O desejo de possuir
Uma das verdades mais reconfortantes da
nossa fé é a da Providência divina. O profeta Isaías apresenta-a como a imagem
do amor materno cheio de ternura, e diz assim:
«Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que
não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse
dele, contudo eu não me esquecerei de ti» (Is 49,15).
Como isto é bonito! Deus não se esquece de
nós, de cada um de nós! De cada um de nós com nome e sobrenome. Ama-nos e não
nos esquece. Que belo pensamento... Este convite à confiança em Deus encontra
paralelo numa página do Evangelho de Mateus:
«Olhai para as aves do céu - diz Jesus - não semeiam, nem ceifam, nem
recolhem em celeiros; e o vosso Pai do céu alimenta-as... Observai como crescem
os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: nem Salomão, em
toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles» (Mt 6,26.28-29).
Mas, pensando em tantas pessoas que vivem em
condições precárias, ou até na miséria que ofende a sua dignidade, estas
palavras de Jesus poderiam parecer abstratas, ou até ilusórias. Na realidade,
são atuais como nunca! Recordam-nos que não se pode servir a dois senhores: a
Deus e à riqueza. Enquanto cada um procurar acumular para si, nunca haverá
justiça. Ouvi bem isto! Enquanto cada um procurar acumular para si, nunca haverá
justiça. Se, ao contrário, confiando na Providência de Deus, procurarmos juntos
o seu Reino, então não faltará a ninguém o necessário-para viver dignamente.
Um coração ocupado pela cupidez de possuir é
um coração cheio desta cobiça de possuir, mas vazio de Deus. Por isso, Jesus
admoestou várias vezes os ricos, porque para eles é alto o risco de ancorar a
própria segurança nos bens deste mundo, e a segurança, a segurança definitiva,
está em Deus.
Num coração possuído pelas riquezas, não há
lugar para a fé. Se, pelo contrário, se deixa a Deus o lugar que lhe compete,
isto é, o primeiro, então o seu amor leva a partilhar também as riquezas, a
pô-las ao serviço de projetos de solidariedade e de progresso, como demonstram
tantos exemplos, até recentes, na história da Igreja. E assim a Providência de
Deus passa através do nosso serviço aos outros, do nosso partilhar com os
outros. Se cada um de nós não acumular riquezas só para si, mas as puser ao serviço
dos outros, nesse caso a Providência de Deus torna-se visível nesse gesto de
solidariedade.
Se, ao invés, cada um acumular só para si, o
que lhe acontecerá quando for chamado por Deus? Não poderá levar as riquezas
consigo, porque - sabeis - o sudário não tem bolsos! É melhor partilhar, porque
só levamos para o Céu aquilo que partilhamos com os outros.
O caminho que Jesus indica pode parecer
pouco realista em relação à mentalidade comum e aos problemas da crise
económica; mas, se pensarmos bem, reconduz-nos à justa escala de valores. Ele
diz: «Porventura não é o corpo mais do que o vestido e a vida mais do que o
alimento?» (Mt 6,25).
Para fazer de maneira a que a ninguém falte
o pão, a água, o vestuário, a casa, o trabalho, a saúde, é preciso que todos
nos reconheçamos filhos do Pai que está nos céus e, por conseguinte, irmãos
entre nós, e que nos comportemos de modo consequente. O caminho para a paz é a
fraternidade: este andar junto, partilhar as coisas juntos.
À luz da Palavra de Deus, invoquemos a
Virgem Maria como Mãe da divina Providência. A ela confiemos a nossa
existência, o caminho da Igreja e da humanidade. Em particular, invoquemos a
sua intercessão para que todos nos esforcemos por viver com um estilo simples e
sóbrio, com o olhar atento às necessidades dos irmãos mais carentes.
A falsa felicidade do efémero
A alegria não é a emoção de um momento: é
outra coisa! A verdadeira alegria não vem das coisas, do ter, não! Nasce do
encontro, da relação com os demais, nasce do sentir-se aceite, compreendido,
amado e do aceitar, do compreender e do amar: e isto não pelo interesse de um
momento, mas porque o outro, a outra, é uma pessoa.
