Ser cristão significa entrar numa guerra espiritual. Este
combate, segundo a Sagrada escritura, começou antes da criação do homem, quando
a terceira parte das criaturas angélicas se revoltou contra Deus.
«Como caíste dos céus, estrela da
manhã, filho da aurora? Como foste abatido por terra, ó dominador das nações?
Tu que dizias no teu coração: 'Subirei aos céus, estabelecerei o meu trono
acima das estrelas de Deus, sentar-me-ei na montanha da Assembleia, na
extremidade do céu; subirei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo'.
Infeliz! Foste precipitado no abismo, no mais profundo do mundo dos mortos!» (Is 14, 12-14)
A Bíblia afirma que Deus criou os anjos e multiplicou neles
as perfeições; criaturas inteiramente espirituais dotados de livre arbítrio, de
suma beleza e de extraordinária inteligência; embora sejam inúmeros, cada um
deles possui uma própria personalidade; e virtudes que revelam a grandeza de
Deus Criador. Mas, entre os anjos sobressai um serafim, o Príncipe das legiões
celestes: Lucifer. Dele parece falar o profeta Ezequiel:
«Assim fala o Senhor Deus: Tu eras um modelo de perfeição,
cheio de sabedoria, de uma beleza admirável. Estavas no Éden, jardim de Deus; o
teu manto estava coberto de toda a espécie de pedras preciosas: sardónica,
topázio, diamante, crisólito, ónix, jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda,
cravejadas de ouro. Tamborins e flautas estavam ao teu serviço desde o dia em
que foste criado. Eras um querubim protetor, colocado sobre a montanha santa de
Deus, caminhavas por entre pedras de fogo. Eras irrepreensível na tua conduta,
desde o dia em que nasceste, até àquele em que a iniquidade apareceu em ti. Com
o aumento do teu comércio, o teu íntimo encheu-se de violências e pecados. Por
isso, Eu precipitei-te da montanha de Deus, e fiz-te perecer, ó querubim
protetor, no meio das pedras de fogo». (Ez 28, 12-13) Este texto que fala da caída do Rei de Tires é
aplicado, pelos exegetas, a Lúcifer.
Este Serafim, Lúcifer estava no cume da hierarquia angélica,
o primeiro entre os Serafins, e seu incontestável chefe. Cheio de amor e de
fervor, ele irradiava a luz divina, projetando-a sobre os outros anjos,
revelando-lhes, com a sua sublime inteligência e sabedoria, os secretos
divinos, que ele podia compreender quase em plenitude. Por isso, Deus, deu-lhe
o nome de Lúcifer, portador de Luz. Acima dele só podia estar a Virgem Maria, a
Estrela da Manhã, que ele recusou de a saudar como sua rainha.
Lúcifer, no cume do seu conhecimento, deixa de contemplar a
glória de Deus e começa a contemplar a si próprio. Os anjos não podiam ainda contemplar
diretamente o Rosto de Deus, não tinha chegado a hora. Tal conhecimento deveria
chegar como recompensa depois de uma prova, que os anjos não poderiam saber
qual seria.
Lucifer e os outros anjos, desde o primeiro instante da sua
criação, viram o Mistério da Santíssima Trindade e o Mistério da Encarnação, mas
os não podiam compreender inteiramente. Foi então que Deus pus Lucifer diante de
uma realidade incrível, incompreensível para a inteligência angélica: criando
os anjos, Deus criou seres puramente espirituais. Criando o universo, com
plantas e animais, Deus criou seres puramente materiais, incapazes de conhecer
a Sua adorável presença; mas, criando o homem, criou um ser híbrido feito de
alma e corpo, capaz de se elevar até Deus, «imagem e semelhança de Deus» tal
como os anjos. O homem, pela sua natureza corpórea é atraído pela terra, mas pela
sua natura espiritual é capaz de elevar-se até Deus. A matéria e o espírito
unidos numa só natureza, como é que isto é possível? Come é que o homem, espírito
encarnado, tem a capacidade de alcançar a ideia de Deus?
