Um
fenómeno universal
“Eu
era jovem, era homem, ia ser médico. Homens jovens, a exercer a profissão de
que gostam, não ficam deprimidos — ou pelo menos pensava eu. De
facto, estava à beira do colapso. Sempre tive uma personalidade de altos e
baixos, com tendência para mudanças de humor que iam e vinham sem razão. Desta
vez a escuridão ficou comigo. Quando me morreu um paciente predilecto, dei
comigo a considerar-me indigno. Não valia nada como médico, nunca conseguira nada,
seria sempre um fracasso. Tinha dificuldade em adormecer e acordava cedo,
ensopado em suor. Perdi todo o interesse pelo sexo e comia para iludir a
infelicidade. Fui ter com o meu director para lhe dizer que ia abandonar a
medicina. Estava disposto a desistir da própria vida. Era a depressão, com
certeza, e eu reconhecia-o.” (Michael Shooter)
Este
artigo de jornal é da autoria de um pedopsiquiatra da Gwent Community Health
Trust. Ele afirma que cada pessoa, em cada cinco entra em depressão, em certos
momentos da sua vida. Por isso, em qualquer altura, estará a lutar com uma
depressão de qualquer grau. Os homens são tão vulneráveis como as mulheres e
podem até ser mais. Sim, a depressão é um fenómeno universal que afecta as
pessoas de todas as idades, embora parecer estar a aumentar nos adolescentes e
nos jovens adultos. Segundo um relatório recente do Royal Coilege of
Psychiatrists de Londres, a depressão atinge 65 por cento dos homens, por isso,
o suicídio é três vezes mais provável nos homens do que nas mulheres. Nas idades
entre 16 e 24 anos, no grupo dos homens jovens e solteiros, houve um aumento de
75 por cento de suicídios desde 1982.
A
“constipação” das perturbações mentais
A
depressão é conhecida como a constipação das perturbações mentais e a doença
psiquiátrica mais espalhada que hoje afecta a humanidade. Apesar de ser tão
comum, é sempre um estado muito complicado, difícil de definir, embora é
possível descrever-se através dos sintomas. Na sua forma mais branda, a
depressão pode ser um período passageiro de tristeza que se segue a uma desilusão
pessoal; na sua forma mais severa pode esmagar as suas vítimas com uma
tristeza acompanhada de pessimismo, de apatia que o impede de seguir em frente,
de uma fadiga generalizada, acompanhada de perda de energia e incapacidade para
se interessar por algo, com uma diminuição do amor próprio, muitas vezes
acompanhada de autocrítica, fazendo-nos sentir culpados, incapazes,
desesperados e até suicidas. Pode, também, incluir perda de espontaneidade,
insónia e perda de apetite.
• A
depressão tem muitas vezes uma causa física. Pode ser originada por falta de
sono, exercício insuficiente, efeitos secundários de drogas, doença física ou
uma dieta imprópria.
•
As experiências da infância podem levar à depressão em fases mais tardias da
vida. Crianças que foram separadas dos pais e criadas numa instituição,
privadas de contacto humano caloroso e contínuo, mostram apatia, saúde débil e
tristeza que podem mais tarde levar à depressão.
• A
experiência de adolescentes e adultos em conflito com os pais, com problemas em
se tornarem independentes, pode aumentar a possibilidade de uma depressão
numa fase mais tardia.
• O
“stress” devido à perda de uma oportunidade, um trabalho, um lugar de destaque,
saúde ou haveres pode estimular a depressão.
•
Quando enfrentamos situações sobre as quais não temos controlo, ficamos
deprimidos, apercebendo-nos que as nossas acções são inúteis por mais que se
tente.
•
Pensamentos negativos podem gerar depressão. A forma como pensamos determina
muitas vezes como nos sentimos. Se pensamos negativamente, vendo apenas o lado
negativo da vida, a depressão é inevitável.
• A
depressão pode surgir da ira quando esta é reprimida no interior e se vira
contra nós mesmos. A maioria das vezes a ira começa com uma mágoa. Se a ira não
é admitida e ultrapassada, leva à vingança. Se não é possível uma acção
vingativa, pode-se entrar em depressão.
