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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ENTRAI PELA PORTA ESTREITA

O único objetivo de Satanás é arrastar os homens para o inferno. Deus criou os seres humanos a Sua própria imagem e semelhança para o Céu, para os tornar participantes da gloria celeste. Satanás e os outros espíritos bem conhecem a felicidade eterna do Céu porque a experimentaram antes sua da sua rebelião. Agora, desesperados, furiosos, cheios de ódio,  fazem de tudo para desviar os seres humanos da salvação eterna e leva-los para a perdição eterna. A Escritura ensina que «a morte entrou no mundo por inveja do diabo e fazem a experiência todos aqueles que lhes pertencem» (Sb 2, 23-24). É precisamente por inveja que os demónios se opõem a obra da salvação.

Hoje há muito batizados de pouca fé que não assumem a sua dignidade de filhos de Deus e, talvez, andam esquecidos da felicidade eterna do Céu. Muitos outros vivem na terra como se Deus não existisse e, mesmo em idade avançada, cultivam a secreta ilusão de que viverão para sempre nesta terra. Enfim, não é difícil encontrar pessoas que não acreditam na vida eterna. Satanás não! Ele bem conhece a eternidade, conhece também a bem-aventurança eterna do Paraíso, porque ele mesmo a viveu, mas, pela sua rebelião, a perdeu para sempre. Ele sabe que os seres humanos, mesmo os não batizados, são potenciais candidatos à visão beatífica de Deus no Paraíso. Por isso, faz de tudo para os cegar, para o manter na ignorância e bem apegados aos bens terrenos, como se a vida eterna não existisse. Com as suas artimanhas persuade os homens de que o inferno não existe; cega-os para que não vejam a possibilidade real da condenação eterna que se esconde atrás das suas escolhas irresponsáveis que se opõem ao amor de Deus e do próximo.

Os cristãos, muito pelo contrário, iluminados pela Palavra de Deus., mantêm uma consciência viva e esclarecida, acreditam na vida eterna e também na existência do inferno. Por isso, vivem unidos a Cristo e, sendo membros ativos da Igreja, «contrariam» a obra destruidora do Maligno.

Os dois caminhos. O Livro do Deuteronómio fala dos dois caminhos: «Vede: proponho-vos hoje a bênção ou a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, e vos afastardes do caminho que hoje vos indico, para seguirdes deuses estrangeiros que não conheceis.» (Dt 11,26-32)

O homem "maldito", na linguagem bíblica, é aquele que, desprovido de graça de Deus,  vive na ignorância, como se Deus não existisse, imergido numa vida de pecado. Em última análise, é maldito porque recusa a verdade, vive nas trevas, sob a escravidão de Satanás (Cf. Jo 8, 45).

O próprio Jesus, falou dos dois caminhos: «Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Como é estreita a porta e quão apertado é o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram!» (Mt 7, 13-14; Lc 13,23-24) E exortava: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita» (Lc 13,23)

 «Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos dele. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Por isso, não acreditais em mim, porque vos digo a verdade. Quem de vós pode acusar-me de pecado? Se digo a verdade, porque não me acreditais? Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; vós não as escutais, porque não sois de Deus.» (Jo 8,44-47)

Santa Faustina, no seu Diário, escreve: «Um dia vi duas estradas: uma, larga, atapetada de areia e flores, cheia de festa, de alegria, música e toda a espécie de prazeres. As pessoas andavam nela a dançar e a divertindo-se. Assim, chegaram ao fim, sem se aperceberem disso. No final desse caminho havia um tremendo precipício - o abismo do inferno. Essas almas caíram às cegas naquele na voragem desse abismo; na medida que lá chegavam, tombavam lá para dentro. O seu número era tão vasto que era impossível contá-las.

E avistei uma outra estrada, ou antes, uma vereda estreita, cheia de espinhos e pedregosa, por onde as pessoas seguiam de lágrimas nos olhos e sofrendo toda a variedade de dores. Uma tropeçavam e caíam sobre essas pedras, mas logo se levantavam e lá continuavam a caminhar. No fim desse caminho, havia um magnifico jardim repleto cheio de todo o tipo de felicidade e era para aí que entravam todas essas almas. E era logo, mesmo a partir desse imediato momento, que já se esqueciam de todos os seus sofrimentos» (Diário 153)

«Na sexta feira após a Sagrada Comunhão, fui transportada em espírito diante do Trono de Deus. Aí contemplei as Potestades celestiais que permanentemente adoram a Deus. Ao fundo do Trono vi uma clara luz inacessível às criaturas, onde só estava o Verbo Encarnado, como Mediador». (Diário 85A)

    

                    (padreleo.org)

O que é um demónio

Os demónios são puros espíritos, anjos decaídos. Mantêm as qualidades próprias da natureza angélica.[1]  São criaturas pessoais, inteligentes e dotados de livre arbítrio. Os anjos foram criados por Deus bons, mas sendo dotados de livre arbítrio, foram submetidos a uma prova, antes de serem admitidos à visão beatífica, isto é, à visão da essência divina; uns obedeceram, outros, não. Os que não obedeceram a Deus e perseveram na sua rebelião, por uma livre escolha, se afastaram de Deus, tornando-se demónios; Deus criou-os bons, mas por livre escolha que se transformaram naquilo que são.

Um processo de transformação.

O afastamento de Deus não aconteceu de repente, foi um processo gradual, durante o qual, se foram transformando interiormente, na sua maneira de pensar, de entender, até se tornarem demónios. Tal processo aconteceu fora do tempo material, isto é, na eternidade; foi um processo longo, demorado e gradual, pois, durou muito tempo e passou por diversas fases que podemos resumir da seguinte forma:

- No início, sendo seres livres, que podiam optar, começou a surgiu na sua mente a dúvida e a desobediência à Lei Divina apareceu-lhes como uma opção possível. A aceitação dessa ideia, era já um pecado, por assim dizer, um pecado venial, mas, pouco a pouco, foi evoluindo, tornando-se um pecado grave. Nesta primeira fase, nenhum deles estava disposto a afastar-se de Deus.