O anúncio da Encarnação do Verbo
O plano divino realizar-se diante da admiração da corte
celeste. É verdade que o homem, sendo matéria é atraído para a terra, mas, pelo
seu espírito, eleva-se para o céu; mas o cume incompreensível da revelação é
que Deus se fará homem: o Mistério da Encarnação. Segundo os Padres da Igreja
(Tertuliano, Cipriano, Basílio e Bernardo), a prova que decidiu a sorte dos
espíritos celestes foi precisamente o anúncio do mistério da encarnação, a
promessa da união hipostática de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Este mistério é incompreensível para os anjos: este Deus,
três vezes santo, tornar-se-á homem! Rebaixar-se-á de tal forma, muito debaixo
da natureza angélica! Os anjos não podiam compreender, só podiam aceitar, em humilde
submissão a Deus. Ninguém entre os anjos compreendia, mas houve um anjo que
ficou particularmente pasmado e indignado diante desta revelação: Lucifer. Ele viu-se
confrontado brutalmente com o mistério insondável do projeto divino. A sua aguda
inteligência falhava diante desse mistério inefável. Ele sabia que o seu
conhecimento de Deus era limitado, mas surge na sua inteligência uma ideia
inverosímil, assim, como um relâmpago: que Deus podia estar no erro e que ele
estava na verdade, mas resiste, não quer entrar em discussão com o Criador.
Perto dele, outro serafim, Miguel, colocado diante do mesmo
Mistério, vê a sua inteligência falhar, não conseguia compreender, mas escolheu
confiar em Deus. Ele tem a certeza pacificadora de que Deus sabe bem o que está
a fazer, por isso aconselha aos outros anjos: «Não procurai compreender!
Aceitai, aceitai, aceitai». Muitos anjos seguiram o seu conselho, mas
Lucifer fica fechado em si próprio, não escuta as exortações de Miguel. É
dominado pelo orgulho: afinal, não sou eu o chefe dos anjos? Não sou eu quem
domina sobre a inteligência dos outros anjos? Porque maravilhar-se, se ele
compreende de imediato o que os outros anjos apreendem lentamente, graças a
ajuda dele?
Em Lucifer levanta-se a suspeita, o que não é ainda rebelião,
mas o prelúdio insidioso da dúvida. Deus faz-se homem. Esta incrível e chocante
afirmação percorre ressoa do alto em baixo os nove coros angélicos, suscitando
novas questões e novas emoções. Eis que aparece a imagem do Homem-Deus e, ao
seu lado, uma criatura humana, uma simples criatura humana, filha dos homens.
Os anjos ouvem atónitos o título da Mulher: MÃE DE DEUS. Uma simples criatura
proclamada: Mãe do Criador! Uma criatura dá à luz o Incriado. Uma voz
ressoa entre os coros angélicos: «Eis o Vosso Senhor, eis a Vossa Rainha.
Adorai o Senhor, inclinai-vos diante d’Ela».
Lucifer confuso contempla os dois seres humanos imensamente
inferiores à natureza angélica. Ele não pode adorar o que lhe é inferior. Como
é possível que Deus, Seu Rei bem-amado, lhe peça este ato de profunda
humilhação? O príncipe dos serafins toma consciência daquilo que ele mesmo
possui: beleza, inteligência, vontade perfeita, graça e santidade, dons
gratuitos que infundem nele paz, felicidade e amor. O homem e mulher nada disso,
o se os possuem é de forma tão ínfima, ridícula.
Mas se Deus quer unir a Sua sublime natureza a uma criatura,
porque desce tão em baixo? Quando Ele poderia honrar essa união hipostática com
a única criatura digna de tal honra: ele, Lucifer: «sigilo de semelhança, cheio
de sabedoria e de perfeita beleza» (Ez 28, 12)
Ao mesmo tempo a inteligência angélica de Lucifer percebe todas
as consequências dos seus atos e compreende, sem nenhuma incerteza a única escolha
que lhe é oferecida: adorar, ultrapassando os seus medos, a sua incompreensão e
desilusão, só assim, alcançará a felicidade plena. Mas se recusar cairá sobre
ele uma desgraça irreparável, sobre a qual, nem deveria pensar. É uma escolha
inevitável, porque Deus respeita a liberdade. Não quer ser servido forçadamente
por um povo de escravos medrosos. A liberdade é o direto que cada criatura tem
para escolher a Deus ou afastar-se d’Ele.