A alegria nasce da imprevisibilidade de um
encontro! É tu ouvir dizer-te: «Tu és importante para mim», não necessariamente
com palavras. Isto é bonito... E é precisamente isto que Deus nos faz
compreender. Ao chamar-vos, Deus diz-vos: «Tu és importante para mim, eu
amo-te, conto contigo». Jesus diz isto a cada um de nós! Disto nasce a alegria!
A alegria do momento em que Jesus olhou para mim.
Compreender e sentir isto é o segredo da
nossa alegria. Sentir-se amado por Deus, sentir que para Ele nós não somos
números, mas pessoas; e sentir que é Ele que nos chama.
Tomar-se sacerdote, religioso, religiosa,
não é primeiramente uma escolha nossa. É a resposta a uma chamada, a uma chamada
de amor. Sinto algo dentro de mim, que me desassossega, e respondo sim. Na
oração, o Senhor faz-nos sentir este amor, mas também o faz através de muitos
sinais que podemos ler na nossa vida e de tantas pessoas que põe no nosso
caminho. E a alegria do encontro com Ele e da sua chamada faz com que não nos
fechemos, mas que nos abramos; leva ao serviço na Igreja.
São Tomás dizia «bonum est diffusivum
sui», o bem difunde-se. E também a alegria se difunde. Não tenhais medo de
mostrar a alegria de ter respondido à chamada do Senhor, à sua escolha de amor
e de testemunhar o seu Evangelho no serviço à Igreja. E a alegria, a
verdadeira alegria, é contagiosa; contagia... faz ir em frente. Ao contrário,
quando te encontras com um seminarista demasiado sério, demasiado triste, ou
com uma noviça assim, pensas: «qualquer coisa não está bem!» Falta a alegria do
Senhor, a alegria que te leva ao serviço, a alegria do encontro com Jesus, que
te conduz ao encontro com os outros para anunciar Jesus. Falta isso! Não há
santidade na tristeza, não há!
Santa Teresa de Ávila dizia: «Um santo
triste é um triste santo!». Tem pouca importância... Quando encontras um
seminarista, um padre, uma freira, uma noviça, amuados, tristes, que parece que
alguém lançou sobre a sua vida um cobertor muito molhado, muito pesado... dos
que te deitam abaixo... Algo não está bem! Então, por favor: nunca haja
freiras, sacerdotes, com a cara «azeda», nunca! A alegria vem de Jesus. Pensai
nisto: quando um padre - digo um padre, mas também um seminarista - quando a um
seminarista, a uma freira, falta a alegria e anda triste, vós podeis pensar: «É
um problema psicológico». E é verdade que pode ser, pode ser isso sim.
Acontece: alguns infelizmente, adoecem… Pode ser. Mas em geral não é um
problema psicológico. É um problema de insatisfação? Claro que sim!
Mas onde está o cerne daquela falta de
alegria? É um problema de celibato. Explico. Vós, seminaristas, freiras, consagrais
o vosso amor a Jesus, um amor grande; o coração é para Jesus, e isto leva-vos a
fazer o voto de castidade, o voto de celibato. Mas o voto de castidade e o voto
de celibato não acabam no momento em que se emitem, continuam... Um caminho
que amadurece, amadurece, amadurece até à paternidade pastoral, até à
maternidade pastoral, e quando um sacerdote não é pai da sua comunidade, quando
uma religiosa não é mãe de todos aqueles com quem trabalha, torna-se triste.
Eis o problema. Por isto vos digo: a raiz da tristeza na vida pastoral consiste
precisamente na falta de paternidade e de maternidade que vem do viver mal esta
consagração que, ao contrário, nos deve conduzir à fecundidade. Não se pode
imaginar um sacerdote ou urna religiosa que não sejam fecundos: isto não é
católico! Não é católico! É esta a beleza da consagração: a alegria, a
alegria...
A doença estéril do pessimismo
A alegria do Evangelho é tal que nada e
ninguém no-la poderá tirar (cf. Jo 16,22). Os males do nosso mundo - e os da
Igreja - não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o
nosso ardor. Vejamo-los como desafios para crescer. Além disso, o olhar crente
é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da
escuridão, sem esquecer que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça»
(Rm 5,20). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser
transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Apesar de nos
entristecerem as misérias do nosso tempo e de estarmos longe de otimismos
ingénuos; um maior realismo não deve significar menor confiança no Espírito,
nem menor generosidade.