- A escolha aconteceu numa segunda fase, quando estes anjos optaram voluntariamente para a desobediência. A sua inteligência aconselhava-os, recordando-lhes que tal escolha era destrutiva e contraria à razão. No entanto, à medida em que, voluntariamente, se iam afastando de Deus, a inteligência era cada vez mais obrigada a justificar com argumentos racionais o mal que tinham escolhido.

- Numa terceira fase aconteceu a consolidação no erro. À medida que se foi afirmando a vontade de desobedecer, tornando-se uma escolha cada vez mais profunda, as suas inteligências eram, cada vez mais constrangidas a procurar as razões que a justificassem, de forma que a rebelião lhe aparecia racionalmente justificável.

- A separação aconteceu num determinado momento, por meio de um ato livre da vontade. É este o pecado mortal. Cada anjo, não quis simplesmente desobedecer a Deus, mas, ainda mais, optou, por uma existência autónoma, longe de Deus e à margem da Lei Divina.

- Os anjos que perseveraram nessa escolha, entraram num novo processo de justificação, através do qual, passaram a autoconvencer-se de que Deus não era Deus, que Ele era apenas um espírito entre outros espíritos. Até, que Ele poderia sim ser o Criador, mas, n’Ele havia também erros e falhas. A separação d’Ele parecia-lhes uma escolha para uma existência mais livre. As leis de Deus e a obediência à Sua vontade, aparecia-lhes, cada vez mais, como uma opressão; o próprio Deus era por eles visto como um tirano, como um obstáculo para terem a liberdade que ansiavam.  Neste momento não procuravam um destino fora de Deus, mas em sua mentes, imaginavam a beleza e a felicidade que o mundo angélico iria alcançar, sem terem um opressor.[2]

- Perseverando nessa escolha, Deus tornou-se para eles um mal, uns opressores e começaram a odiá-l’O. Este ódio cresceu mais nalguns espíritos e menos em outros, mas estava a tornar-se uma escolha, cada vez mais, irreversível.[3]  

Deus chamava-os, pois bem sabia que, quanto mais tempo passava, tanto mais as suas vontades se afastavam d’Ele e confirmavam ainda mais o seu afastamento. Os apelos de Deus, não forma inúteis, pois muitos anjos se arrependeram e voltaram para Ele.

Essa é a grande luta nos Céus de que fala Apocalipse 12

“Houve então uma batalha nos Céus: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado; e eles perderam seu lugar nos Céus. Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga Serpente, que é chamado Demónio ou Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele foi expulso para a Terra, e os seus anjos foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9). 

Como é que os anjos puderam lutar entre si?

Os anjos não têm corpo, não podem usar armas; são puros espíritos, por isso, o único combate possível é de ordem intelectual. As únicas armas eram os argumentos intelectuais. Deus não ficava inativo, enviava-lhes a Sua graça para que não caíssem e para que voltassem à fidelidade.

Essa luta intelectual podia ter acontecido da seguinte forma: os anjos rebeldes davam argumentos aos outros anjos para que se revoltassem contra Deus. Os anjos bons e fiéis, tentavam convencer aos outros anjos a permanecerem fiéis em Deus e, aos anjos rebeldes para que voltassem à fidelidade a Deus. Nessas conversações entre milhares e milhares de anjos, houve baixas de ambos os lados: houve anjos rebeldes que voltaram à obediência para com Deus; e também anjos fiéis que, deixando-se seduzir pelos argumentos malignos, se afastaram de Deus.

O fim da luta. Chegou um tempo – a eternidade é um tipo de tempo – em que os anjos rebeldes se fixaram na sua escolha: uns odiavam mais a Deus, outros menos; uns se tinham tornados mais soberbos, outros menos. Cada anjo rebelde ia-se deformando cada vez mais, em pecados específicos. Enquanto, os anjos fiéis se iam santificando cada vez mais, crescendo no amor a Deus, embora de formas e graus diferentes.

Chegou um certo momento em que já não podia haver mudanças substanciais, pois cada anjo permanecia fixado na sua própria postura. Mesmo que houvesse alguma mudança, era sempre uma mudança acidental que não tocava a opção fundamental. Os anjos bons se mantinham firmes na sua fidelidade e obediência a Deus; e os demónios se mantinham firmes na sua rebelião, na sua imprudência, nos seus ciúmes, no seu ódio, na sua inveja, soberba e egoísmo.[4] 

As posições estavam fixadas, não podia havia mudanças substanciais. Mesmo que continuassem a discutir, disputar e exortar-se por milhões de anos - para falarmos em termos humanos – não haveria nenhuma mudança substancial. Foi então que os anjos bons foram admitidos à presença de Deus na «visão beatífica»; enquanto os demónios foram simplesmente abandonados ao seu destino, na sua prostração moral, na sua revolta contra Deus, por eles livremente escolhida.[5]

Os anjos bons entraram na «visão beatifica», contemplam eternamente a essência de Deus e nunca irão mudar a sua opção de servir a Deus. Estes, mesmo antes de entrarem nos Céus, já compreendiam a Deus, a Sua santidade, a Sua omnipotência, sabedoria e amor... agora, não só a compreendem, mas contemplam o próprio Deus, vêm com os seus próprios olhos a Sua glória; experimentam a plenitude da vida divina, estão tão cheios de Deus, que jamais, por nenhuma razão, querem separar-se d’Ele. No Céu, o pecado é impossível. 

