Os demónios são puros espíritos, anjos decaídos, condenados eternamente, mas não perderam as qualidades da sua natureza angélica.[1] Foram criados bons, mas, sendo criaturas pessoais, inteligentes e dotados de livre arbítrio, foram submetidos a uma prova, antes que lhes fosse oferecida a visão da essência divina; uns obedeceram, outros, não. Os que desobedeceram de forma definitiva, tornaram-se demónios; por si só se transformaram naquilo que são. Ninguém os fez assim.
Um processo de transformação.
Durante a prova, a psicologia desses anjos passou por diversas fases de degradação, até se tornarem demónios. Tal evolução aconteceu fora do tempo, isto é, na eternidade. Esta fase, embora pareça breve para nós, devido a nossa maneira de entender, na realidade durou muito tempo: foi um processo lento e demorado que podemos resumir da seguinte forma:
- No início na sua mente desses anjos, sendo eles criaturas inteligentes e dotadas de livre arbítrio, surgiu uma simples ideia: que a desobediência a Deus podia ser uma opção possível. A aceitação dessa ideia era já um pecado, podemos dizer um pecado venial, mas que, pouco a pouco, evoluiu, até tornar-se um pecado grave.
Contudo, nesta primeira fase, ninguém estava disposto a afastar-se de Deus.
- Mais tarde, durante a segunda fase, aconteceu a escolha. Os anjos foram se confirmando cada vez mais ma escolha voluntaria da desobediência. O entendimento da inteligência recordava-lhes que tal escolha era destruidora e contraria à razão, mas, na medida que voluntariamente se afastavam de Deus, a inteligência era obrigada a justificar com argumentos racionais o mal que tinham escolhido.
- A consolidação no erro. À medida que vontade de desobedecer se afirmava, as suas inteligências eram, de qualquer forma, constrangidas a procurar as razões que justificassem racionalmente tal escolha.
- A separação deu-se com o pecado mortal. Este aconteceu num determinado momento, por meio de um ato da vontade. Neste fase, cada anjo, não só escolheu desobedecer a Deus, mas, ainda mais, optou, por uma existência autónoma, longe de Deus e à margem da Lei Divina.
- Os anjos que perseveraram nessa escolha, entraram num novo processo de justificação, através do qual, procuraram auto-convencer-se de que Deus não era Deus, que era apenas mais um espírito entre outros espíritos. Até, poderia ser o Criador, porém, n’Ele havia erros e falhas. Alem disso, a escolha de separar-se de Deus parecia-lhes uma existência mais livre. A obediência a Deus e à Sua vontade parecia-lhes, cada vez mais, uma opressão. Nesta fase de afastamento, os anjos já não procuravam simplesmente um destino longe de Deus, mas, o próprio Deus era visto como um tirano, um obstáculo para a liberdade que ansiavam. Em sua mentes, iam imaginando a beleza e a felicidade que iriam alcançar, sem tem um opressor.[2]
- O próprio Deus tornou-se para eles um mal, um opressor, por isso, começaram a odiá-l’O. Este ódio cresceu mais nalguns espíritos e menos noutros, mas estava a tornar-se uma escolha, cada vez mais, irreversível.[3]
Deus chamava-os, pois bem sabia que, quanto mais tempo passava, tanto mais as suas vontades se afastavam d’Ele e se confirmavam no afastamento. Os apelos de Deus, não foram inúteis, pois, nesta fase, muitos dos anjos se arrependeram e voltaram para Ele.
É a grande luta que aconteceu nos Céus, de que fala o Livro da Apocalipse 12:
“Houve então uma batalha nos Céus: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado; e eles perderam seu lugar nos Céus. Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga Serpente, que é chamado Demónio ou Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele foi expulso para a Terra, e os seus anjos foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9).
Como é que os anjos puderam lutar entre si?
Os anjos são puros espíritos, não têm corpo, não podem usar armas; por isso, o único combate possível era de ordem intelectual. As únicas armas só podiam ser de ordem intelectual. Deus, com certeza, enviava-lhes continuamente a Sua graça para que voltassem à fidelidade.