Uma das tentações mais sérias que sufoca o
fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados, com cara de «vinagre». Ninguém pode empreender
uma luta se de antemão não está plenamente confiante no triunfo. Quem começa
sem confiança, perdeu já metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora
com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem
se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: «Basta-te a
minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12,9).
O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas
cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura
batalhadora contra as investidas do mal. O mau espírito da derrota é irmão da
tentação de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma
desconfiança ansiosa e egocêntrica.
É verdade que, nalguns lugares, se produziu
uma «desertificação» espiritual, fruto do projeto de sociedades que querem
construir-se sem Deus ou que destroem as suas raízes cristãs. Noutros países, a resistência violenta ao
cristianismo obriga os cristãos a viverem a sua fé às escondidas no país que
amam. Esta é outra forma muito triste de deserto. E a própria família ou o
lugar de trabalho podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar
a fé e procurar irradiá-la.
Mas «é precisamente a partir da experiência
deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua
importância vital pata nós, homens e mulheres. No deserto, é possível
redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo
de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda
que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. E, no deserto, existe
sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com as suas próprias vidas,
indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança»
(Bento XVI, Homilia na Missa de abertura do Ano da Fé, 11 de outubro 2012).
Em todo o caso, nestas circunstâncias somos
chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o cântaro
transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor,
trespassado. Se Ele nos entregou como fonte de água viva. Não deixemos que nos
roubem a esperança!
A indústria da destruição
Quando, no Livro do Apocalipse, ouvimos a
voz do Anjo que dama em voz alta aos quatro Anjos a quem tinha sido concedido
devastar a terra e o mar, destruindo tudo:
«Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as
árvores» (4 7,3) e nós
somos capazes de devastar a terra melhor do que os Anjos. E é o que continuamos
a fazer, é isto que levamos a cabo: devastar a Criação, destruir a vida,
aniquilar as culturas, devastar os valores e destruir a esperança.
Quanta necessidade temos da força do Senhor,
para que nos trave com o seu amor e com a sua força, para impedir esta
desvairada corrida de destruição! Devastação daquilo que Ele nos concedeu, das
coisas mais bonitas que Ele criou para nós, para que cuidássemos delas e as
fizéssemos crescer, para dar fruto.
O homem apodera-se de tudo, julga-se Deus, julga-se
rei. E as guerras: as guerras que continuam, não para semear o trigo da vida,
mas para destruir. É a indústria da destruição! É um sistema, também de vida,
em que, quando as coisas não podem ser resolvidas, são descartadas: descartam-se
as crianças, descartam-se os idosos, descartam-se os jovens desempregados. Esta
devastação provocou uma cultura do descartável: descartam-se povos inteiros...
Eis a primeira imagem que me vem à mente, quando ouvimos esta passagem do
Apocalipse.
Eis a segunda imagem, na mesma Leitura: esta
«grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos,
povos e línguas» (7,9). Os povos, a gente... esses pobres que, para salvar
a sua vida, têm de fugir das próprias casas, das suas gentes, das suas aldeias,
rumo ao deserto.., e vivem em tendas, sentem frio, sem remédios, famintos,
porque o «deus-homem» se apoderou da Criação, de toda aquela beleza que Deus
criou para nós.
Mas quem paga a festa? Eles! Os mais
pequeninos, os pobres, aqueles que, como pessoas, acabaram descartados. E isto
não é uma história antiga: acontece hoje. Direi mais: parece que estas pessoas,
estas crianças famintas e enfermas não contam, parece que são de outra espécie,
que não são humanas. Esta multidão encontra-se diante de Deus e suplica: «Por
favor, salvação! Por favor, paz! Por favor, pão! Por favor, trabalho! Por
favor, filhos e avós! Por favor, jovens com a dignidade de poder trabalhar!»
Entre estas pessoas perseguidas encontram-se
também as que são perseguidas pela fé. «Então um dos Anciãos falou comigo e
perguntou-me: "Esses, que estão vestidos com vestes brancas, quem são e de
onde vêm?" ( ...) "Esses são os sobreviventes do grande tormento;
lavaram as suas vestes e purificaram-nas no sangue do Cordeiro"»
(7,13.14). E hoje, sem exagerar, no dia de todos os Santos, gostaria que
pensássemos em todos eles, nos Santos desconhecidos. Pecadores como nós, pior
do que nós, mas destruídos. A todas estas pessoas que vêm do grande tormento.