Os demónios forma criados bons, mas, se foram transformando naquilo que são através de um processo, lento, gradual e evolutivo. Durante esse processo ainda podiam arrepender-se, mas não o fizeram. Chegou, portanto, um momento em que estavam de tal modo afastados de Deus que lhes era impossível voltar atrás. O Criador, respeitando a escolha que livremente fizeram, deixou que cada um deles seguisse o destino, por eles mesmos escolhido.  

Os demónios, mesmo decaídos, conservas as suas qualidades angélicas, mas agora a sua inteligência e sua vontade estão irremediavelmente deformadas. Cada um deles permanece fechado na sua solidão interior, nos seus ciúmes em ver que os anjos fiéis gozam da visão de Deus. Reprovam o seu próprio pecado, mas não se arrependem. Cada demónio odeia-se a si mesmo, odeia a Deus, odeia todos aqueles que lhe deram as razões para se afastar de Deus. 

Os demónios não sofrem todos da mesma forma e com a mesma intensidade. Cada um deles, segundo a medida da sua rebelião; sofre de forma diferente, conforme ao grau de deformação causada pela sua própria rebelião. Durante a batalha, uns se deformaram mais, outros menos. Os que mais sofrem são os que mais se deformaram.

Esta deformação dos anjos atinge a sua inteligência e sua da vontade. A sua inteligência ficou obscurecida pelos raciocínios errados que alimentaram a sua rebelião e o seu afastamento de Deus. A vontade ficou deformada porque obrigou a inteligência a justificar uma decisão errada e destrutiva. A inteligência ficou obscurecida porque foi obrigada, pela vontade, a recorrer a mecanismos de justificação, oferecendo argumentos ao que a vontade a estimulava a aceitar.

Como podemos observar, este processo é muito semelhante com o processo de aviltamento dos seres humanos. Não esqueçamos que nós, seres humanos, somos um espírito num corpo. Se omitirmos os pecados relativos ao corpo, sofremos o mesmo processo interior dos anjos, quer no bem, quer no mal.

O conceito de pecado, de tentação e de evolução na iniquidade é sempre o mesmo, tanto no espírito angélico como no espírito humano. Os pecados humanos, mesmo sendo cometidos com o corpo, são sempre de ordem espiritual, pois o corpo é somente um instrumento do que o espírito decide com seu livre-arbítrio. 

Um menino atravessa o período da infância e não tem experiência, a mesma coisa é um anjo recém-criado, não tem experiência. O ser humano passa através das tentações, os anjos também. O homem pode pecar mesmo tendo ideais nobres, tal como a pátria, a honra da família, o bem-estar de um filho; os anjos também pecam, embora, por razões diferentes das humanas. Contudo, existe uma complexa correlação entre os anjos e os seres humanos.

Como seres humanos, somos também espíritos, apesar de possuirmos um corpo. Basta olhar para o nosso interior, e podemos compreender como é possível cair no pecado e degradar-se, ou santificar-se, tal como aconteceu aos anjos. Sendo assim, os pecados dos anjos não nos são estranhos, mas começam a parecer-nos mais próximos e mais compreensíveis. 

·        Catecismo da Igreja Católica, 391-395

·        José António Fortea, Summa Daemoniaca, Tratado e Manual de Exorcistas, Paulus, 2010, Questão 1 O que é um demónio.

·        Francesco Bamonte, Os anjos rebeldes, Paulinas



[1] Não têm corpo, por isso, não sentes a menor inclinação para nenhum dos pecados relacionados ao corpo, como por exemplo, a gula ou a luxuria. Eles podem tentar os homens a pecar nesses campos, mas não conhecem estes pecados, só os compreendem de forma meramente intelectual. Os pecados dos demónios, portanto, são exclusivamente de ordem espiritual.

[2] O seu raciocínio podia ter sido o seguinte: porque é que um Espírito havia de levantar-se sopre os outros espíritos? Porquê a Sua vontade se deveria impor sobre os outros espíritos? Não somos crianças, não somos escravos!  Assim, começaram a odiá-Lo. Os apelos que Deus lhes dirigia para que voltassem para Ele eram vistos como uma intromissão inaceitável. Contudo, muitos anjos, escutaram os apelos de Deus e se convertam.

[3] Pode surpreender o facto de que um anjo chegue a odiar a Deus, mas devemos compreender que os anjos, nesta fase, não viam a deus como um Pai, como o bem supremo, mas como um obstáculo, um opressor; Ele representava as cadeias dos mandamentos e a falta de liberdade. O ódio surgiu neles com força, resistindo aos apelos de Deus que, como um pai, os procurava. O ódio surgiu como reação lógica de uma vontade decidida a abandonar a casa paterna. Um filho que deseja sair de casa; no início quer apenas partir, mas se o pai o chamar mais do que uma vez, o filho acaba por rebelar-se e responder-lhe: «deixa-me em paz». 

 [4] Chegou o momento em que Deus tomou a decisão de não enviar mais as graças de arrependimento aos anjos rebeldes, pois Ele sabia que isto só serviria para os confirmarem naquilo que tinham escolhido. Por isso, Deus que é Amor permitiu que cada um deles seguisse o seu caminho.  

[5] Como podemos observar, Deus não enviou os demónios para um lugar de chamas e de tortura, mas simplesmente os deixou tal como estavam, abandonados, na sua liberdade e vontade. Nem sequer, os anjos fiéis entraram nalgum lugar, mas receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu dos anjos, como o Inferno dos demónios não são lugares, mas estados. Cada anjo tem em seu interior seu próprio Céu, esteja onde estiver. Cada demónio, esteja onde estiver, leva em seu espírito seu próprio Inferno. 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

TENTAÇÃO E PECADO

Propomos sob forma de perguntas alguns aspetos da natureza do demónio e da sua ação no mundo, utilizando o livro do Padre José António Fortes, Summa demoníaca, Paulus, 2010. Confronte sempre o texto original, este é um resumo.

