Os demónios são puros espíritos, anjos decaídos,
condenados eternamente, mas não perderam as qualidades da sua natureza angélica. Não nasceram maus, foram
criados bons, mas, sendo criaturas pessoais, inteligentes e dotados de livre
arbítrio, foram submetidos a uma prova, antes que lhes fosse oferecida a visão
da essência divina; uns obedeceram, outros, não. Os que desobedeceram de forma
definitiva, tornaram-se demónios; por si só se transformaram naquilo que são. Ninguém
os fez assim.
Um processo de transformação.
Durante a prova, a psicologia desses anjos passou por
uma série de fases, até se tornarem demónios. São fases que aconteceram fora do
tempo material, na eternidade, mesmo que para nós pareça breve, na realidade
durou muito tempo, foi um processo longo e demorado. Podemos resumi-las da
seguinte forma:
- No início surgiu na sua mente a dúvida de que a desobediência
à Lei Divina podia ser uma opção possível. Esta aceitação, era já um pecado, um
pecado venial, mas que, pouco a pouco, evoluindo, podia tornar-se um pecado grave.
Contudo, nesta primeira fase, nenhum deles estava disposto a se afastar de Deus.
- Mais tarde, com a segunda fase, aconteceu a escolha.
Os anjos confirmaram voluntariamente a desobediência, apesar dos conselhos da inteligência,
que lhes recordava que tal escolha era contraria à razão. Contudo, na medida
que voluntariamente se afastavam de Deus, a inteligência era obrigada a justificar
com argumentos racionais o mal que tinham escolhido.
- A consolidação no erro. À medida que vontade de
desobedecer se afirmava, tornando-se cada vez mais profunda, as suas inteligências
eram, de qualquer forma, constrangidas a procurar, cada vez mais, as razões
para que tal escolha se tornasse justificável.
- A separação deu-se com o pecado mortal. Este
aconteceu num determinado momento, por meio de um ato da vontade. Cada anjo, não
quis simplesmente desobedecer a Deus, mas, ainda mais, optou, por uma existência
autónoma, longe de Deus e à margem da Lei Divina.
- Os que perseveraram nessa escolha, entraram num novo
processo de justificação, através do qual, passaram a autoconvencer-se de que
Deus não era Deus, que era apenas mais um espírito entre outros espíritos. Até,
Ele poderia ser o Criador, porém, n’Ele havia erros e falhas. Separar-se d’Ele
parecia-lhes uma existência mais livre. As
leis de Deus e a obediência à Sua vontade, eram vistas, cada vez mais, como uma
opressão. Nesta fase de afastamento, não procuravam simplesmente um destino fora
de Deus, mas, o próprio Deus era visto como um tirano, um obstáculo para alcançar
a liberdade que ansiavam. Em sua mentes, imaginavam a beleza e a felicidade que
o mundo angélico iria alcançar, sem um opressor.
- Deus tornou-se para eles um mal, uns opressores, por
isso, começaram a odiá-l’O. Este ódio cresceu mais nalguns espíritos e menos
em outros, mas tornava a sua escolha, cada vez mais, irreversível.
Deus chamava-os, pois Ele bem sabia que, quanto mais
tempo passava, tanto mais as suas vontades se afastavam d’Ele e confirmavam o
seu afastamento. Os apelos de Deus, não forma inúteis, pois muitos dos
anjos se arrependeram e voltaram para Ele.
É a grande luta que aconteceu nos Céus, de que fala o Livro da Apocalipse
12:
“Houve então uma batalha nos Céus: Miguel e seus anjos
guerrearam contra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas
foi derrotado; e eles perderam seu lugar nos Céus. Assim foi expulso o grande Dragão,
a antiga Serpente, que é chamado Demónio ou Satanás, o sedutor do mundo
inteiro. Ele foi expulso para a Terra, e os seus anjos foram expulsos com ele” (Ap
12,7-9).
Como é que os anjos puderam lutar entre si?
Os anjos não têm corpo, não podem usar armas; são
puros espíritos, por isso, o único combate possível será de ordem intelectual. As
únicas armas que podiam usar são de ordem intelectual. Deus, com certeza,
enviava-lhes continuamente a Sua graça para que voltassem à fidelidade. A luta intelectual pode ter acontecido da seguinte forma: os anjos rebeldes lutavam, apresentando argumentos aos outros anjos
para que também eles se revoltassem contra Deus. Os anjos fiéis, apresentavam argumentos para convencerem os
outros anjos a permanecerem fiéis a Deus ou, que voltassem à
fidelidade a Deus. Nessas conversações intelectuais entre milhares e milhares de anjos,
houve baixas de todos os lados: muitos anjos rebeldes voltaram para Deus, isto é, à obediência a Deus; alguns anjos fiéis, provavelmente, se deixaram seduzir pelos argumentos malignos.
O fim da luta. Chegou um tempo
– pois, a eternidade é um tipo de tempo – em que uns anjos rebeldes se fixaram na
sua escolha: uns odiavam mais a Deus, outros menos; uns se tinham tornados mais
soberbos, outros menos. Cada um ia-se deformando, cada vez mais, em pecados específicos.
Enquanto, os anjos fiéis, em vez, se iam santificando cada vez mais, cresciam
no amor a Deus, embora de formas e graus diferentes.
Chegou um momento em que já não podia haver mudanças
substanciais, cada anjo permanecia fixado na sua própria postura. Só podia
acontecer alguma mudança acidental, mas que não tocava a opção fundamental. Os anjos
bons se mantinham firmes na sua fidelidade a Deus; e os demónios se mantinham
firmes na sua rebelião, na sua imprudência, nos seus ciúmes, no seu ódio, na
sua inveja, soberba e egoísmo.
