Os Anjos foram criados bons
Ser cristãos significa estar inseridos numa luta entre o bem e o mal, uma guerra espiritual entre anjos e demónios. A Sagrada Escritura diz que esta luta começou ainda antes da criação do homem. O profeta Isaías diz:
«Como caíste dos céus, estrela da manhã, filho da aurora? Como foste abatido por terra, ó dominador das nações? Tu que dizias no teu coração: 'Subirei aos céus, estabelecerei o meu trono acima das estrelas de Deus, sentar-me-ei na montanha da Assembleia, na extremidade do céu; subirei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo'. Infeliz! Foste precipitado no abismo, no mais profundo do mundo dos mortos!» (Is 14, 12-14)
O Evangelho de São Mateus fala do juízo final: «Em seguida dirá aos da esquerda: «Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos!» e deixa entender que os condenados receberão a mesma sorte dos demónios (Mt 25, 41).
São Pedro afirma: «Deus não poupou os anjos que pecaram mas, precipitando-os no Inferno, entregou-os a um fosso de trevas, onde estão reservados para o Juízo» (2Pd 2,4)
Podemos dizer que, antes da criação do mundo, Deus criou as criaturas angélicas e multiplicou nelas todas as perfeições. Isto seria suficiente para magnificar a grandeza do Criador. Entre todas estas criatura sobressai um Serafim, o Príncipe das legiões celestes: Lúcifer.
«Assim fala o Senhor Deus: Tu eras um modelo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza admirável. Estavas no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda a espécie de pedras preciosas: sardónica, topázio, diamante, crisólito, ónix, jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda, cravejadas de ouro. Tamborins e flautas estavam ao teu serviço desde o dia em que foste criado. Eras um querubim protetor, colocado sobre a montanha santa de Deus, caminhavas por entre pedras de fogo. Eras irrepreensível na tua conduta, desde o dia em que nasceste, até àquele em que a iniquidade apareceu em ti. Com o aumento do teu comércio, o teu íntimo encheu-se de violências e pecados. Por isso, Eu precipitei-te da montanha de Deus, e fiz-te perecer, ó querubim protector, no meio das pedras de fogo». (Ez 28, 12-13)
Lúcifer era modelo de perfeição, de uma beleza admirável. Era o primeiro dos Arcanjos, o chefe da coorte celeste e irradiava a luz divina sobre os outros anjos. Ele era, de facto, o anjo mais inteligente por Deus criado: conhecia os secretos divinos e os compreendia quase em plenitude. Por isso, Deus, deu-lhe o nome de Lúcifer, portador de Luz.
Deus o criou o ser humano, feito de alma e corpo, a «imagem e semelhança de Deus». Pela sua natureza corpórea é atraído pela terra; mas pela sua natureza espiritual eleva-se até Deus.
Desde o primeiro instante, Lúcifer e os outros anjos viram o Mistério da Santíssima Trindade, inclusive, a criação do homem e o Mistério da Encarnação.
Segundo os Padres da Igreja (Tertuliano, Cipriano, Basílio e Bernardo), a prova os anjos consistiu em coloca-los diante do mistério da encarnação, da união hipostática de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O Deus, três vezes santo, rebaixou-se de tal forma, tão debaixo da natureza angélica!
Era algo que os anjos não podiam compreender, mas deviam aceitar, na humilde submissão a Deus. Os anjos que mas ficou pasmado foi precisamente Lúcifer. Perto dele, outro Serafim, Miguel, é colocado diante da mesma realidade. Ele não compreende, mas confia em Deus. Ele diz para os outros anjos: «Não procurai compreender! Aceitai, aceitai, aceitai». Mas Lúcifer fecha o seu espírito e levanta a dúvida: como pode uma simples criatura humana ser proclamada: Mãe do Criador! Como é uma criatura pode dar à luz o incriado? Os anjos cantavam: «Eis o Vosso Senhor, eis a Vossa Rainha. Adorai o Senhor, inclinai-vos diante d’Ela». Lúcifer não consegue aceitar.
Os Anjos foram criados bons
«O Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente; mas ele, por si, é que se fizeram maus». A Escritura fala dum pecado destes anjos (2Pd 2,4). A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino. Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). O Diabo é «pecador desde o princípio» (1Jo 3, 8), «pai da mentira» (Jo 8, 44). (Catecismo da Igreja Católica, 391, 392)
O Catecismo de Pio X, que é um resumo da doutrina católica em forma de perguntas e respostas, na questão 39 afirma:
Foram os Anjos todos fiéis a Deus? «Os Anjos não foram todos fiéis a Deus, mas muitos deles, por soberba, pretenderam ser iguais a Ele e independentes; por causa deste pecado, foram excluídos do Paraíso para sempre e condenados ao Inferno».
A prova os anjos
Os anjos, depois de terem sido criados, foram submetidos a uma prova, afim de serem admitidos à «visão beatifica», à visão da essência de Deus.[1] A queda dos anjos aconteceu antes da criação do homem e não foi por causa da inveja que o diabo se tornou soberbo, mas por causa da soberba que se se tornou invejoso.[2]
O Papa Paulo VI, na sua famosa audiência de 15 de novembro de 1972, afirma: «Os Demónios são criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas; constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual conhecemos pouco».
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica resume a queda dos Anjos desta forma: «O que é a queda dos Anjos? Com esta expressão, indica-se que Satanás e os outros Demónios de que falam as Sagradas Escrituras e a Tradição da Igreja, de Anjos criados bons por Deus, se transformaram em maus, porque, mediante uma opção livre e irrevogável, recusaram Deus e o Seu Reino, dando assim origem ao Inferno».
