«Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más» (Jo 3, 18-19).
A condenação de uma pessoa dá-se nesta escolha fundamental: ou não tenho medo da luz e me mostro assim como sou: permaneço reto, e assumo todas as consequências; ou procuro proteção nas trevas para me esconder na obscuridade da ambiguidade ou das mil e uma defesas inconscientes, subconscientes e conscientes: para esconder, lá em baixo, a verdade.
Quando nos expomos à luz aparecemos como somos, e por vezes isto nos faz sofrer muito. Mas é uma dor fecunda, é uma dor que dá vida, é uma dor que faz crescer. As trevas começam com o sentido contrário: são uma boa anestesia, não fazem sofrer, mas conduzem-nos à desorientação, ao autodesprezo, em última instância não têm saída.
Refletir sobre a educação põe-nos diante desta antinomia, luz e trevas e isto é libertador porque nos leva a procurar a verdade: a verdade tolera a luz, as trevas escondem-na, a mentira esconde-a, e assim a duplicidade esconde-a, como a vida dupla, esconde-a tudo o que não pode estar bem exposto à luz.
E qual é o caminho para se expor à luz, para se expor à verdade? As palavras não servem para nada, não existem receitas. Poderia dizer-se: «Faz assim, assim, assim e assim.»; mais do que as palavras, mais do que as ideias, o caminho é feito de gestos, e os gestos são muito simples, como está escrito na carta aos Colossenses:
«Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, 13suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai» (Col 3, 12-15)
São Paulo diz: «Revesti-vos de bondade», ou seja, não se agridam uns aos outros, sejais cheios de bondade, de benevolência. Revesti-vos de profunda compaixão. Compaixão não é lamentar-se, é patire con, «sofrer com»; ter o coração aberto que sofre com os problemas dos outros. Olhar em volta e inserir os problemas dos outros na nossa vida e no nosso caminhar diário; praticar a benevolência, a humildade, a doçura e a paciência. E, como se não bastasse, da paciência ele diz: «Tolerando-se uns aos outros e perdoando-se mutuamente, se alguém tiver algo a lamentar em relação ao outro.» Tolerai-vos e perdoai-vos, sede humildes, pacientes, sede compreensivos: tudo isto se faz com gestos, gestos de proximidade, gestos de caridade, gestos de amor.
O caminho da verdade é o caminho da luz, nasce apenas de um coração que quer amar. Padre, mas eu não sei amar. Ninguém sabe amar, aprendemos todos os dias. Tende coragem. Como? Com gestos mínimos: benevolência, compaixão profunda, humildade, doçura, paciência, suportando-nos uns aos outros e tolerando-nos todos os dias.
Temos de nos expor à luz, porque a verdade está ali, mas, para conseguirmos é através de comportamentos de proximidade. Que o Senhor nos conceda esta graça todos os dias.
A Constituição Gaudium et Spes, afirma:
13. Estabelecido por Deus num estado de santidade, o homem, seduzido pelo maligno, logo no começo da sua história abusou da própria liberdade, levantando-se contra Deus e desejando alcançar o seu fim fora d'Ele. Tendo conhecido a Deus, não lhe prestou a glória a Ele devida, mas o seu coração insensato obscureceu-se e ele serviu à criatura, preferindo-a ao Criador (Cfr. Jo. 3, 17; Mt. 20, 28; Mc. 10,45). E isto que a revelação divina nos dá a conhecer, concorda com os dados da experiência. Quando o homem olha para dentro do próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos males, que não podem provir de seu Criador, que é bom. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu princípio, perturbou também a devida orientação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a sua ordenação quer para si mesmo, quer para os demais homens e para toda a criação.
O homem encontra-se, pois, dividido em si mesmo. E assim, toda a vida humana, quer singular quer coletiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mais: o homem descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias. Mas o Senhor em pessoa veio para libertar e fortalecer o homem, renovando-o interiormente e lançando fora o príncipe deste mundo (cf. Jo 12,31), que o mantinha na servidão do pecado (Cfr. Rom. 7,14 s.). Porque o pecado diminui o homem, impedindo-o de atingir a sua plena realização. (Gaudium et Spes, 13) O Apóstolo São Paulo, na Carta aos Romanos:
«a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço. Ora, se o que eu não quero é que faço, estou de acordo com a lei, reconheço que ela é boa. Mas então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico. Ora, se o que eu não quero é que faço, então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, pois, com esta lei: em mim, que quero fazer o bem, só o mal está ao meu alcance. Sim, eu sinto gosto pela lei de Deus, enquanto homem interior. Mas noto que há outra lei nos meus membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me prisioneiro na lei do pecado que está nos meus membros. Que homem miserável sou eu! Quem me há-de libertar deste corpo que pertence à morte? Graças a Deus, por Jesus Cristo, Senhor nosso! Concluindo: eu sou o mesmo que, com o espírito, sirvo a lei de Deus e, com a carne, a lei do pecado» (Rom 7, 1425)
Papa Francisco, O diabo existe, Ed. Farol, Rio de Mouro 2019 (pp. 49-52)
Sem comentários:
Enviar um comentário