O método de pergunte e resposta ajuda a memorizar e interiorizar algumas imagens ou pensamentos sobre este tema. As respostas constituem e retomam estudos anteriores de muitos exorcistas.

 

Questão 17 – Porque é que pecamos?

Questão 18 – Podemos saber quando uma tentação vem do demónio?

Questão 19 – Podemos ser tentados além das nossas forças?

Questão 20 – Porquê é que o diabo tentou Jesus

 

Questão 17 – Porque pecamos?

A tentação é a situação em que a vontade tem de escolher entre duas opções, sabendo que uma opção é boa e a outra má, mas se sente atraída para a má. Sabe que se trata de um ato mau, mas, por alguma razão, sente-se atraída para ela.

O erro de cair na tentação não é falta de inteligência, não é um problema de debilidade da razão. Se não se soubesse que essa opção era má, se pecaria por ignorância e, portanto, não se pecaria. Para pecar a pessoa deve saber o que está a escolher um ato mau. Não existe pecado sem má consciência.

É isso que torna tão interessante do ponto de vista intelectual: porque é que escolhemos o mal sabendo que é mal? É um verdadeiro mistério.

Uma resposta simples, que não é falsa, embora não explique o assunto, é dizer que pecamos por debilidade; o que é verdade, mas também é verdade que não somos tão débeis que não possamos resistir. Se não fôssemos capazes de resistir, já não haveria pecado. Não teríamos escolha.

O pecado existe porque podemos escolher. E sabemos por experiência que escolhemos o que queremos. Se queremos fazer algo, nada nem ninguém nos pode obrigar a querer outra coisa. Logo, por mais débeis que sejamos, sempre é possível resistir. Como se vê, não podemos nos desculpar nem pelo campo da inteligência nem pelo campo da vontade. Fazemos o mal porque queremos.

Poderíamos dizer que cometemos o mal para conseguirmos um bem. Mas devemos nos lembrar que a inteligência percebe que esse bem é uma maçã envenenada. Percebe que é um pseudo-bem, que acarreta mais mal que o bem que possui. Por isso, por mais desejável que nos pareça esse bem, a consciência diz-nos: «Não deves escolher essa opção». Assim dizer que fazemos o mal porque nos parece um bem é certo, mas também é igualmente certo que sabemos que esse bem oferecido é, no final das contas, um mal. De modo que a explicação de que fazemos o mal pelo bem que nos oferece, é uma explicação adequada, é algo que nos ajuda a compreender o pecado, mas não o explica completamente.

Talvez este mistério da maçã envenenada que comemos apesar de sabermos o que está lá não o possamos explicar completamente enquanto estivermos na Terra.

 

Questão 18 – Podemos saber quando uma tentação vem do demónio?

É praticamente impossível saber quando uma tentação tem origem do demónio. Não temos esta capacidade de discernimento. Ad tentações que vêm do demónio não se distinguem em nada das tentações que vêm do nosso interior, porque se serve de coisas inteligíveis, apropriadas à nossa perceção. O demónio tenta-nos através da nossa própria concupiscência, dos nossos desejos e das nossas ideias e imaginação. (questão 18 e 21). É, portanto, razoável pensar que grande parte das tentações procedem de nós mesmos, como diz São Tiago, das nossas próprias paixões: «cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte» (Tg 1, 14-15)

Não necessitamos que alguém nos tente para pecarmos. Basta a nossa inclinação para o mal, basta a nossa liberdade mal-usada. Basta fazer uma escolha, basta optar conscientemente, para reconhecer, sem paliativo, que quando pecamos não podemos culpar a ninguém, a não ser a nós próprios. É certo que o demónio pode tentar, como tentou a primeira mulher. Mas, mesmo sem demónio, Adão e Eva podia ter pecado igualmente. A tentação não necessita de algum demónio; ela basta a si mesma. Se não, quem é que tentou o demónio?

O demónio é um ser inteligente, é um anjo decaído, não é nenhuma força ou energia. Portanto, se ele nos tenta, é sempre através de um diálogo, um diálogo, onde nós lhe podemos sempre resistir. Ele poderá insistir, mas se não quisermos, ele não poderá obter a nossa adesão. Ele costuma atacar no ponto mais fraco, ou seja, onde tem maior possibilidade de ganhar, mas se vivemos em estado de graça, Deus sempre nos protege. Somos pecadores e, mesmo dispondo da capacidade de lhe resistir, como o Senhor nos ensinou, pedimos no Pai-nosso que nos livre do mal. Se alguém é tentado, pela oração, a tentação desaparece, pois ela é incompatível com a oração. Quanto mais, pela oração, ficamos centrados em Deus, tanto mais resistimos e vencemos as tentações.

 

19 – Podemos ser tentados além das nossas forças?

O ser humano é fraco. Sendo assim, Deus cuida de nós como de crianças. Por isso a Bíblia diz-nos: «Não tendes sido provados além do que é humanamente suportável. Deus é fiel, e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças. Pelo contrário, junto com a provação ele providenciará o bom êxito, para que possais suportá-la» (1Cor 10,13).

Que a tentação é permitida por Deus é algo que aparece muito clara no Livro de Jób. Porém, além disso, noutro lugar da Bíblia, precisamente antes da sua Paixão, Jesus diz a São Pedro: “Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo” (Lc 22,31).

«Satanás pediu a permissão», isto significa que a tentação deve ser permitida. Temos de afirmar essa doutrina, porque senão estaríamos nas mãos de um destino cego. Deus é tão sábio e poderoso que se serve também das tentações para fazer crescer o bem. Por outro lado, Deus não permite que os seres humanos, mesmo os mais fracos, sejam tentados com uma intensidade acima das suas forças, mais de quando podem suportar.