A maior parte do mundo vive em tormento. E o Senhor santifica este povo,
pecador como nós, mas santifica-o com o tormento.
E no fim, a terceira imagem: Deus. A
primeira, a devastação; a segunda, as vítimas; e a terceira, Deus. Na Primeira
Carta de São João ouvimos: «Desde já somos filhos de Deus, mas ainda não se
manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar,
seremos semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é» (1 Jo 3,2): ou
seja, a esperança. E esta é a bênção do Senhor, que ainda é a nossa: a esperança.
A esperança de que Ele tenha piedade do seu povo, tenha piedade daqueles que
vivem no grande tormento e que tenha piedade também dos destruidores, a fim de
que se convertam. É assim que a santidade da Igreja progride: com este povo,
com cada um de nós, que veremos Deus como Ele é. Qual deve ser a nossa atitude,
se quisermos fazer parte deste povo e caminhar rumo ao Pai, neste mundo de
devastação, neste mundo de guerras, neste mundo de tormento?
Como ouvimos no Evangelho de Mateus, a nossa
atitude é a das Bem-Aventuranças. Somente este caminho nos levará ao encontro
com Deus. Só esta vereda nos salvará da destruição, da devastação da terra, da
Criação, da moral, da história, da família, de tudo. Unicamente este caminho:
contudo, far-nos-á passar por situações difíceis! Trar-nos-á problemas e perseguição.
Mas só este caminho nos levará em frente. E assim, este povo que hoje sofre
tanto, devido ao egoísmo dos devastadores, dos nossos irmãos devastadores,
este povo progride através das Bem-Aventuranças, da esperança de descobrir
Deus, de se encontrar face a face com o Senhor, com a esperança de se tomarem
santos no momento do encontro definitivo com Ele.
Que o Senhor nos ajude e nos conceda a graça
desta esperança, mas também a graça da coragem de sair de tudo aquilo que é
destruição, devastação, relativismo de vida, exclusão do próximo, exclusão dos
valores e exclusão de tudo o que o Senhor nos ofereceu: exclusão da paz. Que
Ele nos liberte de tudo isto e nos conceda a graça de caminhar na esperança de
nos encontrarmos um dia face a face com Ele. E esta esperança, irmãos e irmãs,
não desilude!
O paradoxo da abundância
A Igreja, como sabeis, procura estar sempre
atenta e ser solícita em relação a tudo o que se refere ao bem-estar espiritual
e material das pessoas, em especial de quantos vivem marginalizados e
excluídos, para que sejam garantidas a sua segurança e dignidade.
Os destinos de cada nação estão mais do que
nunca relacionados entre si, como os membros de uma mesma família que dependem
uns dos outros. Mas vivemos numa época em que as relações entre as nações são
frequentemente deterioradas pela suspeita recíproca que, por vezes, se
transforma em formas de agressão bélica e económica, mina a amizade entre
irmãos e rejeita ou descarta quem já era excluído. Sabe isto muito bem quem não
tem o pão diário nem um trabalho digno. É este o quadro mundial, no qual se
devem reconhecer os limites das organizações que se baseiam na soberania de
cada um dos Estados, entendida como absoluta, e nos interesses nacionais,
muitas vezes condicionados por pequenos grupos de poder. (...)
Hoje fala-se muito de direitos, esquecendo
muitas vezes os deveres. Talvez não nos tenhamos preocupado o suficiente por
quantos sofrem de fome. Além disso, é doloroso constatar que a luta contra a
fome e a subalimentação é ultrapassada pela «prioridade do mercado», e pela
«primazia do lucro», que reduziram os alimentos a uma comum mercadoria,
sujeita a especulações, até financeiras. E quando se fala de novos direitos, o
faminto está ali, na esquina da rua, e pede o direito de cidadania, pede para
ser considerado na sua condição, pede para receber uma alimentação básica
sadia. Pede-nos dignidade, não esmola.
Estes critérios não podem permanecer no
limbo da teoria. As pessoas e os povos exigem que se ponha em prática a
justiça; não só a justiça legal, mas também a contributiva e distributiva. Por
conseguinte, os planos de desenvolvimento e o trabalho das organizações
internacionais deveriam ter em consideração o desejo, tão frequente entre as
pessoas comuns, de ver respeitados em todas as circunstâncias os direitos
fundamentais da pessoa humana e, no caso que abordamos, da pessoa que tem
fome. Quando isto acontecer, também as intervenções humanitárias, as ações
urgentes de ajuda e de desenvolvimento - o verdadeiro e integral - terão maior
impulso e darão os frutos desejados.