• Quando uma pessoa sente que talhou ou fez algo
de errado, aparece a culpa, e com ela vem a auto condenação, a frustração e
outros sintomas de depressão.
Esteja
atento
•
Aos mitos. É um mito, e não uma verdade, que a depressão resulta sempre do
pecado ou da falta de fé em Deus; que a depressão é causada pela autocomiseração;
que é errado um cristão ficar deprimido em qualquer ocasião; e que a depressão
pode ser afastada permanentemente por exercícios espirituais.
•
As realidades da vida. Na nossa vida há “dias de picos de montanha”, em que
tudo corre bem. Há “dias de planície”, que são comuns, em que não estamos
exaltados ou deprimidos. Há “dias de vale”, em que nos arrastamos a custo por
entre desgostos, e que, se persistem, tornam-se dias de profunda depressão.
• A
depressão mascarada. Em algumas pessoas a depressão está escondida delas
mesmas, mas é revelada de outras formas, tais como sintomas físicos, queixas,
agressão, raiva, bebida em excesso, violência e auto-destruição.
• A
situação difícil de outras pessoas. Aqueles que têm de viver com uma pessoa
deprimida sentem-se muitas vezes afectados pelas suas preocupações, cansaços e
falta de interesse em actividades sociais.
• A
medicação. Há tratamentos eficazes e curas para a depressão. A maioria dos
tratamentos podem reduzir os sintomas, pelo menos em algumas pessoas, e muitas
vezes a depressão pode ser eliminada completamente.
· Há situações propensas à
depressão. Por exemplo, é de esperar que uma viúva recente fique deprimida, especialmente
no dia do aniversário, no dia do pai ou no primeiro aniversário da morte do seu
marido. Para alguns dé nós, dias de festa como o Natal podem originar
depressão se estivermos separados dos entes queridos ou se não tivermos
dinheiro para comprar prendas.
•
Às técnicas de luta. Estudos mostram que as pessoas que resistem à depressão
são aquelas que aprenderam a dominar e a lutar contra o “stress” da vida. Se
sentir que tem algum controlo sobre as circunstâncias, é menos provável que se
sinta desamparado e consequentemente deprimido.
SUGESTÕES
•
Se a sua depressão tem uma base física, procure a ajuda de um médico
competente; mude os seus hábitos alimentares se forem deficientes. A depressão,
por vezes, trata-se melhor através de mudanças na sua dieta.
•
Se as influências passadas ou pressões familiares estiverem a gerar depressão,
discuta esses problemas com alguém que o possa ajudar a vê-los através de uma
perspectiva diferente e, se possível, a ter acções reparadoras.
•
Se a depressão resultou do “stress” provocado por uma perda, reconheça a perda,
expresse a dor a alguém e siga em frente.
•
Se está deprimido devido a um hábito de pensamento negativo sobre si mesmo,
reavalie os seus pensamentos autocríticos. Será que, por causa de alguns
desgostos, diz: “Isto prova que não presto” ou “Nunca consigo fazer nada correcto”
ou “Ninguém me quer agora”? Lembre-se que muitas vezes estas auto-críticas não
são baseadas em argumentos sólidos.
•
Se sente falta de energia ou motivação para fazer alguma coisa que tenha
valor, tente envolver-se, em primeiro lugar, na rotina diária e em actividades
em que é mais provável ser bem-sucedido.
•
Se o ambiente que o rodeia está a gerar depressão, tente modificar a rotina,
reduza a quantidade de trabalho ou faça férias periodicamente.
•
Se está deprimido porque está só e isolado, adira a um grupo da igreja ou a
outros grupos sociais em que se sinta bem-vindo e aceite. Recorra aos outros
para os servir. Aqueles que acorrem para ajudar os outros são os que mais
beneficiam e são mais ajudados.
PALAVRAS
DE CONFORTO
“Ele
é o resplendor da sua glória e a imagem da sua substância e sustenta todas as
coisas pela sua palavra poderosa” (Hb 1,3).
