A Igreja Católica, no decurso das gerações, nunca deixou de ensinar a doutrina do Purgatório. É este um ponto doutrinal exclusivo da Igreja Católica, não sendo aceite pelas outras Igrejas separadas de Roma.
O primeiro dado importante é que a Igreja Católica recebeu a tradição de orar pelos fiéis defuntos do povo de Israel e a tem continuado, sem interrupções, até aos nossos dias. Os primeiros cristãos oravam pelos defuntos, embora não tendo uma ideia clara sobre a purificação das almas depois da morte. Já a partir do século II, é possível encontrar documentos de que os cristãos oravam pelos defuntos. No século III, esta tradição estava bem consolidada, pois os cristãos ofereciam para eles a Santa Missa, como acontece ainda hoje. Por isso, a única coisa que é possível fazer é ver se houve alguma evolução no modo de apresentar esta verdade de fé.
Esta verdade de fé só chegou a ser definida claramente pelo Segundo Concílio de Lião (1274), a seguir, pelo Concílio de Florença (1439) e, enfim, pelo Concílio de Trento (1545-1563).[1]
Já que a Igreja católica, instruída pelo Espírito Santo, a partir das sagradas Escrituras e da antiga tradição dos Padres, nos sagrados concílios e mais recentemente neste Sínodo ecuménico, ensinou que o purgatório existe (cf. 1589) e que as almas aí retidas podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e sobretudo pelo santo sacrifício do altar (cf. 1743 e 1753), o santo Sínodo prescreve aos bispos que se empenham diligentemente para que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos santos Padres e pelos sagrados Concílios, seja acreditada, mantida, ensinada e pregada por toda parte. (Concílio de Trento, Decreto sobre a Eucaristia, cap. 3)
O Purgatório no Catecismo de Pio X (1903-1914)
O Catecismo de Pio X, que várias gerações apreenderam de cor, ensinava:
1460- Onde se encontram os membros da Igreja?
- Os membros da Igreja encontram-se parte no Céu, e formam a Igreja triunfante; parte no Purgatório, e formam a Igreja padecente; parte na terra, e formam a Igreja militante.
7780 - Por que na confissão se impõe uma penitência?
- Impõe-se uma penitência porque de ordinário, depois da absolvição sacramental que perdoa a culpa e a pena eterna, resta uma pena temporal a pagar neste mundo ou no Purgatório.
7870 - Vão logo para o Céu os que morrem depois de ter recebido a absolvição, mas antes de terem satisfeito plenamente à justiça de Deus?
- Não; eles vão para o Purgatório, para ali satisfazerem à justiça de Deus e se purificarem inteiramente.
7880 - Podem as almas que estão no Purgatório ser aliviadas por nós nas suas penas?
- Sim, as almas que estão no Purgatório podem ser aliviadas com orações, com esmolas, com todas as demais obras boas e com as indulgências, mas sobretudo com o Santo Sacrifício da Missa.
Não existe nenhuma dúvida sobre a existência do Purgatório: é uma doutrina transmitida pelos santos Padres e confirmada por diversos Concílios. O que podemos notar é que prevalece aqui a ideia de um lugar para onde as almas vão, e no qual sofrem as penas purificadoras que as tornam dignas da felicidade eterna do Céu.
O PURGATÓRIO NO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA.
O Catecismo da Igreja Católica, publicado também em língua portuguesa em 1999, expõe, de forma clara e resumida, a doutrina tradicional da Igreja sobre o Purgatório, tal como afirmada nos Concílios de Florença e de Trento.
Sob o título: «A purificação final ou Purgatório» (n. 1030-1032), o Catecismo diz:
Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu (CIC 1030)
A Igreja chama de Purgatório a purificação final dos eleitos, o que é absolutamente distinta do castigo dos condenados… A Tradição da Igreja, referindo-se a certos textos da Escritura (1Cor 3,15; 1Pe 1,7) fala dum fogo purificador. (CIC 1031)
Esta doutrina apoia-se também na antiga prática de orar pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura: «Por isso, pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas» (2 Mac 12,46). (CIC 1032)
A Igreja, desde os primeiros tempos, honrou a memória dos defuntos, oferecendo por eles sufrágios e, particularmente, o Sacrifício eucarístico para que, purificados dos seus pecados, pudessem chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos.