A preocupação com a produção, a
disponibilidade de alimentos e o acesso a eles, as mudanças climatéricas e o
comércio agrícola devem indubitavelmente inspirar regras e medidas técnicas,
mas a primeira preocupação devem ser as pessoas, e quantas não têm o alimento
diário e deixam de pensar na vida, nas relações familiares e sociais, para
lutar unicamente pela sobrevivência. O Santo Padre João Paulo II, na
inauguração da Primeira Conferência sobre a Alimentação, em 1992, advertiu a
comunidade internacional acerca do risco do «paradoxo da abundância»: há
alimento para todos, mas nem todos podem comer, enquanto o desperdício, o
descarte, o consumo excessivo e o uso de alimentos para outros fins estão
diante dos nossos olhos. Eis o paradoxo! Infelizmente, este «paradoxo»
continua a ser atual. Há poucos temas sobre os quais se exibem tantos sofismas
como a fome; e poucos argumentos tão suscetíveis de ser manipulados pelos
dados, pelas estatísticas, pelas exigências de segurança nacional, pela
corrupção ou por uma chamada dolorosa à crise económica. É este o primeiro
desafio que deve ser superado.
O segundo desafio que deve ser enfrentado é
a falta de solidariedade. Uma palavra que, no fundo de nós, suspeitamos ter de
eliminar do dicionário. As nossas sociedades caraterizam-se por um
individualismo crescente e pela divisão; isto acaba por privar os mais débeis
de uma vida digna e por provocar revoltas contra as instituições. Quando num
país não há solidariedade, todos se ressentem disso. De facto, a solidariedade
é a atitude que faz com que as pessoas sejam capazes de ir ao encontro do outro
e de fundar as suas próprias relações recíprocas naquele sentimento de
fraternidade que vai para além das diferenças e dos limites, e leva a procurar
juntos o bem comum.
Os seres humanos, na medida em que tomam
consciência de ser parte responsável no desígnio da criação, tornam-se capazes
de se respeitar reciprocamente, em vez de se combaterem entre si, danificando
e empobrecendo o planeta. Também aos Estados, concebidos como comunidades de
pessoas e povos, é pedido que ajam de comum acordo, que estejam dispostos a
ajudar-se uns aos outros mediante os princípios e as normas que o direito
internacional põe à sua disposição. Uma fonte inexaurível de inspiração é a
lei natural, inscrita no coração humano, que fala uma linguagem que todos
podem compreender: amor, justiça, paz, elementos inseparáveis entre si. Como
as pessoas, também os Estados e as instituições internacionais são chamados a
acolher e cultivar estes valores, num espírito de diálogo e de escuta
recíproca. Deste modo, o objetivo de alimentar a família humana torna-se
realizável.
Cada mulher, homem, criança ou idoso deve
poder contar com estas garantias em toda a parte. E é um dever de cada Estado,
atento ao bem-estar dos seus cidadãos, subscrevê-las sem reservas e
preocupar-se com a sua aplicação. Isto exige perseverança e apoio. A Igreja
católica procura oferecer também neste âmbito o próprio contributo, mediante
uma atenção constante à vida dos pobres, dos necessitados em todas as partes dó
planeta; move-se nesta mesma linha o compromisso ativo da Santa Sé nas
organizações internacionais e com os seus numerosos documentos e declarações.
Desta forma pretende-se contribuir para a identificação e adoção de critérios
que o desenvolvimento de um sistema internacional equitativo deve satisfazer.
São critérios que, a nível ético, se baseiam em pilares como a verdade, a liberdade,
a justiça e a solidariedade; ao mesmo tempo, no âmbito jurídico, estes
critérios incluem a relação entre o direito à alimentação e o direito à vida e
a uma existência digna, o direito de ser tutelado pela lei, nem sempre próxima
da realidade de quem sofre a fome, e a obrigação moral de partilhar a riqueza
económica do mundo.