Quando
está deprimido porque está a enfrentar situações que estão fora do seu
controlo, veja primeiro se consegue controlar pelo menos uma parte do seu ambiente.
Segundo, reconheça que alguns acontecimentos são inevitáveis e, por isso, incontroláveis
na sua vida. Tal como um pássaro pode empoleirar-se num só ramo e um rato pode
beber do rio não quanto quer, mas quando consegue, assim, o homem não pode
controlar tudo, só consegue certos acontecimentos e circunstâncias. Tal como a
aceitação do que é possível é o início da felicidade, também a aceitação do que
é impossível é o início da sabedoria. Terceiro, acredite que tudo está sob o
controlo de Deus que tudo pode. O diabo até para Deus é diabo. Deus tem sempre
a última palavra. Deus é tão poderoso que pode direcionar qualquer mal para um
bom fim. Para a nossa mente limitada, o caminho de Deus é complexo e,
consequentemente, difícil de prever, mas quando Deus move as peças, elas
encontram sempre algum tipo de ordem. Com Deus há mistérios, mas não há erros.
“Deveis ter em mente tudo o
que é verdadeiro,
tudo o que é honesto, tudo o que é justo,
tudo o que é puro, tudo o
que é amável” (Fi
4,8).
Cada
um de nós fala silenciosamente consigo mesmo. Se esta conversa é quase sempre
negativa, isso pode levar à depressão. Se tem o hábito de dizer a si mesmo “não
presto”, recorde o que diz a Bíblia: “Como pensas no teu íntimo, assim és”.
Seja amigo de si mesmo e os outros sê-lo-ão também. Respeite-se a si mesmo se
quer que o respeitem. Dê valor à estima que tem por si mesmo. Se consegue
olhar-se ao espelho e sorrir para o que vê, então ainda há esperança para si.
Se tem o hábito de ver apenas o mal nas pessoas e no mundo, relembre-se do que
Shakespeare disse: “Não há nada bom ou mau, mas pensar fá-lo ser.”
Lembre-se
que há muito bem no mundo. O céu não é menos azul porque o cego não o vê.
Seja
optimista. O optimista diz que o seu copo está meio cheio, enquanto o
pessimista diz que o seu copo está meio vazio. Medite na Palavra de Deus, nas
coisas que são positivas, boas e justas. A meditação é uma forma de conversar
consigo mesmo, que afasta a sua mente do pensamento negativo que leva à
depressão.
“Então,
Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: “Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas
vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes? Jesus respondeu: «Não te digo até
sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22).
Quando
estamos magoados, ficamos zangados e a raiva esconde a dor. Quando estamos
zangados, queremos vingança e a vingança esconde a raiva e a dor. Quando somos
vingativos, queremos ter acções destrutivas, mas se isso não é possível,
entramos em depressão. A solução do cristão para este tipo de depressão é o
perdão. Perdoe com todo o seu coração àquele que o magoou. Jesus pediu-nos
repetidamente para perdoarmos. Perdoe e depois esqueça o que perdoou. Como
esquecemos facilmente a bondade, mas guardamos as injúrias para sempre no
fundo da nossa mente, como se fossem antigas relíquias! E melhor esquecer e
sorrir que lembrar e ficar triste. Se seguir o caminho de não perdoar, no fim
encontrará apenas um deserto com as raízes retorcidas do azedume puxando-o
para a vingança, e a vingança nunca repara uma injúria. Como pode o sangue ser
lavado com sangue? E, portanto, mais honroso esquecer uma injúria do que
vingá-la.
“Porque
a tristeza, que vem de Deus produz arrependimento que leva à salvação e não dá
lugar ao remorso, enquanto a tristeza do mundo produz a morte” (2Cor 7,10).