Lucifer sabe não pode viver sem Deus, seria isto praticamente
impossível. Um tal castigo seria pior do que desaparecer, deixar de existir.
Deus criou-o para amar a Deus, uma queimadura permanente, que não tem cura, uma
chama inextinguível. A essência da sua natureza é amar. Amar a Deus acima de
tudo. E Lúcifer sabe que ele não é um Serafim qualquer: é o primeiro, o mais
nobre, a mais sublime criatura de Deus. Entre todos, é ele que possui a maior
capacidade de amar. Uma potencialidade tão grande que nada a poderia preencher,
senão o próprio Deus. Renunciar a Deus seria renunciar a amar, renunciar à razão
da sua existência. Deixar de amar, seria para ele cair num abismo profundo, num
vazio insondável, tal como insondável seria a dor da perda de Deus, do
desespero e do sofrimento. Ele próprio tornar-se-ia o Vazio.
Lúcifer compreende que está à beira de um precipício
horroroso. Miguel, ao lado dele, compreende a resistência de Lúcifer, mas lhe suplica:
«Lúcifer adora!». Lúcifer percebe que é o amor que move a súplica de Miguel: não
se trata apenas da exigência de dar a Deus o que lhe é devido, não, aquela
súplica surge do amor fraterno horrorizado perante o grave perigo que ameaça o
príncipe seráfico. Mas, de repente, o amor que Miguel lhe manifesta parece-lhe odioso,
insultante e, enfim, insuportável: «afinal, quem é ele que pensa saber mais do
que eu?
Os dois Serafins não podem esconder os seus pensamentos, nem a
conversa entre eles; o que tem repercussões em todos os coros angélicos. Adorar
ou não adorar, é escolha inevitável. Grande parte dos anjos, habituados a
receber a luz de Lúcifer, o Serafim portador de Luz, caem na prisão da dúvida e
não sabem o que escolher: adorar ou não adorar. Se estarem da parte de Deus,
que não compreendem ou se estarem da parte do grande Serafim, o mestre, a
autoridade constituída. De que lado está a obediência? De que lado está a
rebelião? Terrível dilema: escolha espantosa.
Miguel escolheu adorar e fica escondido na penumbra, embriagado
de amor e fé, cegamente confiante e seguro do amor de Deus e prostra-se diante
d’Ele. Ele adora, rebaixando a sua seráfica natureza diante dos seres parcialmente
materiais. Diante dessa cena, muito outros anjos se prostram, seguem o exemplo
dele.
Mais para abaixo, a turbulência continua. Lúcifer sente a
dúvida que invade os seus irmãos, a fidelidade que lhe devotam. Ele é o
príncipe, o líder. A submissão de Miguel, contra o conselho dele, irrita-os, parece-lhes
uma desobediência intolerável, uma traição odiosa. O seu apelo desolado
irrita-o: "Adora, Lúcifer! Adora!" Miserável escravo, indigno das
virtudes que Deus lhes infundiu!
Lúcifer olha para si mesmo, vê-se magnífico e incomparável. Como
é que ele pode prostrar-se diante da matéria? Nunca! A sua inteligência, a sua lógica,
como também a sua própria consciência, o advertem que, recusando-se, esta para cometer
um erro irreparável, um erro que produzirá a sua própria desgraça. Tudo se
rebela diante dessa escolha, mas Lúcifer sabe que tem que se submeter, agora, enquanto
lhe é oferecida esta possibilidade; depois será o vazio, um vazio atroz e
eterno. Ele tem que dobrar o seu espírito, todo o seu ser para Deus. Está ainda
em tempo para seguir o conselho de Miguel, mas isto significa renunciar aos
direitos que ele considera intangíveis. Não é ele a Beleza, a Perfeição, a
Graça e a Santidade?