Se se acredita no princípio da unidade da
família humana, fundado na paternidade de Deus Criador e na fraternidade dos
seres humanos, nenhuma forma de pressão política ou económica que se sirva da
disponibilidade de alimentos pode ser aceitável. Pressão política e económica.
Penso na nossa irmã e mãe Terra, o Planeta. Preservar o Planeta. Recordo uma
frase que ouvi de um ancião, há muitos anos: «Deus perdoa sempre, as ofensas os
abusos; Deus perdoa sempre. Os homens perdoam de vez em quando. A Terra nunca perdoa!».
Preservemos a irmã Terra, a mãe Terra, para que não responda com destruição.
Mas, sobretudo, nenhum sistema de discriminação, de fado ou de direito,
vinculado à capacidade de acesso ao mercado de alimentos, deve ser tomado como
modelo das ações internacionais que se propõem eliminar a fome.
A engrenagem de consumismo desenfreado
Sinto obrigação, antes de mais, de sublinhar
a ligação estreita que existe entre estas duas palavras: «dignidade» e
«transcendente».
«Dignidade» é uma palavra-chave que
caraterizou a recuperação após a Segunda Guerra Mundial. A nossa história
recente carateriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade
humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao
longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A perceção da importância dos direitos
humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de
muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da
preciosidade, unicidade e irrepetibilidade de cada pessoa humana. Esta tomada
de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da
história, mas sobretudo no pensamento europeu, caraterizado por um encontro
marcante cujas numerosas e distantes fontes provêm «da Grécia e de Roma, de
substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou
profundamente» (João Paulo II, Discurso na Assembleia do Conselho da Europa, 8
outubro 1998), dando origem ao conceito de «pessoa».
Hoje, a promoção dos direitos humanos ocupa
um papel central no empenho da União Europeia em promover a dignidade da
pessoa, tanto no âmbito interno como nas relações com os outros países.
Trata-se de um compromisso importante e admirável, porque persistem ainda
muitas situações onde os seres humanos são tratados como objetos, dos quais se
pode programar a conceção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser
jogados fora quando já não servem porque se tornaram frágeis, doentes ou
velhos.
Realmente, que dignidade existe quando não
há possibilidade de exprimir livremente o pensamento ou professar sem coerção
a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um quadro jurídico claro,
que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder?
Que dignidade podem ter um homem ou uma mulher tornados objetos de todo o
género de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem
o alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, que não tem o trabalho
que o unge de dignidade?
Promover a dignidade da pessoa significa
reconhecer que ela possui direitos inalienáveis, de que não pode ser privada
por arbítrio de ninguém e, muito menos, para benefício de interesses
económicos.
É preciso, porém, ter cuidado para não cair
em alguns equívocos que podem surgir de um errado conceito de direitos humanos
e de um abuso paradoxal dos mesmos. De facto, há hoje a tendência para uma
reivindicação crescente de direitos individuais - sinto-me tentado a dizer
individualistas -, que esconde uma conceção de pessoa humana separada de todo o
contexto social e antropológico, quase como uma «mónada» cada vez mais
insensível às outras «mónadas» à sua volta. Ao conceito de direito já não se
associa o conceito igualmente essencial e complementar de dever, acabando por
afirmar-se os direitos do indivíduo sem ter em conta que cada ser humano está
unido a um contexto social, onde os seus direitos e deveres estão ligados aos
dos outros e ao bem comum da própria sociedade.
Por isso, considero que hoje seja mais vital
do que nunca aprofundar uma cultura dos direitos humanos que possa
sapientemente ligar a dimensão individual, ou melhor, pessoal, à do bem comum,
àquele «todos nós» formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se
unem em comunidade social. Na realidade, se o direito de cada um não está
harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações
e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflitos e violências.
Assim, falar da dignidade transcendente
do homem significa apelar para a sua natureza, a sua capacidade inata de
distinguir o bem do mal, para aquela «bússola» inscrita nos nossos corações e
que Deus imprimiu no universo criado; significa sobretudo olhar para o homem,
não como um absoluto, mas como um ser relacional. Uma das doenças que, hoje,
vejo mais difusa na Europa é a solidão, típica de quem está privado de
vínculos. Vemo-la particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados à sua
sorte, bem como nos jovens, privados de pontos de referência e de oportunidades
para o futuro; vemo-la nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades;
vemo-la no olhar perdido dos imigrantes que vieram para cá à procura de um
futuro melhor.