As posições já estavam fixadas, não podia havia mudanças
substanciais. Mesmo que continuassem a discutir, disputar e exortar-se por milhões
de anos - para falarmos em termos humanos – não haveria mudanças substanciais. Foi
então que os anjos bons foram admitidos à presença de Deus na «visão
beatífica»; enquanto os demónios foram abandonados ao seu destino, na
sua prostração moral, na sua revolta contra Deus, por eles livremente escolhida.
Os anjos que entraram na «visão beatifica» são verdadeiramente santos, contemplam essência de Deus, e nunca mudarão a sua opção de amar e servir a Deus.
Estes, mesmo antes de entrarem nos Céus, já compreendiam a Deus, a Sua
santidade, a Sua omnipotência, sabedoria e amor... agora, não só compreendem,
mas contemplam o próprio Deus, vêm com os seus próprios olhos a Sua glória; experimentam
a plenitude da Vida, estão tão cheios de Deus, que jamais, por nenhuma razão, querem
separar-se d’Ele. No Céu, o pecado é impossível.
Os demónios forma criados bons, mas, se transformaram naquilo que são, através de um processo, lento, gradual e evolutivo. Durante
esse processo ainda podiam arrepender-se, mas não o fizeram. Chegou, portanto, um momento em que estavam de
tal modo afastados de Deus que era impossível voltar atrás. O Criador, respeitando
a escolha que livremente fizeram, deixou que cada um deles seguisse o destino,
por eles mesmos escolhido.
O demónio, mesmo sendo um anjo decaído, conserva as qualidades
angélicas, mas a sua inteligência e sua vontade ficaram irremediavelmente deformadas.
Permanece fechado na sua solidão interior, nos seus ciúmes em ver que os anjos fiéis
gozam da visão de Deus, reprovam o seu próprio pecado, mas não se arrependem. Odeia-se
a si mesmo, odeia a Deus, odeia aos que lhe deram as razões para se afastar de
Deus.
Os demónios não sofrem todos da mesma forma e com a
mesma intensidade, cada um deles, sofre de forma diferente, conforme ao grau de
deformação que ele próprio atingiu com a sua rebelião. Durante a batalha, uns
se deformaram mais, outros se deformaram menos. Os que mais sofrem são os que mais se
deformaram.
Esta deformação atinge a sua inteligência e sua vontade. A inteligência, porque ficou obscurecida pelos raciocínios errados que
alimentaram a sua rebelião e o seu afastamento de Deus. A vontade, porque obrigou a inteligência a justificar a sua decisão. A inteligência passou através de mecanismos de justificação,
oferecendo argumentos ao que a vontade a estimulava a aceitar.
Como podemos observar, este processo é muito
semelhante com o processo de degradação que acontece nos seres humanos. Não podemos esquecer que nós,
seres humanos, somos um espírito num corpo. Se omitirmos os pecados relativos
ao corpo, sofremos o mesmo processo interior dos anjos, quer no bem, quer no
mal.
O conceito de pecado, de tentação e de evolução na iniquidade é parecido, tanto no espírito angélico como no espírito humano. Os pecados humanos,
mesmo sendo cometidos com o corpo, são sempre de ordem espiritual, pois o corpo é tão somente um instrumento do que o espírito decide com seu livre-arbítrio.
Um menino atravessa o período da infância, mas não tem tanta experiência,
assim é também um anjo recém-criado, não tem experiência. O ser humano passa através das
tentações, os anjos também. O homem pode pecar por terem ideais nobres, tal
como a pátria, a honra da família, o bem-estar de um filho; os anjos também podem pecar,
embora, as motivações sejam diferentes dos humanas. Contudo, existe uma complexa correlação entre
os anjos e os seres humanos.
Como seres humanos, somos também espíritos, apesar de
possuirmos um corpo. Basta olhar para o nosso interior, e podemos compreender
como é possível cair no pecado e degradar-se, ou também, santificar-se, tal como
aconteceu aos anjos. Sendo assim, os pecados dos anjos não nos são incompreensíveis, mas
começam a nos parecer parecidos e mais próximos.
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Bibliografia:
- Catecismo da Igreja Católica, 391-395
· - José António Fortea, Summa Daemoniaca, Tratado e Manual de
Exorcistas, Paulus, 2010, Questão 1 O que é um demónio.
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- Francesco Bamonte, Os anjos rebeldes, Paulinas
Pode surpreender o facto de que um anjo chegue a odiar
a Deus, mas devemos compreender que os anjos, nesta fase, não viam a Deus como sendo um Pai, como o bem supremo, mas como um obstáculo, um opressor; Deus representava
as cadeias dos mandamentos que deviam observar e que limitava a sua liberdade. O ódio surgiu neles com tanta força que resistiram aos todos os apelos de Deus que, como um pai, os procurava. O ódio surgiu, podemos dizer, como reação lógica de uma vontade decidida a abandonar a casa paterna. Quando um filho deseja sair de casa; no início quer apenas partir, mas se o pai o chamar
mais do que uma vez, o filho acaba por rebelar-se e responder-lhe: «deixa-me em
paz».
Como podemos observar, Deus não enviou os demónios
para um lugar de chamas e de tortura, mas simplesmente os deixou tal como
estavam, abandonados, na sua liberdade e vontade. Nem sequer, os anjos fiéis
entraram nalgum lugar, mas receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu
dos anjos, como o Inferno dos demónios não são lugares, mas estados. Cada anjo
tem em seu interior seu próprio Céu, esteja onde estiver. Cada demónio, esteja
onde estiver, leva em seu espírito o seu próprio Inferno.