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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

2 - O PURAGATÓRIO NA SAGRADA ESCRITURA

A palavra «purgatório» não se encontra na Sagrada Escritura, ma nela podemos encontrar alguns textos que aludem a uma purificação das almas depois da morte. O primeiro texto encontra-se no Segundo Livro dos Macabeus:

Jusas Macabeu mandou fazer uma colecta, recolhendo cerca de duas mil dracmas, que enviou a Jerusalém, para que se oferecesse um sacrifício pelo pecado dos que tinham morrido, cumprindo uma ação digna e santa, pensando na ressurreição; porque, se ele não esperasse que os que tinham morrido haviam de ressuscitar, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. E acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente. Era este um pensamento santo e piedoso. Por isso pediu um sacrifício expiatório, para que os mortos fossem livres das suas faltas (2Mac 12, 42-46).

Judas Macabeu realizou esta coleta para oferecer um sacrifício de expiação «para que os mortos fossem libertos das suas faltas». Esta passagem fala dos sufrágios dos vivos pelos mortos, inspirados «pela magnifica recompensa reservada àqueles que morrem piedosamente»«para que os mortos fossem livres das suas faltas». Nesse texto transparece a convicção de que depois da morte os fiéis passem por um processo de purificação e que nessa purificação, podem ser ajudados pelas orações dos vivos. Nesse processo de purificação depois da morte, os mortos podem beneficiar da oração dos vivos: é precisamente o que chamamos de Purgatório.

Infelizmente, os Livros dos Macabeus, que para a Igreja Católica são inspirados e fazem parte integrante da Bíblia, para as Igrejas protestantes são considerados apócrifos e não fazer parte da Bíblia, por isso, não conhecem a realidade do Purgatório. Nesses livros encontramos um testemunho seguro de que o povo de Israel acreditava na existência de uma purificação das almas depois da morte e que os vivos os podem ajudar com as suas orações. O Papa Bento XVI afirma:

«No antigo judaísmo, existia a ideia de que é possível ajudar, através da oração, os defuntos no seu estado intermédio. Esta prática foi adotada pelos cristãos com grande naturalidade pela Igreja oriental e ocidental. O Oriente não conhece um sofrimento purificador e expiatório das almas no «além», mas conhece diversos graus de bem-aventurança ou também de sofrimento na condição intermédia. As almas dos defuntos, porém, podem ser «aliviadas» mediante a Eucaristia, a oração e a esmola. O facto de que o amor possa chegar até ao além, que seja possível um mútuo dar e receber, permanecendo ligados uns aos outros por vínculos de afeto para além das fronteiras da morte, constituiu uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos e ainda hoje permanece uma experiência reconfortante».[1]

        Os primeiros cristãos continuaram a orar pelos defuntos, oferecendo sufrágios e, particularmente, o            Sacrifício eucarístico. Assim, a antiga tradição do povo de Israel, tem continuado sem interrupção na          Igreja Católica, a qual, além da oração, recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de            penitência e as obras de caridade a favor dos defuntos.  (cf. Catecismo 1032)

No Novo Testamento, encontramos dois textos importantes. O primeiro é do Apóstolo São Paulo, o qual fala de um “fogo” que testará o trabalho de cada um, logo depois da morte, em ocasião do juízo particular:  

o Dia do Senhor a tornará conhecida, pois ele manifesta-se pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída resistir, o construtor receberá a recompensa; mas, se a obra de alguém se queimar, perdê-la-á; ele, porém, será salvo, como se atravessasse o fogo. (1Cor 3, 11-15)

Nesta passagem, São Paulo, não está a falar de uma purificação depois da morte, mas está a alertar aos cristãos para construam sobre um fundamento seguro: Jesus Cristo. A maneira de operar de cada um será provada no dia do juízo; contudo, admite a possibilidade de uma expiação dos pecados depois da morte: «Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo».

A imagem do fogo purificador alude a uma purificação depois da morte. Este fogo não é o fogo do Inferno, mas um fogo purificador que conduz à salvação, um fogo que purifica as almas das imperfeições acumuladas durante a vida terrena, que, segundo a tradição católica, refere-se ao Purgatório.

O segundo texto encontra-se no Evangelho de São Mateus: 

Por isso vos digo: Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada. E, se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no mundo futuro.» (Mt 12, 31-32)

Segundo a interpretação da Igreja Católica, este texto alude a uma possível purificação além da morte. A afirmação de Jesus: «não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no mundo futuro» é uma expressão tipicamente semítica muito usada nos textos bíblicos. Significa uma negação absoluta: este pecado não será absolutamente perdoado; contudo, deixa aberta a possibilidade de um “perdão no mundo futuro”, isto é, certos pecados, poderão ser perdoados ou expiados depois da morte, isto é, no Purgatório.

Conclusão: a Sagrada Escritura não fornece textos explícitos sobre o Purgatório mas, segundo a opinião de muitos teólogos, aponta algumas linhas gerais que indicam a sua existência: «estão traçados as linhas doutrinais que acabariam por enlaçar-se na doutrina da purificação depois da morte, para os que morrem em amizade com Deus, mas com uma santidade imperfeita».[2] Portanto, os textos bíblicos citados, se compreendidos à luz da tradição e da doutrina católica, aludem a um estado temporário de purificação depois da morte: o Purgatório. Nele, manifesta-se a misericórdia infinita de Deus que quer a salvação de todos os seres humanos e, em Sua Misericórdia, concede às almas a possibilidade de se purificarem depois da morte. O purgatório na Sagrada Escritura



[1] Papa Bento XVI, encíclica «É na esperança que fomos salvos», 2017, n. 48.

[2] José ALVIAR, Escatología, EUNSA, Pamplona, 20113, 340. 

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