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segunda-feira, 30 de março de 2026

A falsa felicidade do efémero

 A alegria não é a emoção de um momento: é outra coisa! A verdadeira alegria não vem das coisas, do ter, não! Nasce do encontro, da relação com os demais, nasce do sentir-se aceite, compreendido, amado e do aceitar, do com­preender e do amar: e isto não pelo interesse de um momento, mas porque o outro, a outra, é uma pessoa.

A alegria nasce da imprevisibilidade de um encontro! Ë ouvir-se dizer: «Tu és importante para mim», não necessariamente com pala­vras. Isto é bonito... E é precisamente isto que Deus nos faz compreender. Ao chamar-vos, Deus diz-vos: «Tu és impor­tante para mim, eu amo-te, conto contigo». Jesus diz isto a cada um de nós! Disto nasce a alegria! A alegria do momento em que Jesus olhou para mim.

Compreender e sentir isto é o segredo da nossa alegria. Sentir-se amado por Deus, sentir que para Ele nós não somos números, mas pessoas; e sentir que é Ele que nos chama.

 A doença estéril do pessimismo

A alegria do Evangelho é tal que nada e ninguém no-la poderá tirar (cf. Jo 16,22). Os males do nosso mundo - e os da Igreja - não deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor. Vejamo-los como desafios para crescer. Além disso, o olhar crente é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão, sem esquecer que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5,20). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Apesar de nos entristecerem as misérias do nosso tempo e de estarmos longe de otimis­mos ingénuos; um maior realismo não deve significar menor confiança no Espírito, nem menor generosidade.

Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados, com cara de «vina­gre». Ninguém pode empreender uma luta se de antemão não está plenamente confiante no triunfo. Quem começa sem confiança, perdeu já metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a São Paulo: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12,9).

O triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simul­taneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ter­nura batalhadora contra as investidas do mal. O mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e ego­cêntrica.

É verdade que, nalguns lugares, se produziu uma «deser­tificação» espiritual, fruto do projeto de sociedades que querem construir-se sem Deus ou que destroem as suas raí­zes cristãs.  Noutros países, a resistência violenta ao cristianismo obriga os cristãos a viverem a sua fé às escondidas no país que amam. Esta é outra forma muito triste de deserto. E a própria famí­lia ou o lugar de trabalho podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar a fé e procurar irradiá-la.

Mas «é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua impor­tância vital pata nós, homens e mulheres. No deserto, é pos­sível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com as suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança» (Bento XVI, Homilia na Missa de abertura do Ano da Fé, 11 de outubro 2012).

Em todo o caso, nestas circunstâncias somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado. Se Ele nos entregou como fonte de água viva. Não deixemos que nos roubem a esperança!

A indústria da destruição

Quando, no Livro do Apocalipse, ouvimos a voz do Anjo que dama em voz alta aos quatro Anjos a quem tinha sido concedido devastar a terra e o mar, destruindo tudo:

«Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores» (4 7,3) e nós somos capazes de devastar a terra melhor do que os Anjos. E é o que continuamos a fazer, é isto que levamos a cabo: devastar a Criação, destruir a vida, aniquilar as culturas, devastar os valores e destruir a espe­rança.

Quanta necessidade temos da força do Senhor, para que nos trave com o seu amor e com a sua força, para impe­dir esta desvairada corrida de destruição! Devastação daquilo que Ele nos concedeu, das coisas mais bonitas que Ele criou para nós, para que cuidássemos delas e as fizéssemos crescer, para dar fruto.

O homem apodera-se de tudo, julga-se Deus, julga-se rei. E as guerras: as guerras que continuam, não para semear o trigo da vida, mas para destruir. É a indústria da des­truição! É um sistema, também de vida, em que, quando as coisas não podem ser resolvidas, são descartadas: descartam­-se as crianças, descartam-se os idosos, descartam-se os jovens desempregados. Esta devastação provocou uma cultura do descartável: descartam-se povos inteiros... Eis a primeira ima­gem que me vem à mente, quando ouvimos esta passagem do Apocalipse.

