Jesus Cristo veio instaurar o Reino de Deus para a salvação de todos os homens. Por meio de Cristo, o Pai instaurou o Seu Reino sobra a terra, segundo o eterno desígnio de Deus. O Reino de Deus manifestou-se na pessoa de Cristo e consiste em participar na vida, morte e ressurreição de Cristo. Isto acontece na Igreja através do anúncio da Palavra de Deus e da celebração dos sacramentos.
Palavra e sacramentos
Na Igreja existem duas formas para atualizar a presença de Cristo: a Palavra e os Sacramentos. Através da Palavra e dos Sacramentos, as ações salvíficas que Cristo realizou durante a sua vida terrena, continuam a realizar-se hoje na Sua Igreja.
«Sentado à direita do Pai» e derramando o Espírito Santo sobre o seu corpo que é a Igreja, Cristo age agora pelos sacramentos, que instituiu para comunicar a sua graça. Os sacramentos são sinais sensíveis (palavras e ações), acessíveis à nossa humanidade atual. Realizam eficazmente a graça que significam, em virtude da ação de Cristo e pelo poder do Espírito Santo. (Catecismo, 1084)
Para realizar a grande obra da salvação, «Cristo está sempre presente na sua igreja, sobretudo nas ações litúrgicas, isto é, nos sacramentos. O ministro atua «in persona Cristi», tanto que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza». (Cf. Catecismo, 1088)
Através dos Sacramentos, a Igreja celebra, isto é, atualiza, torna presente a salvação. O mistério pascal não se repete, aconteceu de uma vez para sempre, mas em cada sacramento, pela ação do Espírito Santo, se atualiza (Catecismo, 1104).
O sacramento é constituído por dois elementos: palavra e matéria (coisas e gestos) intimamente conexos e reciprocamente ordenados um ao outro. Quando a palavra é pronunciada sobre os elementos materiais, realiza-se uma ação sagrada, isto é, um sacramento.
A palavra é pronunciada sobre os elementos materiais. Neste caso, a palavra é uma palavra eficaz porque é Deus que atua. Os elementos materiais conferem à palavra estabilidade e força. De facto, a matéria não é considerada na sua naturalidade, mas no significado que lhe é conferido pela Revelação.
Palavras e matéria constituem o sacramento: atingem os sentidos do homem, que vê e ouve. A vista e os ouvidos revelam que o homem acolhe sensivelmente a salvação. Recebe o amor de Deus que, gratuitamente, é dado no sacramento. Desta forma, os sacramentos estabelecem o encontro do homem com Deus. A palavra chama à obediência; e o elemento visível realiza à comunhão. Desta forma, o homem está, de certo modo, face-a-face com o Deus escondido, mas visto com os olhos da fé.[1]
A união de palavra e matéria é atestada na Sagrada Escritura. No Batismo, a água está unida à invocação de Deus Trindade (Jo 3,5; Mt 28, 19; Ef 5, 26); no Crisma, a oração está unida à imposição das mãos (Actos 8, 17); na Eucaristia, o pão e o vinho estão unidos às palavras de bênção (Mt 26, 26-28; 1Cor 11, 23-26); na Santa Unção, a unção é unida à oração (Jac 5,14). Nos Sacramentos, a palavra toma a forma de uma oração que será certamente atendida. É uma palavra eficaz que explica e consagra, isto é, explicando, consagra. Não existe uma palavra tão eficaz e produtiva do que a palavra unida ao elemento material. São Agostinho dizia: «se juntares a palavra ao elemento material, se cumpre o sacramento». (Schmaus, p. 41)
A distinção entre elemento material e palavra
A distinção de Santo Agostinho entre elemento material e palavra foi amplamente usada pelos teólogos mais antigos. Tal explicação resultava fácil para o Batismo, para Crisma, para Eucaristia e para Santa unção; isto podia criar alguma dificuldade para o sacramento da Ordem e, sobretudo para a Penitência e o Matrimónio, onde não era fácil encontrar o elemento material; mas esta dificuldade desaparece quando ao termo matéria se incluem também as ações.
A partir do século XIII entrou na linguagem teológica a expressão matéria e forma, dois termos que se encontram na filosofia aristotélica. Com isso, a Igreja não entendia aplicar aos sacramentos uma filosofia especifica, embora encontre nela uma explicação, que deve ser entendida no sentido analógico.
Como nas coisas naturais as coisas são compostas de matéria e forma: a matéria é determinada e a forma é determinante, assim o sinal externo dos sacramentos é composto de matéria e forma. A matéria em si, pode ter diversos significados: é a palavra que lhe dá um significado unívoco. Quando a palavra é pronunciada sobre a matéria, ou está a ser realizada uma ação, acontece o sacramento.
Cada sacramento é uma ação sacra e representa sempre a morte e ressurreição de Cristo. Com isso, o simbolismo assume o seu significado dramático. Este drama simbólico exprime o dom da graça que deriva da morte e ressurreição de Cristo.
O Concilio de Trento
O binómio matéria e forma entrou na linguagem teológica comum, mas não é uma doutrina definida da parte da Igreja. O Concilio de Trento utilizou a expressão de matéria e forma, mas não tinha a intenção de a declarar como doutrina certa. Era simplesmente uma expressão muito apta para explicar de forma analógica o mistério da unidade de coisas e palavras nos sacramentos, mas não entendia, de forma nenhuma, ligar a explicação teológica a uma filosofia determinada.
Na Igreja antiga, a palavra era sobretudo oração dirigida a Deus (fórmula deprecativa) e exprimia melhor a certeza de que Deus atende sempre a oração. Na idade média, entrou em uso a forma indicativa, isto é, uma declaração pronunciada pelo ministro, com a certeza de que Deus atuava pela ação do ministro: havia uma ligação entre a ação do ministro (instrumento) e a ação salvífica de Deus. Podemos dizer que a igreja antiga acentuava a ação divina; e a idade-média e a época moderna acentuam o instrumento humano.
A mediação da igreja
Igreja é sinal e instrumento de salvação e, pela palavra e pelos sacramentos, atualiza a obra redentora de Jesus Cristo até ao fim dos tempos. A própria Igreja é sacramento, sendo o prolongamento de Cristo na história. Pela Igreja, Cristo insere Nele aqueles que se deixam inserir, de modo que, entrem no âmbito da Sua morte e ressurreição.
A Igreja atua a salvação através dos sacramentos. Por isso, a vida cristã é essencialmente vida sacramental. O direito canónico afirma que os sacramentos são causa da união com Cristo; e que o Reino de Deus, instituído por Cristo, atua eficazmente naqueles que os recebem. Portanto, os sacramentos são na Igreja, o principal meio de santificação e salvação (Cânon 713, § 1).
É nos sacramentos que se fundamenta, se assegura e se realiza a Igreja; Cristo realiza o Seu Reino, continua a operar, realizando na Igreja, em palavras e gestos, o que realizava durante a Sua vida terrena. Os sacramentos são encontros com Cristo e Cristo que atua neles, realizando a salvação. Como os medicamentos são remédios naturais para o corpo, os sacramentos são remédios sobrenaturais para a alma, em vista da salvação eterna.
Pelos sacramentos, o Reino de Deus é realizado no coração dos homens. Neles, Cristo, ou melhor, o Pai celeste por Cristo, incorpora os homens a Si mesmo, isto é, no Seu Corpo Místico, que é a Igreja. Os sacramentos fazem parte do culto divino, são, portanto, adoração a Deus; não só a Eucaristia, mas todos os sacramentos, como veremos.
Sem comentários:
Enviar um comentário