Lúcifer
não vê a si mesmo em relação a Deus. Ele pensa em si mesmo em relação a si
mesmo, está a tomar o lugar de Deus: compraz-se do seu próprio esplendor,
deleita-se nessa mentira. Em seu coração não há humildade, é dominado pelo
orgulho: «O teu coração encheu-se de orgulho, por causa da tua
beleza. Arruinaste a tua sabedoria, por causa do teu esplendor» (Ez 28,17).
O amor que ardia nele afasta-se da Fonte, o fogo do amor
apaga-se, virado como é para si mesmo. Ainda está em tempo para renunciar à
mentira e escolher a verdade. Sabe que está para cometer um erro irreparável, mas,
esse erro o seduz, parece-lhe mais belo do que a Verdade. Obstinado, o belo
Lúcifer olha só para si mesmo. Deus é para ele, cada vez mais distante,
escondido, sente que está quase a ser perdido por Ele, mas isso já não o
incomoda. Que necessidade tem ele de Deus? Ele pode viver sem Ele! E a Felicidade?
Esta não está em Deus, mas em si próprio!
São Tomás de Aquino diz: «Os anjos rebeldes acharam que podiam
prescindir da felicidade sobrenatural que Deus lhe oferecia, para a procurarem dentro
de si, com as suas próprias forças: uma beatitude natural. Eles desprezaram,
numa palavra, a graça de Deus e pensaram que não precisavam dela» (São
Tomás de Aquino).
Lúcifer esqueceu-se de quem lhe ofereceu os dons que ele
possui. Só olha para si mesmo e a sua complacência não para de crescer.
A repreensão de Miguel ainda ressoa ainda nalgum lugar, mas é
uma voz infinitamente longínqua: «adora!». E lucifer: «Não, não adorarei! Não posso
eu adorar o que é inferior! Não, não adorarei seres materiais». Como pode ele
adorar seres materiais, quando ele é o mais sublime entre os serafins. Ao
proferir estas palavras insensatas, ele bem sabia disso, um véu de trevas caiu
sobre ele. A Luz apagou-se para sempre. O Serafim portador da Luz agora é
trevas. Santo Agostinho dizia: «Os Santos Anjos, voltando-se para o Verbo, tornaram-se
Luz; os anjos rebeldes, habitando em si mesmos, tornaram-se trevas» (Santo
Agostinho, A Cidade de Deus).
Lúcifer continua a possuir a sua beleza, inteligência e vontade,
mas, agora, são virtudes desfiguradas, irreconhecíveis. Aquela natureza
angélica, da qual se tinha imprudentemente glorificado, está destruída para
sempre, sem possibilidade de retorno.
Beleza? Lúcifer pode ainda dar-se a mais sedutora aparência e
enganar os crédulos. Ele próprio vê-se e retira-se horrorizado por se ter
tornado tão odioso.
Inteligência? É agora desviada, irremediavelmente, distorcida.
O que é justo, o que é verdadeiro, agora perdeu a ligação com Aquele que é a
Verdade, e nunca poderá alcança-Lo. O seu espírito sublime, de premissas
exatas, chegará sempre a resultados falsos, sem que lhe seja possível
compreender onde está o erro. Lúcifer tornou-se o erro, a mentira. A sua lógica
implacável, que tudo compreendia, não o abandonou, mas agora não passa de loucura
e revolta. Ele raciocinará, nunca deixará de raciocinar, obstinadamente, mas o
seus raciocínios serão loucos e absurdos, apesar da sua aparente coerência. A
inteligência de Lúcifer é como uma bússola que não conhece mais o Norte.
Graça? Infelizmente, ele bem sabia o que era, conserva dela a
lembrança, mas agora, já não a tem, perdeu-a para sempre. É uma dor intolerável.
Para ele, Deus e a graça de Deus serão inacessíveis para sempre! Seria melhor
morrer! Mas Lúcifer, gelado pelo desespero, sabe bem que ele é um anjo e que é
imortal.
Voltar atrás! Já não é possível. Para os anjos a
possibilidade de pecar era tão pequena, tão improvável, devido à perfeição da natureza
angélica, que Deus não lhe deu a noção do arrependimento; e, mesmo que ele tivesse
a possibilidade de se arrepender, será que a desfrutaria? Será que ele voltaria
atrás arrependido? Será que orgulho louco de Lúcifer se curvaria diante de
Deus? Pediria perdão? Certamente que não. Lúcifer agora é trevas, loucura e vaidade.
