Os últimos séculos da Idade Média (XIV e XV) constituem o período áureo para o desenvolvimento da doutrina do Purgatório, graças a duas grandes personalidades: Dante Alighieri (1265-1321) e Santa Catarina de Génova (1447-1516).
Dante Alighieri na sua obra Divina Comédia[1] dedica a segunda parte da sua obra ao Purgatório. Ele realiza uma das maiores sínteses sobre o Purgatório, feita até ao seu tempo, pois, descreve de forma profunda o estado intermédio do Purgatório,
“… não é um lugar intermediário neutro, é orientado. Vai da terra onde os futuros eleitos morrem, ao céu onde fica a sua morada eterna. No decurso do seu itinerário elas purgam-se, tornam-se cada vez mais puras, aproximam-se sempre mais do topo, das alturas a que se destinam.
De entre todas as imagens geográficas que o imaginário do além oferecia a Dante… ele escolhe a única que exprime a verdadeira lógica do Purgatório, aquela onde se sobe, isto é, a montanha.
O Purgatório é, portanto, um processo ascendente de amadurecimento que começa com a vida terrena e se prolonga depois da morte, até atingir a maturidade que permite às almas a entrada na “pátria do amor trinitário”.
O Purgatório é o “lugar da esperança e do início da bem-aventurança, da entrada progressiva na luz”. As almas do Purgatório estão em constante oração e cantando os louvores de Deus; e, fiel a tradição recebida, também Dante, recomenda os sufrágios pelos defuntos: “pois aqui, com a ajuda dos de lá de baixo, pode-se avançar muito”.[2] Por fim, com as suas descrições imaginárias, é aquele que mais inspirou as representações artísticas do Purgatório dos séculos posteriores.
O PURGATÓRIO EM SANTA CATARINA DE GÉNOVA (1477-1510)
Santa Catarina de Genova (1477-2510, freira agostinianas, teve diversas experiências místicas do Purgatório, cujos relatos foram recolhidos pelos seus confidentes espirituais. O redator final do famoso Tratado do Purgatório foi o Padre Cattaneo Marabotto.
Santa Catarina de Genova é a pessoa que melhor compreendeu e descreveu a realidade do Purgatório.[4] Ela trouxe para a teologia uma lufada de ar fresco, por dois motivos:
- primeiro, porque ela elabora uma analogia entre as almas do Purgatório e a experiência que viveram durante a sua vida terrena. Durante a vida terrena somos peregrinos e passamos por um processo de purificação; o Purgatório é esta mesma purificação que se prolonga para além da morte.
- segundo, esta purificação é realizada progressivamente pelo fogo do Amor divino, isto é, por Jesus Cristo. Ele é o Juiz de cada alma e, também, Aquele que a purifica com o Seu Amor divino. Não há nenhum fogo purificador, a não ser o fogo do Amor divino.
«nesta terra, as almas passam por um processo de purificação durante alguns anos; o Purgatório seria esta mesma purificação que se prolonga para além da morte»
«Estas almas, vivendo na caridade, e dela não podendo desviar-se por defeito atual, não podem por isso mais querer outra coisa do que o puro querer da pura caridade; e estando naquele fogo purgatório, estão na vontade divina (a qual é a pura caridade), e já não podem desviar-se dela em nada, porque não é mais possível atualmente pecar, tal como atualmente não podem merecer».[5]
Como o fogo purifica o ouro no crisol, assim o fogo do Amor divino purifica a alma. Deus mantem-na nesse fogo até que se consuma nela toda a imperfeição; e quando a alma se tiver purificada, fica completamente imergida em Deus.
“O amor de Deus trasborda nas almas e lhes transmite uma grande alegria; uma alegria que é impossível descrever. Esta alegria não lhes tira nem uma centelha de pena, muito pelo contrário, a acresce porque aquele amor se encontra retardado. Resumindo, as almas do purgatório experimentam uma imensa alegria e um imenso sofrimento. E uma coisa não impede a outra”.
Uma das tónicas mais originais, e talvez mais inovadoras para o seu tempo, é que as almas são felizes no Purgatório. São felizes por dois motivos: por saberem que estão salvas e que estão a preparar-se para o encontro definitivo com Deus.
“Não há felicidade comparável às almas no purgatório, a não ser a dos santos no céu, e tal felicidade cresce incessantemente por influência de Deus, à medida que os impedimentos vão desaparecendo. Tais impedimentos são como a ferrugem e a felicidade das almas aumenta à medida que esta ferrugem diminui”.[6]
Outra intuição de Santa Catarina é a diferenciação entre as almas do Purgatório e as almas do Inferno: o Purgatório é transitório: é a antecâmara do Céu; o inferno é definitivo. A radical diferença entre as almas do purgatório e as almas do inferno é que, as almas do inferno estão em puro ódio; as almas do purgatório estão em pura caridade e não podem afastar-se da pura caridade.
O processo de purificação das almas está marcado pela dor e pelo sofrimento: a alma deseja ardentemente unir-se a Deus, fonte de amor e felicidade, mas essa união, tão desejada, é retardada por causa dos seus pecados. Portanto, as almas do Purgatório sofrem por dois motivos: pelo desejo íntimo e profundo de unir-se a Deus; e pelo pecado que lhes impede e retarda esse encontro íntimo, profundo e definitivo com Deus.
“mesmo quando a alma está sem pecado, tem, todavia, os seus resquícios. Não pode, por tanto, possuir a Deus, ainda que o deseje infinitamente. Daqui nasce a sua pena, que é uma pena de amor, e esta pena diminui cada vez mais à medida que se aproxima do momento de unir-se a Deus”.[7]
As almas do Purgatório estão plenamente conformadas com a Vontade de Deus. Reconhecem as imperfeições causadas pelos seus pecados e aceitam voluntariamente o processo de purificação. aceitam-no e entram livremente nesse processo de purificação. Passam por um indizível sofrimento purificador, mas, ao mesmo tempo, experimentam uma grande alegria por saberem que já estão salvas e que estão a preparar-se para a «visão beatífica».
As almas estão plenamente conformadas à Vontade de Deus e atraídas pelo fogo purificador do Seu Amor. Passam por um processo de purificação: sofrem por verem a impureza dos seus pecados, que impede ou retarda a visão de Deus; mas, na medida que avançam nessa purificação, experimentam uma crescente alegria que brota da certeza de que estão a aproximar-se da felicidade eterna do Céu.
[1] Dante Alighieri escreveu a Divina Comédia entre o seu exílio em Florença em 1302 e a sua morte em Ravena em 1321. Esta obra encontra-se dividida em três partes: Inferno (34 cantos), Purgatório (33 cantos) e Paraíso (33 cantos).
[2] DANTE ALIGHERI, Divina Comédia, Canto III, 145
[3] “O texto que descreve a sua vida e o seu pensamento foi publicado nessa cidade da Ligúria em 1551; ele é dividido em três partes: a Vida propriamente dita, a Demonstração e declaração do purgatório — mais conhecida como Tratado do Purgatório. O redator final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto”. BENTO XVI, Santa Catarina de Génova, in L´Osservatore Romano, ed. Portuguesa, (15/01/2011), 3
[3] Tratado do Purgatório, I,6.
[4] Tratado do Purgatório, II,4
[7] Ibidem, 139.
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