Uma tal solidão foi, depois, agravada pela
crise económica, cujos efeitos persistem ainda com consequências dramáticas
do ponto de vista social. ( ... )
A isto vêm juntar-se alguns estilos de vida
um pouco egoístas, caraterizados por uma opulência atualmente insustentável e
muitas vezes indiferente ao mundo circundante, sobretudo aos mais pobres. No
centro do debate político, constata-se lamentavelmente a preponderância das
questões técnicas e económicas em detrimento de uma autêntica orientação
antropológica. O ser humano corre o risco de ser reduzido a mera engrenagem dum
mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo
que a vida - como vemos, infelizmente, com muita frequência -, quando deixa de
ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas, como no
caso dos doentes, dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem
cuidados, ou das crianças eliminadas antes de nascer.
É o grande equívoco que se verifica «quando
prevalece a absolutização da técnica» (Bento XVI, Caritas in veritate, 71),
acabando por gerar «uma confusão entre fins e meios» (ibidem) que é o resultado
inevitável da «cultura do descarte» e do «consumismo exacerbado». Pelo
contrário, afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da
vida humana, que nos é dada gratuitamente não podendo, por conseguinte, ser
objeto de troca ou de comércio. ( ... ) Cuidar da fragilidade quer dizer força
e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e
individualista que conduz inexoravelmente à «cultura do descarte». Cuidar da
fragilidade das pessoas e dos povos significa guardar a memória e a esperança;
significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser
capaz de ungi-lo de dignidade.
As tentações do pastor.
A s tentações, que procuram ofuscar o
primado de Deus e do seu Cristo, são um «batalhão» na vida do Pastor: vão da
tibieza, que acaba em mediocridade, à busca de uma vida sossegada, que se
esquiva a renúncias e sacrifícios. É tentação a impetuosidade pastoral, ao
mesmo nível da sua meia-irmã, aquela acídia que leva à impaciência, como se
tudo fosse apenas um peso. Tentação é a presunção de quem se convence de que
pode contar apenas com as suas próprias forças, com a abundância de recursos e
de estruturas, com as estratégias organizacionais que sabe pôr em ação. Tentação
é acomodar-se na tristeza que, enquanto apaga qualquer expetativa e
criatividade, nos deixa insatisfeitos e, portanto, incapazes de entrar na vida
concreta do nosso povo, e de o entender à luz da manhã de Páscoa.
Se nos afastarmos de Jesus Cristo, se o
encontro com Ele perder a sua frescura, acabaremos por só tocar com a mão na
esterilidade das nossas palavras e das nossas iniciativas. Porque os planos
pastorais são úteis, mas a nossa confiança está noutro lado: no Espírito do
Senhor que - na medida da nossa docilidade - nos abre de par em par, continuamente,
os horizontes da missão.
Para evitar encalhar nos recifes, a nossa
vida espiritual não pode reduzir-se a uns poucos momentos religiosos. Na
sucessão dos dias e das estações, no suceder-se das idades e dos
acontecimentos, exercitemo-nos em nos considerarmos pessoas que contemplam
Aquele que não passa: espiritualidade significa regresso ao essencial, àquele
bem que ninguém nos pode tirar, ao único bem verdadeiramente necessário. Até
nos momentos de aridez, quando as situações pastorais se tornam difíceis e
quando temos a impressão de estarmos sozinhos, ela é um manto de consolação
maior do que qualquer dissabor; é a medida da liberdade de julgamento do
chamado «senso comum»; é fonte de júbilo, que nos leva a receber tudo das mãos
de Deus, a ponto de contemplarmos a sua presença em tudo e em todos.
Portanto, não nos cansemos de procurar o
Senhor - de nos deixarmos buscar por Ele - de cuidar da nossa relação com Ele
no silêncio e na escuta orante. Mantenhamos fixo o nosso olhar sobre Ele,
centro do tempo e da história; reservemos espaço à sua presença em nós; é Ele
o princípio e o fundamento que cobre de misericórdia as nossas debilidades e
tudo transfigura e renova; Ele é aquilo que de mais precioso somos chamados a
oferecer à nossa gente, caso contrário acabaremos por deixá-lo à mercê de uma
sociedade da indiferença, se não mesmo do desespero. Dele - ainda que o
ignorasse - vive cada homem. Por Ele, Homem das Bem-Aventuranças - página
evangélica que volta quotidianamente à minha meditação - passa a medida alta
da santidade: se tivermos a intenção de O seguir, não nos é dado outro caminho.