A luta intelectual pode ter acontecido da seguinte forma: os anjos rebeldes apresentando argumentos aos outros anjos para que também eles se revoltassem contra Deus. Os anjos fiéis, também apresentavam argumentos para os convencerem a permanecerem fiéis a Deus ou, que se arrependessem e voltassem à fidelidade a Deus. Nessas conversações intelectuais entre milhares e milhares de anjos, houve baixas quer de um lado, quer de outro: muitos anjos rebeldes voltaram para Deus; no entanto, alguns anjos bons e fiéis, se deixaram seduzir pelos argumentos malignos.
O fim da luta. Chegou um tempo – pois, a eternidade é um tipo de tempo – em que uns anjos rebeldes se fixaram na sua escolha: uns odiavam mais a Deus, outros menos; uns se tinham tornados mais soberbos, outros menos. Cada um ia-se deformando, cada vez mais, em pecados específicos. Enquanto, os anjos fiéis, pelo contrário, iam-se santificando cada vez mais, isto é. cresciam no amor a Deus, embora de formas e graus diferentes.
Chegou um momento em que já não podiam acontecer mudanças substanciais, cada anjo permanecia fixado na sua própria postura. Mesmo que acontecesse alguma mudança, era só acidental, não tocava a opção fundamental. Os anjos bons se mantinham firmes na fidelidade a Deus; e os demónios se mantinham firmes na rebelião, na sua imprudência, nos seus ciúmes, no seu ódio, na sua inveja, soberba e egoísmo.[4]
As posições já estavam fixadas, não podiam acontecer mudanças substanciais. Mesmo que continuassem a discutir, a disputar e a exortar-se por milhões de anos - para falarmos em termos humanos – não poderia haver mudanças substanciais. Foi então que os anjos bons foram admitidos à presença de Deus na «visão beatífica»; enquanto os demónios foram abandonados ao seu destino, na sua prostração moral, na sua revolta contra Deus, livremente escolhidas.[5]
Os anjos que entraram na «visão beatifica» são verdadeiramente santos, contemplam essência de Deus, e nunca mudarão a sua opção de amar e servir a Deus. Estes, mesmo antes de entrarem nos Céus, já compreendiam a Deus, a Sua santidade, a Sua omnipotência, sabedoria e amor... agora, não só compreendem, mas contemplam o próprio Deus, vêm com os seus próprios olhos a Sua glória; experimentam a plenitude da Vida, estão tão cheios de Deus, que jamais, por nenhuma razão, querem separar-se d’Ele. No Céu, o pecado é impossível.
Os demónios forma criados bons, mas, se transformaram naquilo que são, através de um processo, lento, gradual e evolutivo. Durante esse processo ainda podiam arrepender-se, mas não o fizeram. Chegou, portanto, um momento em que estavam de tal modo afastados de Deus que era impossível voltar atrás. O Criador, respeitando a escolha que livremente fizeram, deixou que cada um deles seguisse o destino, por eles mesmos escolhido.
O demónio, mesmo sendo um anjo decaído, conserva as qualidades angélicas, mas a sua inteligência e sua vontade ficaram irremediavelmente deformadas. Permanece fechado na sua solidão interior, nos seus ciúmes em ver que os anjos fiéis gozam da visão de Deus, reprovam o seu próprio pecado, mas não se arrependem. Odeia-se a si mesmo, odeia a Deus, odeia aos que lhe deram as razões para se afastar de Deus.
Os demónios não sofrem todos da mesma forma e com a mesma intensidade, cada um deles, sofre de forma diferente, conforme ao grau de deformação que ele próprio atingiu com a sua rebelião. Durante a batalha, uns se deformaram mais, outros se deformaram menos. Os que mais sofrem são os que mais se deformaram.
Esta deformação atinge a sua inteligência e sua vontade. A inteligência, porque ficou obscurecida pelos raciocínios errados que alimentaram a sua rebelião e o seu afastamento de Deus. A vontade, porque obrigou a inteligência a justificar a sua decisão. A inteligência passou através de mecanismos de justificação, oferecendo argumentos ao que a vontade a estimulava a aceitar.