Portanto, a mensagem é tão clara como tranquilizadora: Deus, como Pai que é, vela para que nenhum dos Seus filhos se veja pressionado a suportar o que não pode suportar. De tudo isto se percebe a sabedoria que há por trás do velho ditado: «Deus aperta, mas não afoga».

 

Questão 20 – Porquê é que o diabo tentou Jesus

O diabo sabia que Jesus era Deus, sabia, portanto, que era impossível que Ele pecasse. Porque é que O tentou, então? Ainda mais, ele sabia que ao fazer isso, O santificaria mais como Homem.

Porquê é que, então o diabo quis fazer algo de inútil, até contraproducente, que só serviria para o bem e não para o mal que ele queria fazer? A resposta é simples: o diabo não conseguir resistir. A tentação foi grande demais, mesmo para o diabo. Tentar o próprio Deus! Não podia deixar-se escapar esta ocasião. Sabia que era impossível vence-Lo, porém não resistiu à tentação, era como o fumador que sabe que fumar lhe faz mal, mas não consegue deixar de fumar. Assim, o diabo sabia que tentar Jesus era um erro, mas não resistiu à tentação.  

A criatura tentando o próprio Deus! Era lógico que cairia no erro de O tentar. Para ele resistir era necessário que tivesse a virtude da fortaleza, mas, podemos pedir qualquer coisa ao demónio, menos a virtude.

Da mesma maneira, às vezes, os demónios fazem coisas que a longo prazo acabam paro os prejudicar, mas não resistem, não conseguem conter-se, mesmo sabendo que poderiam conseguir um mal maior depois. Por tudo isso, constata-se que até o demónio sofre a tentação. Tentação que procede do seu próprio interior, como acontece também aos seres humanos.

 

                (padreleos.org)

2 - PORQUÊ DEUS PÔS À PROVA OS ANOS

Propomos sob forma de perguntas alguns aspetos da natureza do demónio e da sua ação no mundo, utilizando o livro do Padre José António Fortes, Summa demoníaca, Paulus, 2010. Confronte o texto original.

O método de pergunte e resposta ajuda a memorizar e interiorizar algumas imagens ou pensamentos sobre este tema. As respostas constituem e retomam estudos anteriores de muitos exorcistas.

 Questão 2 - Por que Deus impôs uma prova aos espíritos angélicos? 1

            - para dar um grau de felicidade diferente a cada um.

            - para que cada um determinasse o grau de gloria

            - Porque Deus quer ser amado livremente e não por obrigação

Questão 3 - Por que Deus não lhes retirou a liberdade?                    3

         - tirar-lhe a liberdade seria como mudar a natureza.

            - O mal não obstaculiza os planos de Deus

            - permite as criaturas de crescer em santidade

Questão 4 - Todos os demónios são iguais?                                      4                 

 - Cada anjo é completamente distinto do outro

         - Existem 9 hierarquias angélicas.

 

Questão 2 - Por que Deus impôs uma prova aos espíritos angélicos?

Porque cada um deles exercesse o dom da liberdade, assim pudesse determinar o grau de felicidade na «visão beatifica». Deus é Amor e que ser amado livremente.   

Deus poderia ter criado os espíritos angélicos e ter-lhes concedido a graça da «visão beatífica». Isto era perfeitamente possível para a Sua omnipotência e se Deus o tivesse feito, não se teria cometido nenhuma injustiça. Porém, Deus tinha três poderosas razões para lhes conceder uma fase de prova antes da visão beatífica.

- Para dar um grau de felicidade diferente. A razão menos importante de todas era que Deus teria que dar a cada ser racional um grau de felicidade. Todos no Céu veem a Deus, mas ninguém pode gozar d’Ele num grau infinito, isso é impossível. Só Deus pode gozar infinitamente. Cada ser finito goza o máximo que poder, sem desejar mais, mas de modo finito, goza finitamente de um bem infinito. Para compreender melhor este conceito metafísico, podemos comparar cada ser racional a um vaso. Deus preenche este vaso até a borda, plenamente, embora, cada vaso tem uma determinada medida.

- Para que cada um determinasse a sua glória. Deus, na Sua infinita sabedoria estabeleceu que cada anjo determinasse o se grau de glória na visão beatifica». A mesma coisa é para os seres humanos. Deus deixou que tal decisão ficasse em nossas mãos, assim, cada recebe um grau de glória diferente, segundo as escolhas que fez durante a vida terrena. Deus põe à prova os homens como também os anjos, desta forma, cada um determina, segundo a generosidade, o amor, a constância e demais virtudes que manifestou nessa prova. Como se vê, é uma disposição magnífica, ditada pela sabedoria infinita de Deus.

- Porque Deus quer ser amado livremente. Desta forma, quer os anjos, quer os homens, durante a prova, têm a possibilidade de desenvolver a sua fé, a sua generosidade para com Deus, amá-Lo enquanto ainda não O vê. Depois, ao vê-l’O na «visão beatifica» cada um será grato de contemplar a Deus, mas, o amor generoso, a confiança em Deus mesmo na obscuridade, só é possível antes da visão. Depois, já não será possível.

Esta evolução do espírito que ama a Deus de alma e coração só é possível antes da «visão beatifica», depois é absolutamente impossível. Por isso a prova é um dom de Deus, uma grande oportunidade que Deus oferece às suas criaturas para que germine e se desenvolva a flor da fé e produza frutos abundantes. Essa flor é destinada a nascer pela eternidade, cada um segundo os seus frutos. Quando chegar na «visão beatifica» cada um goza em plenitude a presença de Deus. Assim foi para os anjos e assim será para as criaturas humanas. Durante o tempo da prova é possível desenvolver as virtudes teologais. Há quem desenvolve mais e quem desenvolve menos. Uns desenvolvem mais algumas virtudes, outros desenvolvem outras, por exemplo, a perseverança, a humildade, a caridade, a súplica, etc.