Eis a segunda imagem, na mesma Leitura: esta «grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tri­bos, povos e línguas» (7,9). Os povos, a gente... esses pobres que, para salvar a sua vida, têm de fugir das próprias casas, das suas gentes, das suas aldeias, rumo ao deserto.., e vivem em tendas, sentem frio, sem remédios, famintos, porque o «deus-homem» se apoderou da Criação, de toda aquela beleza que Deus criou para nós.

Mas quem paga a festa? Eles! Os mais pequeninos, os pobres, aqueles que, como pessoas, acabaram descartados. E isto não é uma história antiga: acontece hoje. Direi mais: parece que estas pessoas, estas crianças famintas e enfermas não contam, parece que são de outra espécie, que não são humanas. Esta multidão encontra-se diante de Deus e suplica: «Por favor, salvação! Por favor, paz! Por favor, pão! Por favor, trabalho! Por favor, filhos e avós! Por favor, jovens com a dig­nidade de poder trabalhar!»

Entre estas pessoas perseguidas encontram-se também as que são perseguidas pela fé. «Então um dos Anciãos falou comigo e perguntou-me: "Esses, que estão vestidos com vestes brancas, quem são e de onde vêm?" ( ...) "Esses são os sobreviventes do grande tormento; lavaram as suas vestes e purificaram-nas no sangue do Cordeiro"» (7,13.14). E hoje, sem exagerar, no dia de todos os Santos, gostaria que pensássemos em todos eles, nos Santos desco­nhecidos. Pecadores como nós, pior do que nós, mas des­truídos. A todas estas pessoas que vêm do grande tormento. A maior parte do mundo vive em tormento. E o Senhor san­tifica este povo, pecador como nós, mas santifica-o com o tormento.

E no fim, a terceira imagem: Deus. A primeira, a devas­tação; a segunda, as vítimas; e a terceira, Deus. Na Primeira Carta de São João ouvimos: «Desde já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabe­mos que, quando isso se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque o veremos como Ele é» (1 Jo 3,2): ou seja, a esperança. E esta é a bênção do Senhor, que ainda é a nossa: a esperança. A esperança de que Ele tenha piedade do seu povo, tenha piedade daqueles que vivem no grande tormento e que tenha piedade também dos destruidores, a fim de que se convertam. É assim que a santidade da Igreja progride: com este povo, com cada um de nós, que veremos Deus como Ele é. Qual deve ser a nossa atitude, se quisermos fazer parte deste povo e caminhar rumo ao Pai, neste mundo de devas­tação, neste mundo de guerras, neste mundo de tormento?

Como ouvimos no Evangelho de Mateus, a nossa atitude é a das Bem-aventuranças. Somente este caminho nos levará ao encontro com Deus. Só esta vereda nos salvará da destruição, da devastação da terra, da Criação, da moral, da história, da família, de tudo. Unicamente este caminho: contudo, faz-nos passar por situações difíceis! Trar-nos-á problemas e perse­guição. Mas só este caminho nos levará em frente. E assim, este povo que hoje sofre tanto, devido ao egoísmo dos devas­tadores, dos nossos irmãos devastadores, este povo progride através das Bem-Aventuranças, da esperança de descobrir Deus, de se encontrar face a face com o Senhor, com a espe­rança de se tomarem santos no momento do encontro defi­nitivo com Ele.

Que o Senhor nos ajude e nos conceda a graça desta espe­rança, mas também a graça da coragem de sair de tudo aquilo que é destruição, devastação, relativismo de vida, exclusão do próximo, exclusão dos valores e exclusão de tudo o que o Senhor nos ofereceu: exclusão da paz. Que Ele nos liberte de tudo isto e nos conceda a graça de caminhar na esperança de nos encontrarmos um dia face a face com Ele. E esta espe­rança, irmãos e irmãs, não desilude!

 

Papa Francisco, O Evangelho da vida nova, Edição portuguesa, Editora Nascente, Braga, 2015, pp. 18-28

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