Como podemos observar, este processo é muito semelhante com o processo de degradação que acontece nos seres humanos. Não podemos esquecer que nós, seres humanos, somos um espírito num corpo. Se omitirmos os pecados relativos ao corpo, sofremos o mesmo processo interior dos anjos, quer no bem, quer no mal.
O conceito de pecado, de tentação e de evolução na iniquidade é parecido, tanto no espírito angélico como no espírito humano. Os pecados humanos, mesmo sendo cometidos com o corpo, são sempre de ordem espiritual, pois o corpo é tão somente um instrumento do que o espírito decide com seu livre-arbítrio.
Um menino atravessa o período da infância, mas não tem tanta experiência, assim é também um anjo recém-criado, não tem experiência. O ser humano passa através das tentações, os anjos também. O homem pode pecar por terem ideais nobres, tal como a pátria, a honra da família, o bem-estar de um filho; os anjos também podem pecar, embora, as motivações sejam diferentes dos humanas. Contudo, existe uma complexa correlação entre os anjos e os seres humanos.
Como seres humanos, somos também espíritos, apesar de possuirmos um corpo. Basta olhar para o nosso interior, e podemos compreender como é possível cair no pecado e degradar-se, ou também, santificar-se, tal como aconteceu aos anjos. Sendo assim, os pecados dos anjos não nos são incompreensíveis, mas começam a nos parecer parecidos e mais próximos.
· Bibliografia:
- Catecismo da Igreja Católica, 391-395
· - José António Fortea, Summa Daemoniaca, Tratado e Manual de Exorcistas, Paulus, 2010, Questão 1 O que é um demónio.
· - Francesco Bamonte, Os anjos rebeldes, Paulinas
[1] Os anjos não têm corpo, por isso, não sentes a menor inclinação para nenhum dos pecados relacionados ao corpo, como por exemplo, a gula ou a luxuria. Eles podem tentar os homens a pecar nesses campos, mas não os conhecem, só os compreendem de forma meramente intelectual. De facto, os pecados dos demónios são exclusivamente de ordem intelectual ou espiritual.
[2] O seu raciocínio podia ter sido o seguinte: porque é que um Espírito havia de levantar-se sopre os outros espíritos? Porquê é que a Sua vontade se deveria impor sobre os outros espíritos? Não somos crianças, não somos escravos! Assim, começaram a odiá-Lo. Os apelos que Deus lhes dirigia para que voltassem para Ele eram por eles percebidos como uma intromissão inaceitável. Contudo, acreditamos que muitos anjos, escutaram os apelos de Deus e se converteram.
[3] Pode surpreender o facto de que um anjo chegue a odiar a Deus, mas devemos compreender que os anjos, nesta fase, não viam a Deus como sendo um Pai, como o bem supremo, mas como um obstáculo, um opressor; Deus representava as cadeias dos mandamentos que deviam observar e que limitava a sua liberdade. O ódio surgiu neles com tanta força que resistiram aos todos os apelos de Deus que, como um pai, os procurava. O ódio surgiu, podemos dizer, como reação lógica de uma vontade decidida a abandonar a casa paterna. Quando um filho deseja sair de casa; no início quer apenas partir, mas se o pai o chamar mais do que uma vez, o filho acaba por rebelar-se e responder-lhe: «deixa-me em paz».
[4] Chegou o momento em que Deus tomou a decisão de não enviar mais as graças de arrependimento aos anjos rebeldes, pois Ele sabia que isto só serviria para os confirmarem naquilo que tinham escolhido. Por isso, Deus que é Amor permitiu que cada um deles seguisse o seu caminho.
[5] Como podemos observar, Deus não enviou os demónios para um lugar de chamas e de tortura, mas simplesmente os deixou tal como estavam, abandonados, na sua liberdade e vontade. Nem sequer, os anjos fiéis entraram nalgum lugar, mas receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu dos anjos, como o Inferno dos demónios não são lugares, mas estados. Cada anjo tem em seu interior seu próprio Céu, esteja onde estiver. Cada demónio, esteja onde estiver, leva em seu espírito o seu próprio Inferno.
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