Podemos
aperceber-nos que a depressão dele ou dela se deve a sentimentos de culpa
acompanhados de auto condenação por ter feito algo de errado. E claro que o
pecado traz consigo sofrimento interior a uma consciência culpada. Tal como a
virtude é a sua recompensa, assim o vício é a sua punição. Não se pode fazer
o mal sem sofrer o mal. Mas o Deus de misericórdia perdoa todos os nossos
pecados. O nosso Deus é um grande apagador. Quando perdoa, entrega a ofensa ao
esquecimento eterno. Por isso, dirija-se a Ele com o coração arrependido,
revele a sua chaga e suas feridas e suplique pela cura. Ele enviará o seu
espírito curativo aos recantos sombrios da sua culpa. Mas tome cuidado para
que o seu arrependimento não seja uma mágoa mundana que é apenas remorso; o
remorso é débil, pois volta a pecar e acaba na morte. Tenha, portanto, uma
mágoa piedosa, que seja construtiva e leve ao arrependimento que conduza à
salvação e não deixa remorso.
“Aprendi
a contentar-me com o que tenho. Sei viver na penúria e sei viver na
abundância. Tudo posso naquele que me dá força. O meu Deus proverá a todas
as vossas necessidades conforme as suas riquezas em Jesus Cristo” (El
4,11-19).
Por
vezes somos atirados para a depressão porque temos de enfrentar desgostos, ou
perdemos algo valioso, ou fomos rejeitados, ou fracassámos num empreendimento
importante. Todos temos estes períodos de infelicidade e desânimo. Mesmo
assim, há meios pelos quais podemos prevenir e suavizar os sopros da depressão.
Um meio seguro é confiar em Deus. Se Deus é Deus, então não existe problema
insolúvel, e se Deus é o seu Deus, então nenhum dos seus problemas fica sem
solução. Deus está mais perto que a sua respiração e mais próximo que as suas
mãos e pés, especialmente quando estiver em dificuldade. E verdade que nem
sempre podemos encontrar a marca da mão de Deus, mas podemos sempre confiar no
seu coração porque o seu amor é igual à sua grandeza. Deus ama-nos porque somos
dignos de ser amados, sim, mas ainda mais porque Ele é amor. Aprenda a ver as
suas circunstâncias através do amor de Deus em vez de ver o amor de Deus
através das suas circunstâncias.
“Digo-vos
isto para terdes paz em mim; no mundo tereis aflições, mas tende confiança: Eu
venci o mundo!”. (Jo 16,33)
Aqueles
que contam com as provações como parte da vida, incluindo a vida cristã,
manter-se-ão sempre preparados para as a enfrentar e salvarem-se assim de cair
demasiado facilmente em depressão. O brilho perpétuo do sol não é comum neste
mundo, nem é bom para nós. Não há como passar por este mundo sem sofrer um
arranhão. As provações não existem certamente com o intuito de dar prazer, mas
existem para nosso benefício. Oferecem-nos oportunidades para demonstrarmos o
nosso carácter. Ficamos mais sábios através das adversidades. Jesus morreu para
afastar de nós a maldição e não para afastar de nós a cruz. Jesus prometeu o
céu depois da morte e não antes. As nossas provações fortalecem os músculos
espirituais. As nossas aflições preparam-nos para recebermos a graça de Deus
brilha mais forte. E por isso que os cristãos estão no seu melhor,
paradoxalmente, quando estão na fornalha da aflição.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo!
Estou em desespero e nas
garras de ferro da depressão.
As coisas correm mal em todos os sentidos.
Sinto que o meu coração se
parte em dois.
Preciso que venhas e habites
nele.
A escuridão deprime tudo à
minha volta.
Não consigo combater esta
escuridão
batendo-lhe com as minhas
mãos.
Continuo a ser teu, Senhor;
do fundo do meu coração chamo
por ti;
a minha alma espera por ti,
pois nas tuas palavras está
toda a minha confiança.
Apresento a minha fraqueza à
tua força,
a minha confusão à tua
compaixão,
a minha aflição à tua grande
agonia na cruz.
Possa a depressão que estou a
sentir servir de cura.
Toca as feridas do meu
espírito com o bálsamo do perdão,
derrama o óleo da tua
serenidade nas águas do meu coração.
Vira a minha face suavemente
para ti,
ajuda o meu coração a amar
e dá determinação a minha vontade,
pelo que eu lute até ao fim.