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sábado, 3 de janeiro de 2026

3 - A IMAGEM TRADICIONAL DO PRURGATÓRIO

O Purgatório faz parte da doutrina católica. É uma verdade de fé que, durante os séculos, passou através de um longo processo de reflexão teológica.

As representações figurativas das almas que ardem nas chamas do Purgatório provêm da Idade Média. Naquela época, a maioria das pessoas eram analfabetos e não podiam ter acesso aos livros, por isso, as representações artísticas da pintura e da escultura eram para eles uma forma concreta de catequese visual. Por isso, ao longo dos séculos, houve uma florescente produção artística, representando as almas do purgatório a purificar-se no meio das chamas. A imagem pictórica do fogo purificador acabou por estabelecer-se na cultura religiosa do povo porque se encontra na Sagrada Escritura e teve grande sucesso na reflexão teológica.

O Livro do Apocalipse fala do «lago de fogo» referindo-se ao Inferno; mas, a partir do VIII século, esta imagem aplicada, com as devidas diferenças, ao Purgatório.

De facto, existe uma grande diferença entre o fogo do Inferno e o fogo do Purgatório: o Inferno é tenebroso, o Purgatório é luminoso. O Inferno é povoado por figuras demoníacas terrificantes; o Purgatório é povoado por almas estão em movimento ascendente para o Céu, sofrem, mas são rodeadas de anjos, a Virgem Maria as protege e consola, e Cristo fazem fluir sobre elas o Seu Sangue redentor.

Assim, a partir do século IX, a doutrina do fogo purificador do Purgatório era basicamente aceite pela Igreja e, finalmente, confirmada pela autoridade teológica de São Tomás de Aquino.

A primeira questão que nos surpreende é que haja um número bastante grande de católicos, mais ou menos praticantes, que aceitam com naturalidade a doutrina do Purgatório, como qualquer outra doutrina católica, sem qualquer dúvida de fé ou atitude de pensamento crítico.

De facto, existem vários livrinhos que, além de ajudar os fiéis a rezarem pelas almas do Purgatório, procuram também responder às perguntas que podem surgir sobre a natureza do Purgatório: o que é o Purgatório? Onde se encontra? Haverá lá um fogo real? Qual é a natureza desse fogo? Quanto tempo durará? O sofrimento será igual para todas as almas? Qual é a relação das almas do Purgatório com os vivos?

Por exemplo, no livrinho, «Mês das almas»[1], a meditação do 14º dia tem por título: «O lugar do Purgatório». O autor responde, usando as ideias teológicas bem conhecidas: o Purgatório não é um lugar, mas um estado transitório de purificação das almas. Quanto ao lugar, as almas podem passar este tempo de purificação junto do túmulo, no lugar das suas vaidades, ou, também, junto do altar do SS. Sacramento. Afirmações baseadas em revelações.

O Purgatório é um estado transitório, a sua duração é limitada no tempo, segundo a necessidade de cada alma; e deixará de existir ao fim do mundo. Mas, pela fé na comunhão dos santos, este tempo pode ser abreviado pelos sufrágios, esmolas e orações dos vivos, e, também, aplicando para eles as indulgências concedidas pela Igreja. 

A ideia de uma purificação das almas depois da morte permaneceu sempre viva na mente dos fiéis, tanto que, ainda hoje, é comum pensar que «todos teremos que passar pelo Purgatório, pois todos somos pecadores», porque, provavelmente, à hora da morte, não estaremos ainda preparados para o Céu.

É verdade que por trás desta maneira de pensar esconde-se a ideia de que o Purgatório seja um lugar. Não devemos ficar admirados com isso, pois, esta ideia está tão enraizada na nossa mente que é muito difícil mudá-la, pois, estamos condicionados pela nossa cultura religiosa. Por isso, justamente, o Papa Bento XVI recordava o pensamento de Santa Catarina de Génova: «o fogo purificador é um fogo interior, é o fogo do Amor divino que putrifica as almas». O que é o Purgatório



[1] Sarran, O mês das almas, Ed. União Gráfica, Lisboa 1947

 

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