? A resposta é simples: o diabo não conseguir resistir. A tentação foi grande demais, mesmo para o diabo. Tentar o próprio Deus! Não podia deixar-se escapar esta ocasião. Sabia que era impossível vence-Lo, porém não resistiu à tentação, era como o fumador que sabe que fumar lhe faz mal, mas não consegue deixar de fumar. Assim, o diabo sabia que tentar Jesus era um erro, mas não resistiu à tentação.
A criatura tentando o próprio Deus! Era lógico que cairia no erro de O tentar. Para ele resistir era necessário que tivesse a virtude da fortaleza, mas, podemos pedir qualquer coisa ao demónio, menos a virtude.
Da mesma maneira, às vezes, os demónios fazem coisas que a longo prazo acabam paro os prejudicar, mas não resistem, não conseguem conter-se, mesmo sabendo que poderiam conseguir um mal maior depois. Por tudo isso, constata-se que até o demónio sofre a tentação. Tentação que procede do seu próprio interior, como acontece também aos seres humanos.
(padreleos.org)
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