O risco da liberdade.

Devemos afirmar e deixar bem claro o seguinte: Deus criou os anjos e os homens dando-lhes o livre arbítrio. A liberdade determina a natureza angélica, tal como determina a natureza humana. Tirando-lhe a liberdade, os anjos já não seriam anjos, como os homens não seriam homens.

A liberdade tem as suas consequências, por isso, Deus, ao criar seres livres, arriscou que cada criatura, usando o livre arbítrio, se pudesse desviar do bem e escolher o mal. Com a liberdade, Deus concedeu aos anjos, como também aos homens, a capacidade que se determinassem escolhendo o bem ou o mal. O santo não se cria, faz-se escolhendo o bem, embora, com o auxílio da graça divina. O dom da liberdade supõe que possa aparecer uma madre Teresa de Calcutá ou um Hitler. A vontade de Deus é que todas as suas criaturas escolham o bem, mas deixa aberta a possibilidade de escolherem o mal, quando a liberdade é explorada da forma egoística. O bem espiritual, supõe o risco tremendo da liberdade, isto é, a possibilidade de fazer o mal que Deus não quer. O mal não contraria os planos divinos, mas afirma a existência de criaturas livres, autónomas e pensantes; por outro lado, o mal nem obstaculiza os planos de Deus, que na Sua Providencia infinita, é capaz de tirar o bem, mesmo através do mal. Deus escreve direito nas nossas linhas tortas.

 

A necessidade da prova. 

Resumindo, a prova é necessária por causa da liberdade por Deus concedida quer aos anjos, quer aos homens, para que cada um deles possa determinar com as suas escolhas, o seu próprio grau de glória na «visão beatifica». Esta prova só é possível em criaturas livres. Sem essa prova, Deus obteria, com certeza, a gratidão das suas criaturas, mas não seria por elas amado livremente. O único modo para Ele obter esse amor livres é, precisamente, pô-los à prova, para que na obscuridade da fé, o amor confiante, desinteressado e perseverante pudesse amadurecer e consolidar-se no meio das provações e chegasse à sua plenitude na «visão beatifica». Deus pode criar milhares criaturas e de cosmos, mas não pode criar o amor livre das suas criaturas, que é fruto de uma vontade livre, isto é, de um amor que nasce no coração, se desenvolve e persevera no meio das provações. O amor a Deus não se cria, é uma doação generosa da criatura.

 

Questão 3 - Por que Deus não retirou a liberdade?

Por que é que Deus não retira a liberdade quando vê que alguém avançar pelo caminho do mal? Não não retira a liberdade, porque, ao fazer tal coisa suporia que tal espírito seria para sempre inclinado para o mal. Ao permitir que continue a fazer o mal significa que lhe oferece-lhe também a possibilidade de arrepender-se e retornar a fazer o bem. Tirar-lhes a liberdade significaria modificar a natureza angélica, tal como a natureza humana.

 

Questão 4 - Todos os demónios são iguais?

Não, porque cada demónio tem caraterísticas próprias, tal como um homem é diferente de outro homem; além disso, cada demónio pecou de forma diferente e com uma determinada intensidade. Cada demónio pecou, cometeu vários pecados. A sua rebelião teve uma raiz comum, a soberba, mas a partir dessa raiz comum, surgiram outros pecados. Uns pecam mais pela ira, outros pelo egoísmo, outros pela cólera, etc. Cada demónio tem a sua própria psicologia e sua forma de ser: um é mais falador, outro mais esquivo, num brilha a soberba, noutro o ódio, etc. Apesar de todos se terem afastado de Deus, uns se afastaram mais do que outros.

Temos de recordar que, como nos diz São Paulo, que existem nove hierarquias dos anjos. As hierarquias superiores são mais poderosas, belas e inteligentes que as inferiores. Cada anjo tem uma identidade própria, completamente distinta de outro. Não existem raças de anjos, para usar um termo zoológico, uma vez que cada um deles esgota sua espécie. Todavia, é possível distinguir entre eles grandes grupos ou hierarquias. São também chamados coros, pois cada grupo forma uma espécie de coro que canta os louvores a Deus. Seu louvor, certamente, não procede da voz, mas é um louvor espiritual que parte da sua vontade, ao conhecer e querer amar a Santíssima Trindade. Os demónios, antes de se tornarem demónios, eram anjos, e pertenciam a uma das nove hierarquias angélicas e mantiveram a sua própria dignidade. Podemos dizer que há demónios que são virtudes, outros que são Potestades, outros Serafins … e mesmo sendo demónios, continuam a conservar intacta a sua dignidade angélica, o seu poder e inteligência.

Por tudo isto, é claro que existe uma hierarquia demoníaca. Os exorcistas comprovam que entre eles há os que têm um poder superior sobre os outros. Em que consiste esse poder? É impossível sabe-lo, pois não se conhece como um demónio possa obrigar outro a fazer algo, dado que não existe um corpo para empurrar ou forçar, mas, é comprovado que um demónio superior pode forçar um inferior a não sair de um corpo durante um exorcismo. Mesmo que o inferior sofra e queira sair, o superior pode impedi-lo. Como um demónio possa forçar outro, sendo esse intangível, é algo que, repito, escapa à nossa compreensão.

 

(padreleo.org)

3 - O QUE SÃO OS DEMÓNIOS?

Os demónios são puros espíritos, anjos decaídos, condenados eternamente, mas não perderam as qualidades da sua natureza angélica.[1]  Não nasceram maus, foram criados bons, mas, sendo criaturas pessoais, inteligentes e dotados de livre arbítrio, foram submetidos a uma prova, antes que lhes fosse oferecida a visão da essência divina; uns obedeceram, outros, não. Os que desobedeceram de forma definitiva, tornaram-se demónios; por si só se transformaram naquilo que são. Ninguém os fez assim. 