O pecado dos anjos aconteceu antes da «visão beatífica» de Deus: as criaturas só podem pecar antes da visão de Deus, porque Deus é a verdade fulgurante, o sumo bem, a Sua face é tão atraente e irresistível que o conceito de pecado nem sequer aparece. Assim, os anjos não tinham visto a Deus antes de pecarem.
Em que consiste o pecado dos anjos?
Os anjos são puro espírito e foram dotados com dons superiores aos concedidos aos homens. Tinham pleno conhecimento e entendimento. Qual foi o motivo que os levou a pecar? São Tomás de Aquino sugere que Deus lhes revelou o plano de salvação dos homens, ou seja, que Jesus haveria de encarnar-se no seio de uma virgem, viver de forma humana e morrer na cruz. Tal plano teria sido encarado como absurdo, dado a majestade divina frente à pequenez humana. Lúcifer ter-se-ia recusado de servir o Deus Encarnado e teria convencido, por meio de mentiras, outros anjos. Isso teria motivado o «não servirei» proferido por ele e que precipitou a batalha narrada em Apocalipse
A Sagrada Escritura e a tradição da Igreja ensinam que o pecado de dos anjos foi um pecado de soberba que produziu outros pecados como o orgulho, a inveja, a mentira etc. Lúcifer, apesar de ser “o Anjo mais elevado, mais belo e mais perfeito” - como diz Origénes - foi capaz de se transformar em diabo - num ser terrível e maligno - tal como é conhecido.
A palavra Satanás significa adversário, inimigo, opositor. A palavra Diabo deriva de um verbo grego e significa «Acusador». Era um anjo bom, mas, com a queda, deformou-se e tornou-se «demónio». Desde que consentiu ao pecado de soberba, Satanás, foi expulso do Céu. Mas não se corrompeu e não se deformou sozinho. Era o Anjo mais belo e grandioso no Céu, tanto que conseguia dominar os outros Anjos, que o admiravam pela sua tamanha beleza e a sua grande inteligência. Por isso, com o seu próprio pecado, conseguiu arrastar uma multidão de Anjos.
O pecado dos anjos é irrevogável, não porque Deus não os queira perdoar, mas porque, presos no seu orgulho, não querem arrepender-se.
É o carácter irrevogável da sua opção, e não uma falha da infinita misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. «Não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte» (Catecismo 393).
Como é que aconteceu?
Satanás auto-convenceu-se de que, pelo seu poder e inteligência, podia ser igual a Deus, o como tal ser reverenciado pelos outros anjos. Estes, também dotados de inteligência, de livre arbítrio, embora tivessem um certo grau de conhecimento de Deus, deixaram-se convencer por ele, e acreditaram que ele era maior do que o próprio Deus, e que não poderiam, de maneira alguma, estar ao serviço da criatura humana.
São Boa Ventura, comentando a queda dos Anjos, afirma que os Anjos que seguiram Lúcifer, não somente pecaram porque acreditaram nas suas mentiras, mas também, porque, de alguma forma, caíram no mesmo pecado de soberba deixando-se arrastar por ele. Todos os Anjos passaram pela mesma prova! A prova da liberdade, da escolha, da inteligência e da razão! Todos poderiam ter escolhido a Deus! Nenhum deles estava obrigado a seguir a rebeldia de Lúcifer! Contudo, por livre escolha, se corromperam, se rebelaram e se transformaram em demônios!
Na ocasião da queda do Anjos, Lúcifer revelou-se tal como ele é: o “pai da mentira” e “assassino por excelência” (Cf. Jo 8,44) e, com a sua habilidade, conseguiu enganar muitos Anjos que o seguiram. De certa forma, pecou por ter “assassinado” a possibilidade que os anjos tinham de continuarem uma vida em Deus. Ele foi assassino e mentiroso desde o princípio: não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala diz mentiras, fala do que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira (Jo 8,44).
Satanás é chamado “pai da mentira” e “assassino”, porque foi exatamente com uma mentira que induziu a pecar a Adão e Eva, convencendo-os a comer o fruto da árvore do conhecimento, porque se tornariam com como Deus (Cf. Gn 3,4), trazendo, assim, a morte espiritual e física não somente para Adão e Eva, mas para toda a humanidade!
Ele se mostrou assassino e mentiroso! Mentiu para os seus Anjos, mentiu para os nossos primeiros pais, trouxe a morte para o mundo e a sua própria rutura definitiva para com Deus. A palavra de Deus atesta esta verdade quando nos diz: «pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos» (Sb 1,13); «ora, Deus criou o ser humano incorruptível, à imagem da Sua própria natureza: foi por inveja do Diabo que a morte entrou no mundo...» (Sb 2,23-24) Portanto, ele é mentiroso e assassino desde o princípio.
Bibliografia:
- Catecismo da Igreja Católica, A queda dos Anjos, nn. 391-395
- José António Fortea, Summa Daemoniaca, Paulus, 2010; Questão 1: O que é um demónio? Questão 2: Porque é que Deus pós à prova os anjos?
- Ferdinado Holbock, Summa Angelorum, Paulus 2016, pp. 23-24
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[1] A «visão beatífica» consiste na visão de Deus face-a-face, o que a Igreja entende quando fala da salvação eterna: o Paraíso. Os anjos tinham um conhecimento de Deus, viam a Sua luz, ouviam a Sua voz majestosa e santa, mas não viam a o rosto de Deus, na sua essência divina.
[2] Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus» (IV Concílio de Latrão (ano 1215), Cap. 1, De fide catholica: DS 800.).
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