Tal escuridão torna-o cego e surdo diante de Deus. A mesma escuridão espalha-se
nos coros angélicos inferiores, semeando neles mentiras e erros.
Miríades de anjos de todos os coros angélicos engolem esta
mentira sedutora: A felicidade não está em Deus, está em nós próprios; mas não
veem a ferida atroz que está na alma de Lúcifer, uma ferida que ele esconde a
si próprio, tanto quanto a teme. Para milhares de milhares de anjos, Serafins,
Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes e Principados assumem o
grito insensato de Lucifer: «Não serviremos! Não adoraremos!»; e enquanto
pronunciam essas palavras, as trevas caem sobre eles e engole-os.
Lúcifer é semelhante a um daqueles fenómenos cósmicos
chamados buracos negros. Ele caiu nesse buraco e, a partir desse abismo de
sofrimento vê a desgraça dos outros anjos que seguiram a sua mesma rebeldia, o
que lhe dá algum conforto, mas é uma alegria amarga, que não muda o seu estado
de desespero. Ele perdeu a Deus para sempre. É uma dor inconsolável; mas os outros
anjos que o seguiram também O perderam. Ele não estará sozinho a debater-se
naquele terrível horror. Escutaram-no e, assim, também eles perderam a Beleza,
o Esplendor e Amor, que é Deus. Perderam-no para sempre. Lúcifer sobressalta de
satisfação quando um dos Serafins abraça a mesma mentira. Alegra-se porque não
está sozinho e também tirou a Deus o que Lhe pertencia.
Loucos de angústia e de dor, os anjos por ele desviados, chamam-no,
insultam-no, amaldiçoam-no, acusando-o de os ter enganados. É verdade, ele mentiu-lhes,
prometendo-lhes a descoberta da felicidade em si mesmos e não em Deus, uma
alegria impossível; mas não tinham eles uma inteligência suficiente, um juízo
esclarecido, para renunciar à mentira e voltar-se para Deus? A verdade é que o
seguiram livremente, desviando-se de Deus, o único que merece a adoração; e
virando-se para si próprios, miseráveis criaturas. Estavam à espera de uma
ocasião e ele ofereceu-a. Santo Agostinho dizia: «Dois amores criaram duas
cidades: uma é Jerusalém, o amor de Deus até ao desprezo de si próprios; o outro
é Babilônia, o amor de si mesmo até ao desprezo de Deus» (Santo Agostinho,
A Cidade de Deus).
Os outros anjos já não o saúdam com os nomes gloriosos: «Filho
da aurora, beleza perfeita...". Acabou! Mas não deprecia os novos títulos
que lhe aplicam: «Príncipe da mentira! Mestre do erro, Senhor das Trevas!» Ele
é mentira, erro e escuridão, mas continua a ser príncipe, mestre e senhor, títulos
honrosos que os demónios usam para falar de Deus. Paradoxalmente, é assim que
o diabo é chamado.
Não, ainda não é suficiente que multidões de anjos continuem alcança-lo,
seguindo-o na sua mesma perdição, no meio de gritos e maldições. Ele perseguirá
também o Homem e a Mulher, para lhes impedir aquela felicidade eterna que ele perdeu
para sempre. São matéria em parte e serão para sempre matéria porque ele matará
a alma. Matará as almas preciosas e amadas por Deus. Que vingança! Pois ao
sofrimento de Lúcifer junta-se agora uma raiva furiosa que ele não consegue dominar:
um ódio imenso tal como era o seu amor. É um vazio insondável que se instalou nele
e só o ódio poderá preenchê-lo, aos menos, um pouco. É uma loucura que já não
para de crescer. É uma tortura espiritual que os teólogos chamam «pena do dano»,
pena da privação de Deus. É uma pena que Lucifer infligiu a si próprio pela sua
obstinação e pelo seu orgulho, uma pena que não lhe dá sossego e que alimenta o
seu furor contra Deus.