Um processo de transformação.

Durante a prova, a psicologia desses anjos passou por uma série de fases, até se tornarem demónios. São fases que aconteceram fora do tempo material, na eternidade, mesmo que para nós pareça breve, na realidade durou muito tempo, foi um processo longo e demorado. Podemos resumi-las da seguinte forma:

- No início surgiu na sua mente a dúvida de que a desobediência à Lei Divina podia ser uma opção possível. Esta aceitação, era já um pecado, um pecado venial, mas que, pouco a pouco, evoluindo, podia tornar-se um pecado grave. Contudo, nesta primeira fase, nenhum deles estava disposto a se afastar de Deus.

- Mais tarde, com a segunda fase, aconteceu a escolha. Os anjos confirmaram voluntariamente a desobediência, apesar dos conselhos da inteligência, que lhes recordava que tal escolha era contraria à razão. Contudo, na medida que voluntariamente se afastavam de Deus, a inteligência era obrigada a justificar com argumentos racionais o mal que tinham escolhido.

- A consolidação no erro. À medida que vontade de desobedecer se afirmava, tornando-se cada vez mais profunda, as suas inteligências eram, de qualquer forma, constrangidas a procurar, cada vez mais, as razões para que tal escolha se tornasse justificável.

- A separação deu-se com o pecado mortal. Este aconteceu num determinado momento, por meio de um ato da vontade. Cada anjo, não quis simplesmente desobedecer a Deus, mas, ainda mais, optou, por uma existência autónoma, longe de Deus e à margem da Lei Divina.

- Os que perseveraram nessa escolha, entraram num novo processo de justificação, através do qual, passaram a autoconvencer-se de que Deus não era Deus, que era apenas mais um espírito entre outros espíritos. Até, Ele poderia ser o Criador, porém, n’Ele havia erros e falhas. Separar-se d’Ele parecia-lhes uma existência mais livre.  As leis de Deus e a obediência à Sua vontade, eram vistas, cada vez mais, como uma opressão. Nesta fase de afastamento, não procuravam simplesmente um destino fora de Deus, mas, o próprio Deus era visto como um tirano, um obstáculo para alcançar a liberdade que ansiavam. Em sua mentes, imaginavam a beleza e a felicidade que o mundo angélico iria alcançar, sem um opressor.[2]

- Deus tornou-se para eles um mal, uns opressores, por isso, começaram a odiá-l’O. Este ódio cresceu mais nalguns espíritos e menos em outros, mas tornava a sua escolha, cada vez mais, irreversível.[3]  

Deus chamava-os, pois Ele bem sabia que, quanto mais tempo passava, tanto mais as suas vontades se afastavam d’Ele e confirmavam o seu afastamento. Os apelos de Deus, não forma inúteis, pois muitos dos anjos se arrependeram e voltaram para Ele.

É a grande luta que aconteceu nos Céus, de que fala o Livro da Apocalipse 12

“Houve então uma batalha nos Céus: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado; e eles perderam seu lugar nos Céus. Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga Serpente, que é chamado Demónio ou Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele foi expulso para a Terra, e os seus anjos foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9). 

Como é que os anjos puderam lutar entre si?

Os anjos não têm corpo, não podem usar armas; são puros espíritos, por isso, o único combate possível será de ordem intelectual. As únicas armas que podiam usar são de ordem intelectual. Deus, com certeza, enviava-lhes continuamente a Sua graça para que voltassem à fidelidade. A luta intelectual pode ter acontecido da seguinte forma: os anjos rebeldes lutavam, apresentando argumentos aos outros anjos para que também eles se revoltassem contra Deus. Os anjos fiéis, apresentavam argumentos para convencerem os outros anjos a permanecerem fiéis a Deus ou, que voltassem à fidelidade a Deus. Nessas conversações intelectuais entre milhares e milhares de anjos, houve baixas de todos os lados: muitos anjos rebeldes voltaram para Deus, isto é, à obediência a Deus; alguns anjos fiéis, provavelmente, se deixaram seduzir pelos argumentos malignos. 

O fim da luta. Chegou um tempo – pois, a eternidade é um tipo de tempo – em que uns anjos rebeldes se fixaram na sua escolha: uns odiavam mais a Deus, outros menos; uns se tinham tornados mais soberbos, outros menos. Cada um ia-se deformando, cada vez mais, em pecados específicos. Enquanto, os anjos fiéis, em vez, se iam santificando cada vez mais, cresciam no amor a Deus, embora de formas e graus diferentes.

Chegou um momento em que já não podia haver mudanças substanciais, cada anjo permanecia fixado na sua própria postura. Só podia acontecer alguma mudança acidental, mas que não tocava a opção fundamental. Os anjos bons se mantinham firmes na sua fidelidade a Deus; e os demónios se mantinham firmes na sua rebelião, na sua imprudência, nos seus ciúmes, no seu ódio, na sua inveja, soberba e egoísmo.[4] 

As posições já estavam fixadas, não podia havia mudanças substanciais. Mesmo que continuassem a discutir, disputar e exortar-se por milhões de anos - para falarmos em termos humanos – não haveria mudanças substanciais. Foi então que os anjos bons foram admitidos à presença de Deus na «visão beatífica»; enquanto os demónios foram abandonados ao seu destino, na sua prostração moral, na sua revolta contra Deus, por eles livremente escolhida.[5]

Os anjos que entraram na «visão beatifica» são verdadeiramente santos, contemplam essência de Deus, e nunca mudarão a sua opção de amar e servir a Deus. Estes, mesmo antes de entrarem nos Céus, já compreendiam a Deus, a Sua santidade, a Sua omnipotência, sabedoria e amor... agora, não só compreendem, mas contemplam o próprio Deus, vêm com os seus próprios olhos a Sua glória; experimentam a plenitude da Vida, estão tão cheios de Deus, que jamais, por nenhuma razão, querem separar-se d’Ele. No Céu, o pecado é impossível. 