A seguir recorda a exortação de São João Crisóstomo:
«Socorramo-los e façamos comemoração deles. Se os filhos de Job foram purificados pelo sacrifício do seu pai (Job 1,5) por que duvidar de que as nossas oferendas pelos defuntos lhes levam alguma consolação? [...] «Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações»
Podemos notar uma evolução: não fala do fogo purificador e não faz nenhuma referência a um lugar onde as almas se encontrem em vista de realizarem a sua purificação.
O PURGATÓRIO, NO ENSINAMENTO DO PAPA DE PAULO VI.
O conteúdo essencial da doutrina da Igreja Católica sobre o Purgatório encontra-se resumida e reafirmada no documento de Paulo VI sobre as indulgências:
Podem restar, e de fato restam penas a expiar ou sequelas de pecados a purificar, mesmo depois de remida a falta; a doutrina relativa ao purgatório muito bem o mostra: nesse lugar, com efeito, as almas dos defuntos que "verdadeiramente penitentes deixaram esta vida na caridade de Deus, antes de terem satisfeito suas ofensas e omissões por justos frutos de penitência", são após a morte purificadas pelas penas purgatórias.[2]
Segundo o ensinamento da igreja, o Purgatório não é eterno, tem uma duração limitada. É Deus que determina a sua duração por cada alma; mas devido a fé na Comunhão dos Santos, este tempo pode ser abreviado pelos sufrágios, orações e esmolas dos fiéis, que atingem no tesouro espiritual dos méritos de Cristo e dos santos. Deixará de existir ao fim do mundo, depois do juízo final.
A Igreja tenta evita de falar de espaço e de tempo, conceitos usados neste mundo, que não sabemos se podem ser aplicados à vida depois da morte.
O ENSINAMENTO DO PAPA DE JOÃO PAULO II
O Papa João Paulo, falou do Purgatório na Audiência de 4 de agosto de 1999, som o título: «A necessária purificação para o encontro com Deus».
Com base na opção definitiva a favor de Deus ou contra Ele, o homem encontra-se diante de duas alternativas: ou vive com o Senhor, na bem-aventurança eterna; ou permanece afastado da Sua presença. Os que se encontrarem em condição de abertura a Deus, mas de modo imperfeito, o caminho rumo à plena bem-aventurança eterna requer uma purificação, que a fé da Igreja ilustra através da doutrina do «purgatório»[3] … A seguir, cita o Apóstolo São Paulo que, ao falar do juízo particular, afirma: «Se a obra construída subsistir, o construtor receberá a paga. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá a perda. Ele, porém, será salvo, como que através do fogo» (1 Cor 3, 14-15).
Durante a nossa vida terrena somos chamados à santidade, isto é, sermos perfeitos como o Pai celeste (cf. Mt 5, 48). Esta perfeição consiste no amor a Deus e ao próximo, por isso, São Paulo exorta-nos a crescermos no amor e a sermos firmes e irrepreensíveis diante de Deus Pai (cf. 1 Ts 3, 12 s.), a «purificar-nos de toda a imundície da carne e do espírito» (2 Cor 7, 1; cf. 1 Jo 3, 3).
Toda a vida terrena é caminho de purificação. O Purgatório é uma criação de Deus, que, no Seu Amor e Misericórdia, quer conceder às almas a possibilidade de completarem a sua purificação mesmo depois da morte. O encontro definitivo com Deus requer uma pureza absoluta: todo o vestígio de pecado, todos o apego ao mal, deve ser eliminado; toda a deformidade da alma deve ser corrigida. A purificação deve ser completa.
O purgatório não é um lugar, mas um estado de vida: um estado de purificação. Nesse estado as almas mergulham no amor de Cristo, que as alivia de todos os resíduos de imperfeição.[4] Não é um prolongamento da situação terrena, como se depois da morte houvesse uma ulterior possibilidade de mudar o próprio destino.
O último aspeto, muito importante, que a tradição da Igreja sempre evidenciou, e continua a propor – diz o Papa João Paulo II: é o da dimensão comunitária. Com efeito, aqueles que se encontram na condição de purificação estão ligados tanto aos bem-aventurados, que já gozam plenamente a vida eterna, como a nós que caminhamos neste mundo rumo à casa do Pai (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1032).
Assim como na vida terrena os crentes estão unidos entre si no único Corpo místico, assim também após a morte aqueles que vivem no estado de purificação experimentam a mesma solidariedade eclesial que opera na oração, nos sufrágios e na caridade dos outros irmãos na fé. A purificação é vivida no vínculo essencial que se cria entre aqueles que vivem a vida do século presente e os que já gozam a bem-aventurança eterna.