Pela sua inteligência distorcida muda os dados do problema.
Pensa que Deus o enganou, que os enganou a todos, que cometeu uma injustiça
intolerável punindo-os com pura crueldade. Tirano! Tirano ignóbil! Ele não é
digno de dominar sobre as nuvens! Abaixo o tirano! Lucifer esqueceu-se da
verdade e colocou a questão à sua maneira. Amor, ele chama de ódio. A vida, ela
chama morte. Verdade, ela chama mentira, chama tirania a justiça, preto o que é
branco ... operou uma inversão completa dos valores, uma visão distorcida da realidade,
através da qual, tenta as almas distorcendo nelas a perceção do bem e do mal.
Lucifer está preso dentro do seu sistema, da sua lógica doentia.
Ele também crê, animado
como está pela fúria e pela detestação de Deus, cego diante do real e do justo,
o seu poder de Espírito Angélico tem a capacidade de culpar o Criador,
desonrado pela Sua vontade de assumir a natureza humana, de se tornar homem,
matéria ... de derrubá-lo de Seu Trono e assim tomar o lugar Dele: «Tornar-se
Deus em última instância, este é o pecado dos anjos, uma luxúria espiritual: estavam
satisfeitos em si mesmos, chegando ao ponto de desejar, se fosse possível,
suprimir Deus e tomar o Seu lugar. (João Escoto).
Tão inverosímil é o programa dele que pretende tratar a Deus
como se fosse uma criatura: o dominador das nações: «Tu que dizias no teu
coração: Subirei aos céus, estabelecerei o meu trono acima das estrelas de
Deus, sentar-me-ei na montanha da Assembleia, na extremidade do céu; subirei
acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo'. Infeliz! Foste precipitado
no abismo, no mais profundo do mundo dos mortos! (Is 14, 13-14-15)
O delírio blasfemo atinge o universo de consternação. Os
próprios anjos rebeldes estavam convencidos de que Deus poderia aniquilá-los;
bastaria, que deixasse de pensar neles; mas nada acontece, Deus não aniquilou os
anjos, não aniquilou Lúcifer, porque Deus nunca se arrepende daquilo que criou.
O Serafim já se esqueceu da sabedoria divina, e não vê neste silêncio, nesta
tolerância, a prova da fraqueza desse Deus Criador que se prostrava diante
dele, velando-se o rosto.
Iludido da sua vitória agora próxima, ele grita cada vez
mais, no meio do silêncio assustado dos espíritos: «Serei semelhante a Deus! Eu
sou como Deus!» Está diante do Trono de Deus, que para ele não passa de trevas
impenetráveis, ameaçadoras. Ele é o adversário irreconciliável. Levados pelo
seu exemplo, avançam os seus companheiros, animados pela inação dos anjos
fiéis. Então, ouve-se um grito que atravessa os céus, um grito ainda mais forte
do que a monstruosa blasfêmia de Lucifer: «Quem é que se atreva a chamar-se
igual a Deus? Quem é como Deus?»
Lúcifer reconhece a voz daquele que está pronto para o desafiar.
«Quem como Deus?» é o nome do segundo dos Serafins, o tenente fraterno de
Lúcifer, o amigo perfeito. Agora, porém, é o traidor, aquele que lhe desobedeceu
e que se humilhou diante das duas criaturas materiais. É o Arcanjos Miguel, pacífico
e misericordioso. São Miguel o príncipe das Misericórdias, mas agora transformado
por uma santa cólera, pronto a defender o Amado insultado. O Bem-Amado
escondido e invisível, que Lúcifer, devastado pelo ciúme e pelo sofrimento,
contempla e que serenamente realiza a justiça divina.
Miguel transfigurado, sublime, chama viva de Deus, braseiro
do amor e da verdade, e que realiza serenamente a justiça divina.
"Quem é como Deus!".
Bilhões de anjos, aliviados pela indignação, aceitam
incessantemente a demanda.