Percorrendo-o com Ele, descobrimo-nos como povo, acabando por reconhecer com
enlevo e gratidão que tudo é graça, inclusive as dificuldades e as contradições
da vivência humana, se forem experimentadas com o coração aberto ao Senhor, com
a paciência do artesão e com o coração do pecador arrependido.
Não nos apoderemos da vinha
Janto o profeta Isaías (5,1-7) como o
Evangelho de Mateus (21,3343) utilizam a imagem da vinha do Senhor. A vinha do
Senhor é o seu «sonho», o projeto que Ele cultiva com todo o seu amor, como um
agricultor cuida do seu vinhedo. A videira é uma planta que requer muitos
cuidados!
O «sonho» de Deus é o seu povo: plantou-o e
cultiva-o com amor paciente e fiel, para se tornar um povo santo, um povo que
produza muitos e bons frutos de justiça.
Mas, tanto na antiga profecia como na
parábola de Jesus, o sonho de Deus é frustrado. Isaías diz que a vinha, tão
amada e cuidada, «produziu agraços» (5,2.4), enquanto Deus «esperava a justiça,
e eis que só viu derramamento de sangue; esperava a retidão, e eis que só
ouviu gritos dos oprimidos» (5,7). Por sua vez, no Evangelho, são os
agricultores que arruínam o projeto do Senhor: não trabalham para o Senhor,
pensam apenas nos seus interesses.
Através da sua parábola, Jesus dirige-se aos
sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, isto é, aos «sábios», à classe
dirigente. Foi a eles, de modo particular, que Deus confiou o seu «sonho», isto
é, o seu povo, para que o cultivem, cuidem dele e o guardem dos animais
selvagens. Esta é a tarefa dos líderes do povo: cultivar a vinha com liberdade,
criatividade e diligência.
Mas Jesus diz que aqueles agricultores se
apoderaram da vinha; pela sua ganância e soberba, querem fazer dela aquilo que
lhes apetece e, assim, tiram a Deus a possibilidade de realizar o seu sonho a
respeito do povo que Ele escolheu.
A tentação da ganância está sempre presente.
Encontramo-la também na grande profecia de Ezequiel sobre os pastores (cf.
cap. 34), comentada por Santo Agostinho num famoso Discurso que lemos na
liturgia das Horas. Ganância de dinheiro e de poder. E, para saciar esta
ganância, os maus pastores colocam sobre os ombros do povo pesos
insuportáveis, que eles próprios nem com um dedo ajudam a deslocar (cf. Mt
23,4).
Também nós, no Sínodo dos Bispos, somos
chamados a trabalhar para a vinha do Senhor. As assembleias sinodais não servem
para discutir ideias bonitas e originais, nem para ver quem é mais
inteligente... Servem para cultivar e guardar melhor a vinha do Senhor, para
cooperar no seu sonho, no seu projeto de amor a respeito do seu povo. Neste
caso, o Senhor pede-nos para cuidarmos da família que, desde os primórdios, é
parte integrante do desígnio de amor que ele tem para a humanidade.
Somos todos pecadores e também a nós pode
chegar a tentação de «nos apoderarmos» da vinha, pela ganância que nunca falta
em nós, seres humanos. O sonho de Deus esbarra sempre na hipocrisia de alguns
dos seus servidores. Podemos «frustrar» o sonho de Deus se não nos deixarmos
guiar pelo Espírito Santo. O Espírito dá-nos a sabedoria, que vai além da
ciência, para trabalharmos generosamente com verdadeira liberdade e humilde
criatividade.
Para cultivarmos e guardarmos bem a vinha, é
preciso que os nossos corações e as nossas mentes sejam guardados em Jesus
Cristo na «paz de Deus que supera toda a inteligência» (Ftp 4,7). Assim, os
nossos pensamentos e os nossos projetos estarão de acordo com o sonho de Deus:
formar para Si um povo santo que Lhe pertença e produza os frutos do Reino de
Deus (cf. Mt 21,43).
Papa Francisco, O Evangelho da vida nova,
Edição portuguesa, Editora Nascente, Braga, 2015, pp. 14-45