O ENSINAMENTO DO PAPA BENTO XVI.
O Papa Bento XVI, com a Encíclica «É na esperança que fomos salvos» publicada em 2017, deixou-nos um pronunciamento elucidativo sobre este tema. Ele afirma:
É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem então revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se. Porém, na dor deste encontro, em que o impuro e o nocivo do nosso ser se tornam evidentes, está a salvação. O seu olhar, o toque do seu coração cura-nos através de uma transformação certamente dolorosa “como pelo fogo”. Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor no penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus.[5]
A seguir, na Audiência-geral de 12 de dezembro de 2011 retoma o tema do Purgatório, citando Santa Catarina de Génova «conhecida, sobretudo pela sua visão do purgatório»: é o Amor Infinito de Deus que purifica as almas: «E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório».
A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo coreto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.
Com isso, introduz, um desenvolvimento importante sobre a doutrina do purgatório, o qual deixa de ser entendido como um lugar e passa a ser entendido como um estado.
Conclusão:
A Igreja Católica fala do Purgatório em vista da salvação eterna: a purificação dos defuntos em vista da comunhão perfeita com Deus. Não é um castigo, mas uma oportunidade que Deus, na Sua Infinita Misericórdia, oferece às almas de se purificarem depois da morte. Toda a vida terrena é caminho de conversão rumo à santidade, vocação universal de todos os seres humanos. As almas, com a morte, são colocadas diante da verdade: reconhecem o Amor de Deus, mas veem com clareza os seus pecados, por isso, entram livremente num processo de purificação. Como diz santa Catarina de Génova: sofrem por estarem longe de Deus e, ao mesmo tempo, gozam de uma imensa felicidade por saberem que, com certeza, alcançarão a «visão beatifica».
Cada ser humano é pecador, deveria purificar-se durante a vida terrena, mas nem sempre consegue. Pode recorrer ao Sacramento da Confissão e receber o perdão dos seus pecados, mas nem sempre - talvez raramente – tem uma verdadeira contrição interior, um sincero arrependimento e a vontade firme de se emendar; por causa dessa resistência interior, ele pode morrer sem ter eliminado completamente em si a desordem do pecado. O Purgatório é a oportunidade que Deus oferece às almas de se purificarem depois da morte, afim de chegarem ao Paraíso. É um estado transitório, um processo de santificação, onde a alma é transformada e cada vem mais inflamada pelo amor Infinito de Deus; rejeita o pecado, purifica-se, cresce em santidade, até torna-se digna da «visão beatífica». O que é o Purgatório
[1] A Igreja Católica, seguindo a orientação do pensamento tomista, entendeu o Purgatório como sendo um «lugar». Um lugar de sofrimento purificador dos pecados veniais depois da morte. Trata-se de uma conceição teológica influenciada pela tendência jurídica daquela época: ao pecado corresponde uma pena: o fogo do Purgatório. Nesta conceição prevalece a ideia de «lugar» e de «fogo».
[2] Paulo VI, Constituição apostólica, Indulgentiarum doctrina, publicada em 1 de janeiro de 1967
[3] O Papa João Paulo II cita o Catecismo da Igreja Católica, nn. 1030-1032.
[4] Cita o Concilio de Florença, Decretum pro Graecis, DS 1304 e o Concilio de Trento, Decretum de justificatione, DS 1580; e tambéo o Decretum de purgatório, DS 1820. Esclarece: «O ensinamento da Igreja a respeito disto é inequívoco e foi reafirmado pelo Concílio Vaticano II, que assim ensina: «Como não sabemos o dia nem a hora, é preciso que, - seguindo a recomendação do Senhor - vigiemos continuamente, a fim de que no termo da nossa vida sobre a terra, que é só uma (cf. Hb 9, 27), mereçamos entrar com Ele para o banquete de núpcias e ser contados entre os eleitos (cf. Mt 25, 31-46), e não sejamos lançados, como servos maus e preguiçosos (cf. Mt 25, 26), no fogo eterno (cf. Mt 25, 41), nas trevas exteriores, onde "haverá choro e ranger de dentes" (Mt 22, 13 e 25, 30)» (Lumen gentium, 48).
[5] Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi, n. 47.
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