Pela primeira vez, Lúcifer tenta contar suas tropas. Quando
os viu morrer em graça, santidade, felicidade e luz, estrelas sugadas para o
buraco negro da sua revolita, do seu orgulho, da sua obstinação, pareceram-lhe
inumeráveis. Na realidade, eles são muito menos numerosos do que os exércitos
que permaneceram fiéis ao Outro e que se reúnem ao redor de Miguel... Apenas um
terço, um terço dos anjos deixaram o campo de Deus para o seguir (interpretação
tradicional do Apocalipse, 12,3-4): «Então apareceu no céu o segundo sinal:
um enorme dragão vermelho ardente, com sete cabeças e dez comas, cada cabeça
encimada por um diadema. Sua cauda varre um terço das estrelas do céu e as
precipita sobre a terra»
A luz que irradia em Miguel, e que ele espalhava
profusamente sobre os Espíritos dos nove coros, agora é insuportável para
Lúcifer. Queima-o, mas não com aquele delicioso ardor, daquele sofrimento
requintado que ele conhecia quando ainda era o príncipe dos Serafins.
Não, é como uma chama atroz e insuportável que o devora sem o
destruir, como o amor, uma vez, o devorava sem o consumir (os teólogos pensam
que o castigo dos anjos rebeldes e o dos condenados é duplo: a perda
irreparável de Deus que eles recusaram, ou pena do dano; e um fogo espiritual devido
à perversão das suas faculdades de amar. Este sofrimento age nele como uma
agulha e alimenta o seu ódio e, com toda a sua revolta, lança-se contra Miguel.
Nesta luta pelo primeiro lugar, ele está determinado a assiná-lo e vencê-lo.
Lutas de espíritos, de inteligências puras: E se Lúcifer tem menos tropas, ele
continua convencido de sua superioridade, a começar pela sua. Ele não teme
Michael que sempre dominou com sua ciência, com sua compreensão do universo.
Ele certamente triunfará.
"Então ocorreu uma guerra no céu: Miguel e seus anjos lutaram
contra o Dragão. E respondeu o Dragão com os seus anjos» (Ap 12, 7).
Quando se engajou na luta, Lúcifer acreditava na vitória.
Percebeu, tarde demais, que não ganharia. Não só Miguel, mas todos os seus
companheiros, até ao último dos anjos do Coro, opõem-lhe uma resistência
triunfal, mas nada o pode rasgar. Lúcifer recua diante dos Espíritos sobre os
quais reinava, que antes não poderiam nada sem a sua ajuda: O que acontece?
Como é possível que essas naturezas inferiores conseguem vence-lo?
Nunca o tinha experimentado, Lúcifer ignorava o poder desses
espíritos unidos a Deus. Ele pensava de lutar contra criaturas espirituais
inferiores, mas ignorava o poder de Deus que atuava neles. A força de Deus
derrama-se entre os seus anjos fiéis. "Qualquer um deles, homem ou Anjo,
quando adere a Deus, torna-se espiritualmente um com Ele e torna-se superior a
qualquer outra criatura".
Luz, Amor, Verdade, Beleza, Justiça e Bem, tesouros que
Lúcifer e seus Anjos desprezaram, agora resplandecem diante deles, como muralha
inquebrável, braseiro ardente, do qual não se podem aproximar, luz
resplandecente que não podem sustentar. A Luz esplendorosa de Deus rejeita-os;
eles não podem estar em Sua presença. As trevas não suportam a Luz, a escuridão
não resiste diante do sol, os Anjos rebeldes recuam. O Céu, estadia da sua
felicidade queima-os; pensam apenas de fugir dele. Um imenso clamor enche o
universo: «Como caíste do Céu, estrela da manhã, filho da aurora? Foste
precipitado à terra, vencedor das nações»
Lúcifer cai, sugado por aquele vazio insondável, cada mais
longe do Paraíso. Quanto mais desce, tanto mais cresce seu desespero, o ódio, e
o desejo de fazer o mal, o maior mal possível.
Ele perde a sua primeira batalha, mas não perdeu ainda a
guerra. A sua vingança está para começar. O Céu para ele está fechado para
sempre. Agora o que lhe resta é impedir aos homens de entrar nele.
Marcello Stanzione, In lotta
contro il maligno, Edizioni Segno, pp. 5-20