Os demónios forma criados bons, mas, se transformaram naquilo que são, através de um processo, lento, gradual e evolutivo. Durante esse processo ainda podiam arrepender-se, mas não o fizeram.  Chegou, portanto, um momento em que estavam de tal modo afastados de Deus que era impossível voltar atrás. O Criador, respeitando a escolha que livremente fizeram, deixou que cada um deles seguisse o destino, por eles mesmos escolhido.  

O demónio, mesmo sendo um anjo decaído, conserva as qualidades angélicas, mas a sua inteligência e sua vontade ficaram irremediavelmente deformadas. Permanece fechado na sua solidão interior, nos seus ciúmes em ver que os anjos fiéis gozam da visão de Deus, reprovam o seu próprio pecado, mas não se arrependem. Odeia-se a si mesmo, odeia a Deus, odeia aos que lhe deram as razões para se afastar de Deus. 

Os demónios não sofrem todos da mesma forma e com a mesma intensidade, cada um deles, sofre de forma diferente, conforme ao grau de deformação que ele próprio atingiu com a sua rebelião. Durante a batalha, uns se deformaram mais, outros se deformaram menos. Os que mais sofrem são os que mais se deformaram.

Esta deformação atinge a sua inteligência e sua vontade. A inteligência, porque ficou obscurecida pelos raciocínios errados que alimentaram a sua rebelião e o seu afastamento de Deus. A vontade, porque obrigou a inteligência a justificar a sua decisão. A inteligência passou através de mecanismos de justificação, oferecendo argumentos ao que a vontade a estimulava a aceitar.

Como podemos observar, este processo é muito semelhante com o processo de degradação que acontece nos seres humanos. Não podemos esquecer que nós, seres humanos, somos um espírito num corpo. Se omitirmos os pecados relativos ao corpo, sofremos o mesmo processo interior dos anjos, quer no bem, quer no mal.

O conceito de pecado, de tentação e de evolução na iniquidade é parecido, tanto no espírito angélico como no espírito humano. Os pecados humanos, mesmo sendo cometidos com o corpo, são sempre de ordem espiritual, pois o corpo é tão somente um instrumento do que o espírito decide com seu livre-arbítrio. 

Um menino atravessa o período da infância, mas não tem tanta experiência, assim é também um anjo recém-criado, não tem experiência. O ser humano passa através das tentações, os anjos também. O homem pode pecar por terem ideais nobres, tal como a pátria, a honra da família, o bem-estar de um filho; os anjos também podem pecar, embora, as motivações sejam diferentes dos humanas. Contudo, existe uma complexa correlação entre os anjos e os seres humanos.

Como seres humanos, somos também espíritos, apesar de possuirmos um corpo. Basta olhar para o nosso interior, e podemos compreender como é possível cair no pecado e degradar-se, ou também, santificar-se, tal como aconteceu aos anjos. Sendo assim, os pecados dos anjos não nos são incompreensíveis, mas começam a nos parecer parecidos e mais próximos. 

·        Bibliografia: 

        - Catecismo da Igreja Católica, 391-395

·      - José António Fortea, Summa Daemoniaca, Tratado e Manual de Exorcistas, Paulus, 2010, Questão 1 O que é um demónio.

·        - Francesco Bamonte, Os anjos rebeldes, Paulinas


[1] Os anjos não têm corpo, por isso, não sentes a menor inclinação para nenhum dos pecados relacionados ao corpo, como por exemplo, a gula ou a luxuria. Eles podem tentar os homens a pecar nesses campos, mas não os conhecem, só os compreendem de forma meramente intelectual. De facto, os pecados dos demónios são exclusivamente de ordem intelectual ou espiritual.

[2] O seu raciocínio podia ter sido o seguinte: porque é que um Espírito havia de levantar-se sopre os outros espíritos? Porquê é que a Sua vontade se deveria impor sobre os outros espíritos? Não somos crianças, não somos escravos! Assim, começaram a odiá-Lo. Os apelos que Deus lhes dirigia para que voltassem para Ele eram por eles percebidos como uma intromissão inaceitável. Contudo, acreditamos que muitos anjos, escutaram os apelos de Deus e se converteram.

[3] Pode surpreender o facto de que um anjo chegue a odiar a Deus, mas devemos compreender que os anjos, nesta fase, não viam a Deus como sendo um Pai, como o bem supremo, mas como um obstáculo, um opressor; Deus representava as cadeias dos mandamentos que deviam observar e que limitava a sua liberdade. O ódio surgiu neles com tanta força que resistiram aos todos os apelos de Deus que, como um pai, os procurava. O ódio surgiu, podemos dizer, como reação lógica de uma vontade decidida a abandonar a casa paterna. Quando um filho deseja sair de casa; no início quer apenas partir, mas se o pai o chamar mais do que uma vez, o filho acaba por rebelar-se e responder-lhe: «deixa-me em paz». 

[4] Chegou o momento em que Deus tomou a decisão de não enviar mais as graças de arrependimento aos anjos rebeldes, pois Ele sabia que isto só serviria para os confirmarem naquilo que tinham escolhido. Por isso, Deus que é Amor permitiu que cada um deles seguisse o seu caminho.  

[5] Como podemos observar, Deus não enviou os demónios para um lugar de chamas e de tortura, mas simplesmente os deixou tal como estavam, abandonados, na sua liberdade e vontade. Nem sequer, os anjos fiéis entraram nalgum lugar, mas receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu dos anjos, como o Inferno dos demónios não são lugares, mas estados. Cada anjo tem em seu interior seu próprio Céu, esteja onde estiver. Cada demónio, esteja onde estiver, leva em seu espírito o seu próprio Inferno.