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segunda-feira, 30 de março de 2026

A Reencarnação

 A reencarnação é uma crença bastante difundida (também conhecida pelos termos equivalentes gregos de metempsychôsis ou metemsômatôsis), muito enraizada em algumas religiões orientais e teosóficas, que tem várias formulações. A mais conhecida é aquela que apresenta o corpo como mero instrumento da alma, que se purifica de suas culpas até atingir a perfeição e tornar-se independente do corpo, em toda uma série de encarnações sucessivas que, segundo diferentes interpretações, podem ser tanto a um nível mais nobre ou mais humilde, de acordo com o comportamento tido durante a vida terrena;  ou a um nível exclusivamente mais evoluído (neste último caso, é necessário perguntar com base de que justiça, comportamentos que sejam bons ou maus devem receber gratificação). A doutrina da reencarnação, obviamente, não contempla a ressurreição final do corpo.

A revelação cristã exclui a reencarnação e fala de uma missão que o homem é chamado a realizar no decurso da sua única existência sobre a terra.[1]

Uma primeira reflexão para a qual esta crença conduz, é relativa à identidade da pessoa humana. Se a alma se reencarna noutros seres vivos, é oportuno perguntar não apenas quem realmente somos como pessoas, mas também quem são nossos entes queridos. Tal crença enfraquece o vínculo físico entre os membros da família, enquanto o vínculo espiritual entre eles pode até revelar-se inexistente e poderia até ser impróprio falar de familiares. Estas questões não se colocam se cada ser humano for visto como uma pessoa única e irrepetível, composta por uma alma imortal e um corpo corruptível e mortal, que no fim dos tempos será revestido de incorruptibilidade e imortalidade (cf. 1 Cor 15, 52-53).

Uma segunda reflexão está ligada à responsabilidade humana. Se a pessoa pudesse sempre tentar alcançar certos objetivos numa vida futura e não jogasse todo o seu destino numa única vida, poderia adiar certas decisões ou optar por algumas escolhas bastante questionáveis e negativas, apenas porque se sentem mais confortáveis numa perspetiva de curto prazo, ligadas às futuras possibilidades de recuperação. Muito diferente é a perspetiva de quem acredita que as suas escolhas têm um impacto irreversível na economia da sua vida; neste caso, não há justificação para a falta de responsabilidade.

Finalmente, a Comissão Teológica Internacional oferece outras reflexões:

 No campo escatológico, a reencarnação rejeita a possibilidade de condenação eterna e a ideia da ressurreição da carne. Mas o seu principal erro consiste na negação da soteriologia cristã. A alma salva-se através do seu próprio esforço. Desta forma, sustenta uma soteriologia auto-redentora, completamente oposta à soteriologia hétero-redentora cristã. Bem, se a hétero-redenção é suprimida, não é mais possível falar de forma alguma de Cristo Redentor… Quanto ao ponto específico, afirmado pelos reencarnacionistas, da repetibilidade da vida humana, é bem conhecida a afirmação da Carta aos Hebreus 9, 27: «Está determinado que os homens morram só uma vez, depois disso que vem o julgamento»[2]



[1] João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, Cidade do Vaticano, 10 de novembro de 1994, p. 9. Também o aristotelismo, através da doutrina "hilemórfica", afirma a impossibilidade de aceitar no pensamento ocidental este dado incompatível com a lógica do pensador macedónio.

[2] COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, algumas questões atuais de escatologia. La Civiltá Cattolica, Roma, 7 de março de 1992, 3401, p. 488.

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